futuro da farmacoterapia medicina chinesa

4 Reflexões sobre a Medicina Chinesa na infertilidade e gravidez

Gravidez e evolução: pensar na Medicina Chinesa fora da caixa

Regra geral, as mulheres grávidas sofrem enjoos no início da gravidez.

A medicina ocidental e a medicina chinesa desenvolveram tratamentos de forma a aliviar estes sintomas e a melhorar a qualidade de vida da grávida.

Tradicionalmente qualquer pessoa com formação em saúde olhava para os vómitos como um sintoma, uma forma do corpo do paciente comunicar que algo está mal, que precisa de tratamento.

Nós aplicamos esse pensamento em todas as situações, mesmo durante a gravidez, no entanto a gravidez não é uma doença.

Poderá um sintoma, como o enjoo, durante a gravidez ser considerado um sintoma de doença?

Tudo depende da forma como olhamos o problema; ora olhamos numa perspetiva clinica, ora olhamos numa perspetiva evolutiva.

Façamos algumas perguntas simples:

Porque é que as mulheres grávidas têm enjoos e vômitos?

Se isso é tão mau porque é que a seleção natural não os eliminou?

Estas foram as questões com que Margie Profet se interrogou antes de chegar à sua teoria dos enjoos da gravidez que lhe valeu o prémio da MacArthur Foundation, em 1993.

De inicio começou por colocar várias hipóteses como:

(1) as mulheres grávidas podem ser “particularmente vulneráveis à doença” sendo os enjoos uma consequência de um agente infeccioso;

(2) os enjoos podem ser provocados por um qualquer agente tóxico;

(3) uma consequência inevitável de alterações hormonais;

(4) podem ser benéficos para a gravidez, uma vez que o feto não tem capacidade de aguentar muitos dos produtos tóxicos existentes em vários alimentos.

David Wilson, na sua magistral obra “A Evolução Para Todos“, publicada na Gradiva mostra-nos o pensamento seguido para testar cada uma destas hipóteses.

Se os vómitos fossem provocados por um agente bacteriológico, então seria possível descobri-lo e tratar os sintomas com antibióticos.

Se fosse um agente tóxico então teria de ser algo recente da nossa sociedade e, de certeza, que existiriam sociedades em que as mulheres não sentiriam enjoos e se os enjoos da gravidez fossem um sub-produto de modificações hormonais que têm lugar durante a gravidez (como a cauda enrolada do cão), então devia ser possível descobrir as associações ocultas”. (1)

Por outro lado a hipótese de ser um mecanismo evolutivo cuja finalidade consiste em proteger o embrião leva-nos a novas lógicas que permitem validar ou negar esta hipótese.

Neste caso pode-se supor que as náuseas deveriam ser mais intensas no período em que o embrião é mais vulnerável e deveriam ser desencadeadas por alimentos com maior probabilidade de fazerem mal ao embrião”. (2)

Margie começou a colocar estas questões e a compará-las com os dados científicos que dispunha.

Em primeiro lugar, os enjoos são mais frequentes no início da gravidez, ou seja, no período em que o embrião ainda está a desenvolver os seus sistemas e órgãos e em que é mais sensível às toxinas presentes nos alimentos.

Em segundo lugar, sabemos que alimentos mais condimentados e amargos têm maior probabilidade de provocar o aborto e estes alimentos também são aqueles que maior probabilidade tem de provocar enjoos durante a gravidez.

Em terceiro lugar, outros dados médicos, como os dados de um investigador médico que em 1940 mostravam uma maior prevalência de abortos em mulheres que não sofriam enjoos durante a gravidez, vieram fortalecer a hipótese evolutiva.

E estes não foram os únicos dados.

Maggie conseguiu reunir toda uma vasta gama de dados que tornaram a teoria válida e coesa a ponto de ser galardoada com o prémio da Fundação MacArthur.

Deixemos, novamente, o fabuloso David Wilson falar.

