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Choques culturais: novos paradigmas em saúde

Existem choques culturais gigantes entre as visões do mundo preconizadas por muitos terapeutas de terapias não convencionais e outros profissionais de saúde, em especial, médicos.

Os maiores choques culturais existentes estão claramente relacionados com as visões científicas e mágicas que se chocam constantemente.

Estes choques culturais são visíveis nas críticas feitas à homeopatia e a correntes energéticas da acupuntura.

No entanto, não é só este choque cultural que afeta a relação de algumas TNC com a corrente médica mais cética.

Regra geral, osteopatas, fisioterapeutas e algumas correntes da acupuntura que usam e misturam diferentes técnicas terapêuticas das TNC tem uma visão tão cientifica do mundo quanto os seus próprios céticos.

O seu trabalho clínico baseia-se em conhecimentos de biomecânica e neurofisiologia, sem dúvida os mesmos conhecimentos base que qualquer profissional de saúde deveria ter.

Então qual a razão de existir um choque tão grande entre o que determinados campos da osteopatia, fisioterapia e da acupuntura defendem com as críticas dos céticos.

O choque entre 2 paradigmas diferentes: classificação de doenças vs mobilidade

Num caso clínico, um paciente refere dor ciática que segue ao longo da face posterior da coxa.

Os sinais clinicos indicam afeção da raiz L5-S1 e os exames imagiológicos mostram uma hérnia na L5-S1.

Um exemplo clínico cujo diagnóstico não deve deixar dúvidas a ninguêm.

Surge agora uma pergunta: o que provoca a dor?

É a hérnia discal que comprime o nervo ou é o nervo que não se soube adaptar à presença da hérnia discal?

Alguns factos clinicos que alimentam estes choques culturais

Se a hérnia for a causa do problema como explicar que imensas pessoas com hérnias não apresentem sintomas?

Como explicar que pessoas com hérnias sintomáticas sejam tratados e fiquem sem dor mesmo continuando com a hérnia (pelo menos temporariamente)?

E como explicar pacientes sem hérnia (ou qualquer outro problema diagnosticado imagiologicamente) com o mesmo padrão de dor?

E as questões que se levantam em relação à hérnia aplicam-se a outros problemas como estenose do canal lombar ou cervical.

Olhando para estas questões, de forma isolada, todos conseguimos encontrar respostas para elas em casos clinicos particulares mas dificilmente encontraremos uma resposta única para todas se não pensarmos neste tipo de choques culturais.

A forma como decidimos responder a estas questões define se olhamos para a hérnia como uma causa relevante ou uma alteração secundária.

Considerar a hérnia como causa principal implica pensar em eliminar a dor e, caso não seja possível, intervir cirurgicamente para eliminar o problema.

Mas pensar na incapacidade de adaptação do nervo implica pensar numa estratégia que se foca na mobilização de estruturas e constante adaptação e não só no alívio de dor e reversão das alterações estruturais típicas da idade.

Foto de Valeria Ushakova no Pexels

Mobilidade: um conceito que se instalou na terapia manual

É a capacidade de mobilização das diversas estruturas anatómicas (ligamentares, musculares, articulares, nervosas, fasciais) que explica a razão pela qual imensas pessoas vivem com hérnias assintomáticas ou conseguem reverter os sintomas e viver normalmente mesmo com a existência de problemas como hérnias e estenose.

Também explica porque pacientes sem hérnias desenvolvem o mesmo tipo de padrão de dor.

A dor não está dependente da presença da hérnia mas sim da imobilidade das estruturas que servem de interfaces com o nervo.

Deveríamos focar mais a nossa atenção em abordagens pensadas em:

1 –  Mobilizar o nervo (neurodinâmicas);

2 – Mobilizar estruturas que podem ajudar a comprimir o nervo (harmónicas, técnicas de mobilidade articular, exercício físico, etc…)

3 – técnicas que permitam alterar a resposta dos nervos aos estímulos nociceptivos (acupuntura elétrica);

… ou deveríamos manter a abordagem mais tradicional de fisioterapia clássica, misturas de analgésicos e anti-inflamatórios (com descanso a acompanhar…) e, em último caso, cirúrgia?

