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terapêuticas não convencionais cura do cancro

Cura do cancro e conspirações: uma análise multidisciplinar

Uma ideia muito divulgada nas redes sociais é que a Indústria Farmacêutica (IF) descobriu a cura do cancro e decidiu esconde-la, porque nos quer manter doentes e ganhar dinheiro com essa doença.

A IF é uma personificação do demónio, vive só para o lucro e não ganha dinheiro caso as pessoas sejam saudáveis. Portanto quer-nos doentes.

Este último ponto justifica o primeiro. Como a IF só ganha dinheiro se as pessoas estiverem doentes escondem curas milagrosas que são muito baratas.

Será a IF um demónio capitalista dos tempos modernos?

Terão as teorias da conspiração alguma razão de ser e existe uma cura do cancro?

E provas a sustentá-las?

Nas próximas linhas vamos abordar a IF e a cura do cancro usando história, ciência, lógica, bolsa, matemática e muito bom senso.

A perspetiva do bom senso

Hoje sabe-se tudo. Desde documentos secretos do vaticano, documentos secretos dos EUA, às redes de lavagem de dinheiro das famílias reais e milionários de todo o mundo.

Escândalos como os papeis do Panamá, Snowden ou Jornalistas internacionais com escândalos de futebol são comuns.

Nada escapa ao escrutínio público. Assuntos que antes eram tabu, como o abuso sexual de crianças por padres, hoje são falados abertamente.

A IF não é excepção: manipulação de estudos científicos (3) (5), inflacionamento de preços (4) (6), violação de direitos humanos (1) (2), corrupção (7), etc…

No entanto nunca foi libertado um único documento a falar de uma cura milagrosa do cancro que tenha sido sonegada pela indústria farmacêutica.

Quando se googla este assunto ou se encontram sites de teorias da conspiração ou céticos a criticar estes mitos (8), (9).

O bom senso deveria ser o nosso primeiro indicador no que concerne à suposta cura do cancro!

A perspetiva biológica

A simplificação é o maior erro da teoria da conspiração.

Falamos do cancro como se fosse uma única doença, mas entender o que é o cancro implica saber que não existe uma cura do cancro.

O cancro representa uma série de problemas diferentes que se devem compreender a níveis genéticos, vias de sinalização celular, etc… o que significa que são precisas várias curas e não uma única cura.

Mesmo quando falamos do “mesmo cancro” não existe uma única cura. Porque pequenas variações genéticas no perfil tumoral condicionam a resposta do cancro ao tratamento.

Por isso se estão a desenvolver testes genéticos de perfil tumoral para saber se um paciente vai responder, ou não, ao tratamento proposto.

No que concerne ao conhecimento mais elementar de biologia ou medicina não existe uma cura para o cancro.

A perspetiva do ecosistema cientifico-tecnológico

Falamos da Indústria Farmacêutica como se fosse uma única entidade. Mas na realidade falamos de múltiplas empresas gigantes com interesses conflituosos umas entre as outras.

Isto não significa que não possam ter uma ação concertada para viciar o preço dos medicamentos, como já aconteceu. Significa, que na maior parte do tempo elas vivem num estado de cooperação/competição.

As empresas farmacêuticas não trabalham para o sucesso da concorrência.

Falar desta indútria como se fosse uma única entidade não leva em linha de conta a competitividade extrema a que se entregam as diferentes companhias que formam esta indústria.

Por outro lado, esta simplificação, não leva em linha de conta que a maioria da investigação de ponta está a ser levada por start ups biotecnológicas e não por grandes empresas farmacêuticas.

Compreender o processo de produção de um novo medicamento mostra que é impossível esconder uma cura para que doença seja. O sucesso destas empresas está na sua capacidade de encontrarem e publicitarem essa cura e não de a esconderem.

Imagine que tem uma biotecnológica que encontrou um novo tratamento, muito promissor, para o cancro.

A primeira coisa a fazer é patentear a abordagem desenvolvida para garantir que ninguém a rouba. Se é patenteada, logo é pública.

O segundo passo consiste em arranjar fundos para desenvolver a investigação cientifica necessária para provar que a nova droga funciona. Pode encontrar esses fundos por financiamento governamental, financiamento de grandes grupos privados ou por abrir uma IPO na bolsa para investidores comprarem ações.

Mas qualquer fonte de financiamento está dependente dos investidores saberem exatamente o que se investiga e qual o seu potencial. Seria muito difícil encontrar curas para o cancro escondendo essas curas para o cancro.

Em terceiro lugar é preciso desenvolver a investigação e publicitar os resultados. O que significa que a empresa tem de publicitar todos os estudos científicos realizados desde a fase pré-clinica até à fase 3.

Porque nenhum investidor vai investir na empresa se ela esconder os resultados dos testes clínicos!

Compreender o ecosistema cientifico-tecnológico das grandes farmacêuticas e das biotecnológicas demonstra que dificilmente alguma empresa iria esconder uma cura milagrosa.