“As grávidas não só evitam determinados alimentos, mas os seus corpos também trabalham mais para eliminar os produtos tóxicos dos alimentos que elas ingerem. Os alimentos deslocam-se mais lentamente através dos intestinos. O fluxo sanguíneo para os rins aumenta. O fígado eleva gradualmente a produção de enzimas. O nariz torna-se mais sensível aos cheiros. Até o hábito aparentemente bizarro de comer argila se torna explicável, uma vez que se provou que a argila reduz a absorção de produtos químicos tóxicos para a corrente sanguínea e é um ingrediente fundamental do Kaopectate, usado para tratar problemas de estômago e náuseas. Estas alterações coordenadas têm todas a marca distinctiva de um importante «plano de guerra» fisiológico que evoluiu ao longo de milhões de gerações, muito antes do nosso aprecimento como espécie, para resolver um problema recorrente de sobrevivência e reprodução.” (3)

prescrição de fitoterapia medicina chinesa

Desvantagens dos tratamentos de medicina chinesa na infertilidade

Existem indicações clínicas que são fáceis de tratar e não custam muito dinheiro aos doentes.

Por exemplo os meus pacientes com hérnias e menos de 50 anos são tratados com perto de 5 consultas de acupuntura clinica e o sucesso anda acima dos 95%.

Pacientes com mais de 50 anos já precisam de gastar quase 3 vezes mais dinheiro e a taxa de sucesso desce para volta dos 60%.

Mas mesmo assim vale a pena investir pelas melhorias que a maioria dos pacientes tem.

Quer queiramos, quer não, temos de entrar em linha de conta com estes fatores e com a nossa prática clínica quando aconselhamos um paciente a fazer determinado tratamento.

Infelizmente a infertilidade acaba por ser um tratamento com algumas desvantagens quando comparada com o tratamento de dor ciática, por exemplo.

Existem menos certezas nos tratamentos de infertilidade

Quando um tratamento de dor ciática não resulta após 4 a 5 consultas de medicina chinesa, regra geral aconselho o paciente a desistir das consultas.

Ou seja o paciente não paga muito mais do que o necessário para saber se o tratamento vai surtir efeito (costumam ficar-se pelas 3 consultas de acupuntura!).

No entanto não existe forma de saber se a infertilidade está a melhorar ou não, ou seja, a paciente precisa de fazer tratamentos de acupuntura prolongados sem a certeza se realmente estão a valer a pena.

Muitas pacientes fazem fertilização in vitro o que significa que deverão fazer os tratamentos até ao início dos tratamentos médicos ocidentais.

Só depois é que se sabe se realmente se conseguiu ajudar a paciente ou não e até lá a paciente pode fazer consultas de medicina tradicional chinesa durante alguns meses a um ano.

Tratamentos de infertilidade com medicina chinesa ficam caros

Por outro lado o principal tratamento da infertilidade é a fitoterapia sendo a acupuntura usada como complemento de forma a potencializar a acção dos fitoterápicos.

Enquanto a maioria dos casos de ciática se podem tratar em 5 tratamentos de medicina chinesa sem fitoterapia todas as pacientes com infertilidade tem de tomar fitoterapia, sendo este um factor que encarece os tratamentos.

terapeutas tratamentos de acupuntura

Existe maior dificuldade em muitos diagnósticos nos tratamentos para infertilidade

Também existem pacientes que são inférteis mas não apresentam sintomatologia que permita definir um padrão clínico. Isto dificulta a escolha de fitoterapia.

Mesmo quando se definem padrões clínicos e se tratam (através da análise da menstruação, da leucorreia, do sistema urinário, etc…) não se garante que efetivamente consiga engravidar.

Algumas pacientes apresentam padrões clínicos tão diversificados durante o período menstrual que precisam tomar diferentes fitoterápicos ao longo das diferentes fases do período menstrual o que vai encarecer ainda mais os tratamentos.

Taxas de sucesso nos tratamentos de infertilidade com medicina chinesa

Outra grande desvantagem dos tratamentos de infertilidade tem a ver com as taxas de sucesso.

Neste artigo uso somente as taxas de sucesso provenientes da minha prática clínica.