A abordagem funcional na base da mobilidade

Alterar este paradigma de saúde tem repercussões gigantes na forma como pensamos os sintomas do paciente.

Ao pensarmos na adaptação das estruturas às alterações típicas da idade somos obrigados a alterar a forma como pensamos a abordagem funcional-reducionista na clinica do dia a dia.

Interessa-nos tratar a hérnia que comprime o nervo ou mobilizar as estruturas anatómicas capazes de afetar a mobilidade nervosa?

Pacientes diferentes com o mesmo diagnóstico podem precisar de abordagens diferentes consoante a compreensão que existe de mobilidade neural e interação do nervo com as diferentes interfaces anatómicas.

Alguns pacientes precisam da maior foco em técnicas de mobilidade articular do ilíaco, outros precisam de mais técnicas de mobilidade neural.

Uns precisam de exercícios mais focados na mobilidade articular, outros no fortalecimentos muscular e outros no deslizamento neural.

Implicações na clinica do dia a dia

Este choque tem implicações tanto na investigação cientifica como no trabalho clinico do dia a dia.

A maioria dos estudos estão pensados numa abordagem em que a hérnia provoca a dor por compressão do nervo.

O trabalho de muitos fisioterapeutas (pelo menos aqueles com menos autonomia face ao papel social do médico) está muito limitado por este ponto de vista.

Mas depois temos todo um conjunto de fisioterapeutas, osteopatas, médicos e acupuntores, que trabalham no privado sobre um paradigma onde impera a importância da mobilidade no tratamento destas queixas.

Esta diferença provoca um choque que dificulta a compreensão do trabalho destes profissionais, da sua visão do mundo e em última análise da aceitação lógica das suas premissas clinicas.

É a diferença entre catalogar os sintomas em doenças bem definidas ou olhar para o sintoma e compreende-lo numa metodologia de trabalho funcional.

Hipocrisia histórica

A primeira versão completa deste artigo foi publicada em 2017. Mas os artigos que lhe deram origem eram mais antigos.

E o problema da mobilidade de estruturas era um problema ainda mais antigo que acabou por originar estas reflexões.

Há 10 anos a critica de muitos profissionais de saúde de áreas de Osteopatia e fisioterapia era contra uma abordagem mais passiva baseada em anti-inflamatórios e descanso no tratamento da dor.

No entanto, alguns céticos, num passo de hipocrisia histórica, parecem ter revertido o problema completamente.

Segundo parece, as TNC, como a osteopatia, sempre foram passivas e a fisioterapia e a medicina é que sempre foram ativas.

A ideia que um osteopata que prescreve exercício está a transforma-se num fisioterapeuta, como se fosse uma escada evolutiva, é a ideia mais ignorante e idiota que se poderia passar.

Não só porque basta uma análise superficial das técnicas osteopáticas para perceber que existem uma série de técnicas passivas e semi-ativas como uma leitura dos diversos estudos de perfil profissional osteopático mostram que a prescrição de exercício é prática comum.

Das profissões manuais como fisioterapia e osteopatia se existiu alguma que tinha autonomia para prescrição era a Osteopatia.

Conclusão sobre os choques culturais

O que provoca a dor ciática num paciente com hérnia na L5-S1?

É a hérnia que comprime o nervo ou o nervo que não se adapta à presença da hérnia?

A resposta a esta questão vai definir a forma como pretendemos tratar o problema. Mas também a forma como olhamos o mundo.

Aceitar a hérnia como a causa primordial do problema implica pensar no problema de forma diferente do que aceitar a incapacidade de adaptação do nervo.

Esta última abordagem não desconsidera a presença da hérnia mas retira-lhe grande parte da sua importância clínica.

Não pretendo, com este artigo, mostrar a arrogância de alguêm que escolheu determinada resposta a esta questão, ou o convencimento que a minha forma de olhar o mundo é superior a todas as outras.

Mas ela altera por completo a forma como olhamos para os problemas e a resposta que damos aos mesmos.

As terapias manuais não são uma ciência exata e uma resposta que se considera errada de forma geral pode ser o remédio santo para algum doente particular.

Independentemente da escolha que fazemos ao tentar construir logicamente a realidade que nos rodeia, esta é uma certeza absoluta que não deve ser esquecida no nosso trabalho.

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