Enquanto a taxa global de sucesso do tratamento de ciáticas e hérnias lombares ronda os 80%, enquanto os tratamentos para paralisia facial rondam sempre 1 a 3 meses com taxas de sucesso de quase 100% os tratamentos de infertilidade rondam os 35%.

35% de sucesso é muito baixa, mas ainda há mais porque as taxas de 35% são para pacientes que conseguiram engravidar.

No entanto algumas destas pacientes sofrem interrupção da gravidez nos primeiros 3 meses, pelo que taxa de mulheres que conseguem engravidar e levar a gravidez até ao fim ainda é mais pequena.

Pequeno resumo sobre os tratamentos de infertilidade na medicina chinesa

1 – os tratamentos de infertilidade em medicina chinesa tem taxas de sucesso baixas

2 – não existe hipótese de ver se o tratamentos de infertilidade estão a fazer efeito ou não ao longo do tempo, em pacientes que fazem tratamento in vitro, pelo que este acaba por ser mais demorado e caro

3 – a fitoterapia é obrigatória o que encarece os tratamentos de infertilidade.

4 – por vezes o diagnóstico é mais difícil, dificultando também a correcta definição de princípios terapêuticos e as melhoras fórmulas para tratar a paciente

Tratar infertilidade com medicina chinesa

Análise semiológica de sintomas de infertilidade na medicina chinesa

Para fazer o diagnóstico clinico dos padrões clínicos associados à infertilidade é importante seguir determinados sinais clínicos e sintomas.

A infertilidade só por si não é um sintoma que se possa analisar tal como acontece com a dor. Então é obrigatório estudar os sintomas de infertilidade.

Ou seja sintomas que direta ou indiretamente possam estar associados à infertilidade.

Para me explicar melhor, permitam-me usar a dor como exemplo:

1 – um paciente pode descrever diferentes tipos de dor como dor tipo moinha, dor tipo facada, dor com sensação de peso, etc…

2 – Também pode observar se a dor agrava com frio ou com calor;

3 – O terapeuta, durante a fase de palpação, pode estudar a reacção da dor à palpação, etc…

Nada disto se passa com a infertilidade.

Não podemos saber se a infertilidade agrava com calor ou frio, sé é infertilidade tipo facada ou com sensação de peso ou se agrava ou melhora com pressão.

Pensar nisto até faz as pessoas esboçarem um leve sorriso…

No entanto podemos estudar uma série de sintomas relacionados com a infertilidade e na medicina chinesa são considerados vários sintomas relevantes.

Os 4 parâmetros de infertilidade mais importantes na medicina chinesa

Menstruação

Na menstruação é necessário estudar diversos sintomas desde:

1 – a regularidade do ciclo menstrual;

2 – presença e caracterização de dor durante diferentes fases do ciclo menstrual (ovulação, antes do período menstrual, após, etc…);

3 – ausência de menstruação (amenorreia);

4 – características do sangue menstrual (vermelho pálido, com coágulos, etc…)

5 – outros sintomas acompanhantes do período menstrual (distensão mamária, irritabilidade, etc…)

Leucorreia/corrimento vaginal

É de extrema importância, para a Medicina Chinesa, a análise do corrimento vaginal.

Inclusivamente existe na Medicina Chinesa uma patologias classificadas como doenças da leucorreia.

Para o diagnóstico deste tipo de patologias é conduzido um interrogatório que visa analisar a cor, textura e quantidade do corrimento vaginal.

Alterações urinárias

Por alterações urinárias compreende-se um conjunto de sintomas que abrange a cor da urina, a sua quantidade ou sintomas como a presença de dor durante a micção.

As alterações urinárias podem oferecer sintomas de granda valor semiológico que podem ajudar a compreender o síndrome (padrão clínico) que afecta determinada paciente com infertilidade.

É preciso cuidado ao analisar estes sintomas porque facilmente podem conduzir em erro.

Por exemplo, uma paciente que beba poucos líquidos e não coma muita sopa pode ter a urina mais escura enquanto que uma paciente que beba 3 litros de água por dia irá, sem dúvida, ter a urina mais pálida.

Temos de saber se determinado sintoma tem relevância (valor semiológico) para o nosso diagnóstico clínico ou não.

Alterações sexuais

Este é um quarto conjunto de sintomas analisados em pacientes com infertilidade que pode ser bastante relevante para analisar o diagnóstico clínico em pacientes sofrendo de infertilidade.

Sintomas associados à dificuldade em atingir um orgasmo ou à diminuição de libido podem oferecer mais dados clínicos relevantes para se estabelecer o correto diagnóstico clínico.

Considerações extra

As possibilidades de análise semiológica no diagnóstico clínico da Medicina Chinesa não se esgotam com estes 4 parâmetros de análise pois o diagnóstico clínico é mais complicado que isso.

No entanto estes 4 parâmetros são muito importantes.

Diferentes pacientes podem apresentar sintomas num dos parâmetros analisados, em todos ou em nenhum.

Relembro uma paciente, à qual fiz tratamento para infertilidade, que não apresentava sintoma nenhum deixando-me unicamente um diagnóstico clínico inconclusivo.

No entanto imensas pacientes de infertilidade apresentam alterações em pelo menos um dos parâmetros analisados.

Estes parâmetros são úteis por 2 razões principais:

1 – oferecem informação clínica sobre os padrões clínicos locais (é possível a apciente ter outros padrões clínicos – síndromes – noutras regiões do corpo sem qualquer tipo de relação;

2 – permitem analisar a resposta das pacientes ao tratamento, o que é de extrema importância para a condução futura dos tratamentos.

O uso de medicina chinesa na gravidez

Ao analisar o uso da medicina chinesa na gravidez é possível dividir o seu uso em 3 fases: antes da gestação, durante a gestação e após a gestação.

De notar que cada uma destas etapas apresenta problemas diferentes e implicam alterações relevantes nas escolhas de terapêuticas a aplicar e na forma como devem ser pensadas ou prescritas.

Vamos analisar cada uma das etapas no uso de medicina chinesa na gravidez.

Antes da gravidez

O uso de medicina chinesa antes da gestação pode ser aplicada em problemas como infertilidade, regulação do ciclo menstrual, ansiedade nos tratamentos médicos de infertilidade.

Infertilidade: neste caso recorre-se a uma combinação de fitoterapia com acupuntura sendo a fitoterapia o tratamento mais importante.

De notar que muitas pacientes também fazem tratamentos de fertilização in vitro pelo que os tratamentos de fitoterapia devem ser coordenados de forma a não interferir com os outros tratamentos.

Por exemplo alguns fitoterápicos usados podem potencializar os efeitos anti-coagulantes de medicamentos ocidentais usados nos tratamentos de infertilidade.

Deve evitar-se as interações farmacocinéticas não controladas.

Os tratamentos de infertilidade são tratamentos de longa duração com estudos pouco conclusivos e que acabam por ficar caros.

Deve falar-se com o casal apresentando todos os dados dando capacidade de fazer uma escolha devidamente informada.

Regulação do ciclo menstrual: uma técnica que pode ser usada para aumentar as probabilidade de fertilidade do casal, especialmente se associada a conselhos sobre práticas sexuais que potenciem as capacidades reprodutivas do casal.

Os tratamentos usados são a fitoterapia e a acupuntura sendo a fitoterapia o mais importante.

Ansiedade: a acupuntura pode ter grande utilidade no alivio da ansiedade existente nas pacientes quando fazem tratamentos de fertilização in vitro.

A diminuição da ansiedade vai ajudar a paciente a responder melhor aos tratamentos médicos.

Durante a gravidez

Durante a gravidez a fitoterapia deve deixar de ser usada.

A acupuntura na gravidez ganha relevo na medida que pode substituir a fitoterapia e a medicação ocidental.

Para muitos sintomas durante a gravidez a acupuntura deveria ser tratamento de primeira escolha.

Durante a gestação a acupuntura pode ser usada com grande sucesso no tratamento de imensas queixas entre as quais se encontram:

Tratamento da dor: a principal indicação clinica da acupuntura é a dor. Na gravidez torna-se ainda mais importante devido à razão existente entre eficácia e segurança.

Tratamento de insónia: tal como a ansiedade, técnicas de acupuntura contemporânea como neuromodelação periférica podem ajudar a paciente a relazaxar e a melhorar os padrões de sono.

Bebê pélvico.

Facilitar trabalho de parto: a acupuntura pode ser usada para facilitar o trabalho de parto.

Após a gravidez

Retenção placentária: tradicionalmente a acupuntura é aconselhada no tratamento de retenção placentária.

Devido à especificidade da queixa não é algo em que os acupunturistas ocidentais tenham muito experiência.

Depressão pós-parto: devido à amamentação a mulher deve evitar medicação pelo que a acupuntura pode ser uma terapêutica bastante importante.

A depressão major não responde à acupuntura mas os estudos científicos têm mostrado que a depressão leve e depressão moderada responde bem à acupuntura.

tratar grávidas com acupuntura e medicina chinesa

Uma conversa com Stephen Birch sobre pontos proibidos na gravidez

Uma das coisas que aprendi enquanto estudante de medicina chinesa estava relacionado com a proibição de usar determinados pontos na gravidez.

Na altura ensinava-se que os pontos do baixo ventre não podiam ser usados. Compreendo e aceito que não se usem pontos no baixo abdómen em grávidas. É somente lógico que assim seja.

A nível dos pontos distais, o 6BP e o 4IG eram os mais falados como proibidos pois, supostamente estes pontos provocam contrações uterinas sendo usados para favorecer o trabalho de parto.

Eu compreendo que sejam usados para trabalho de parto mas não compreendo que sejam proibidos durante a gravidez.

As minhas dúvidas prendiam-se com algumas características próprias da acupuntura na medicina chinesa:

1 – pontos anatomicamente próximos têm indicações clinicas semelhantes;

2 – patologias dos meridianos.

Gravidez e acupuntura e a patologia dos meridianos

Os meridianos (vasos longitudinais) não são mais do que formas de associar pontos que tratam sintomas idênticos.

Por isso existem as chamadas patologias de meridianos que não são mais do que coleções de sintomas associados a regiões do corpo atravessadas por esses meridianos.

Isso significa que ao longo do meridiano vamos encontrar pontos com indicações e contra-indicações muito semelhantes.

Algumas contra-indicações podem ter a ver com a localização do ponto como acontece com a proibição de se usar pontos localizados no abdómen em grávidas.

Outros pontos exigem cuidados pois a sua puntura não é proibida mas pode ser perigosa.

Como exemplo temos os pontos localizados na região do tórax cuja puntura pode provocar um pneumotórax.

Mas não existe nenhuma contra-indicação deste tipo para o ponto 6BP.

Em primeiro lugar, localiza-se na perna, afastado do baixo abdómen.

Em segundo lugar, a sua contra-indicação durante a gravidez deve-se a uma indicação clinica especifica: provocar contrações uterinas.

No entanto, pela teoria dos meridianos, deveriam existir outros pontos para tratar este mesmo sintoma.

Não há um exemplo único de um ponto que seja para tratar um sintoma sendo essa indicação única ao longo de todo o meridiano.

Como consequência deveriam existir mais pontos do meridiano do Baço a provocarem contrações uterinas e, como tal, a serem proibidos durante a gravidez. No entanto isso não acontece. Mais nenhum ponto deste meridiano é contra-indicado na gravidez.

O pensamento associado ao 6BP aplica-se igualmente ao 4IG. E o 4IG localiza-se na mão e não na perna, o que torna a situação ainda mais bizarra.

acupuntura na gravidez osteopatia

Pontos anatomicamente próximos

O primeiro princípio da combinação de pontos refere “seleção de pontos locais”.

No tratamento da dor com eletropuntura um dos principais princípios refere que os pontos locais são os mais importantes.

Por outras palavras, pontos anatomicamente próximos possuem indicações clinicas idênticas.

E o que vale para os pontos locais também vale para os pontos distais.

Pontos anatomicamente próximos possuem indicações clinicas semelhantes.

Para comprovar isto basta comparar as indicações clinicas dos pontos de dada região do corpo sem olhar aos meridianos.

Por exemplo, no antebraço temos um conjunto de pontos extra e de meridianos sendo a função destes pontos muito idêntica.

As indicações clinicas do pontos extra Bizhong (localizado no centro do antebraço) confundem-se facilmente com as indicações dos pontos do meridiano do pericárdio por exemplo (existem exceções mas não negam esta regra).

Logo se o 6BP tem indicações clinicas relacionadas com o parto, então outros pontos locais também deveriam ter e efetivamente é isso que acontece.

Mas se isto se observa porque razão a puntura desses pontos também não é proibida?

E o 4IG ainda é mais estranho (para variar).

É que a maioria dos pontos à volta do 4IG não são aconselhados para aumentar as contrações uterinas.

Conversa com Steven Birch sobre gravidez e acupuntura

Há uns anos atrás, quando Stephen Birch veio à ESMTC, pela primeira vez, houve uma reunião na escola.

Nessa reunião tivemos uma discussão muito interessante sobre investigação científica e problemas associados à investigação científica na acupuntura.

No final da reunião enquanto descíamos a Rua das Portas de Santo Antão, nas antigas instalações da ESMTC, decidi interpelar o convidado especial com esta questão.

Já me andava a chatear há muito tempo e nunca tinha encontrado uma resposta satisfatória ou algum trabalho que abordasse o problema.

Ainda por mais depois de ter lido um estudo onde usavam o 4IG para tratar dor de dentes em grávidas.

De acordo com a opinião do Stephen Birch, tinha-se generalizado a história da proibição sem existir fundamento para tal.

A maioria dos clássicos que ele estudara não referia essa proibição, nunca se tinha provado qualquer tipo de relação causal e um desses pontos, 6BP, era dos principais pontos para tratar problemas associados à gravidez, desde dor a insónia.

Ou seja, é perfeitamente seguro punturar o 6BP e o 4IG durante a gravidez.

21VB: a fronteira entre a retenção placentária e a cefaleia

O ponto 21VB é usado no tratamento de retenção placentária.

Este ponto é daquelas raridades que tratam problemas diferentes dos pontos locais.

O ponto encontra-se no ombro e é o único ponto aí falado seriamente para o tratamento de retenção placentária.

Se o ponto trata a queixa ou não é outra questão.

Eu pretendo aqui chamar a atenção para o facto que, tal como o 4IG, o ponto 21VB é daquelas raridades que consegue tratar problemas que escapam à capacidade dos seus pontos vizinhos.

Por causa disto, o ponto é igualmente contra-indicado no tratamento de mulheres grávidas.

Pelo menos de acordo com algumas escolas de pensamento.

Existe uma fronteira muito ténue entre clinica e filosofia na acupuntura tradicional chinesa e facilmente nos perdemos nela.

Ganha quem questiona e não se deixa levar em verdades absolutas sem o mínimo de comprovação.

Num caso antigo uma grávida com cefaleia derivada da presença de cefaleia não foi corretamente tratada porque a colega que a atendeu achou que havia pontos proibidos como o 21VB.

Foi através da estimulação dos pontos gatilho no trapézio, na região do 21VB, que eu lhe tratei as dores de cabeça.

Referências Bibliográficas

(1) David Sloan Wilson; A evolução para todos, pág. 113.

(2) Idem, idem, pág. 115. O leitor deve estar a perguntar-se o que são as associações ocultas ou o que este problema tem a ver com a cauda enrolada do cão. Na realidade coloquei esta citação propositadamente. Se consegui estimular a curiosidade do leitor, então, aconselho a comprar o livro. Vale a pena. Palavra de acupuntor.

(3) Idem, idem

(4) Idem.idem, pág. 116

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