A perspetiva do lucro

O ponto fundamental da teoria da conspiração é que a IF só conseguem fazer dinheiro mantendo as pessoas doentes e por isso escondem a cura.

É verdade que as empresas farmacêuticas querem fazer dinheiro. Sem dúvida que trabalham para os seus accionistas. E obviamente que só fazem dinheiro se venderem medicamentos.

Na procura deste lucro estão dispostas a contornar a lei e a hiperinflacionar preços e vender indiscriminadamente, como aconteceu com a crise de opióides nos EUA (10), (11), (12)

Exemplos de preços hiperinflacionados abundam pela história e atualidade da IF, (4) (5) (6) desde genéricos a tratamentos para a Hepatite C (18).

O que os teoriza da conspiração não percebem é que estas empresas vivem para comercializar medicamentos conhecidos como “blockbusters”. Medicamentos tão revolucionários que sejam fontes de rendimento extraordinários.

Exemplos não faltam desde o Cialis para a disfunção erétil à Humira para artrite reumatóide.

Uma droga capaz de curar o cancro seria uma blockbuster. Uma droga única, sem competição, protegida por patentes e com resultados clínicos incríveis é o sonho de qualquer empresa farmacêutica.

Essa droga seria uma blockbuster, uma galinha de ovos de ouro. E nenhuma empresa a iria esconder!

A perspetiva histórica e o dilema do prisioneiro

Ao contrário do que as pessoas possam pensar já houve empresas que lançaram no mercado drogas revolucionárias. A Gilead foi um desses exemplos.

Curou a Hepatite C e depois meteu-se em problemas porque deixou de ter rentabilidade (13)  porque o número de pessoas que ela tratou ultrapassou o número de novos casos que surgiram. Resumindo, em 2018 as ações da Gilead valiam quase menos 50% do que em 2015.

Para a empresa podemos perguntar: seria preferível não vender e ficar sem o lucro daquele medicamento? Ou seria preferível vender e tentar lucrar o mais possível?

A Gilead não sabe o que vai acontecer no futuro. Mas sabe que se vender uma cura no presente vai fazer imenso dinheiro que pode vir a precisar no futuro.

Quando uma empresa farmacêutica tem um avanço científico sobre a concorrência a primeira coisa que tenta faze-lo é materializá-lo financeiramente pois é preferível estar à frente do mercado durante 3 anos do que estar sempre atrás.

O dilema do prisioneiro, um problema da teoria dos jogos, indica que um jogador quer aumentar a sua vantagem sem lhe importar o resultado dos outros.

Isto explica porque a Gilead lançou para o mercado uma cura da Hepatite C e porque está toda a gente a lutar pelas patentes de CRISPR.(14), (15), (16)

E é também por causa disto que nenhuma empresa farmacêutica esconde uma cura milagrosa.

Conclusão sobre conspirações na cura do cancro

As empresas que compôem a IF não são nenhumas santas. Empresas mais antigas com produtos lançados no mercado cometem crimes para conseguir vender mais e não perdem sono por causa da miséria que provocam.

Estas empresas existem para fazer dinheiro e nunca mostraram problemas em inflaccionar preços. Certamente que podem definir preços milionários para curas milagrosas especialmente para a cura do cancro.

Numa perspetiva matemática, económica e de investimento na bolsa não tem lógica assumir que estas empresas não venderiam curas milagrosas.

Como é que um CEO explicaria que teve acesso a uma cura do cancro com resultados milagrosos que poderia render biliões à empresa e que não usou porque quer ver as pessoas doentes?

Historicamente estas empresas lançaram curas milagrosas e estão a faze-lo atualmente. Por exemplo, a Gilead tratou a Hepatite C e agora pretende lançar drogas inovadoras contra o HIV (19).

Do ponto de vista científico também não tem lógica pois o cancro não é uma doença e nunca vai existir uma cura para o cancro.

As diferentes abordagens das muitas start ups e as limitações dessas abordagens só mostra a complexidade biológica que o cancro representa.

Referências Bibliográficas

(1) https://www.cristianismeijusticia.net/sites/default/files/pdf/en124.pdf
(2) https://www.theguardian.com/commentisfree/2013/feb/22/hiv-aids-deaths-pharmaceutical-industry
(3) https://www.theguardian.com/books/2012/oct/17/bad-pharma-ben-goldacre-review
(4) http://time.com/4475970/stop-immoral-drug-prices/
(5) https://www.forbes.com/sites/matthewherper/2017/02/10/a-6000-price-hike-should-give-drug-companies-a-disgusting-sense-of-deja-vu/#36fa5f4171f5
(6) https://www.nytimes.com/2018/01/18/health/drug-prices-hospitals.html
(7) https://www.washingtonpost.com/news/worldviews/wp/2018/05/04/nigeria-bans-cough-syrup-to-stop-an-addiction-epidemic-but-something-worse-could-take-its-place/?noredirect=on&utm_term=.9fac5c909ea6
(8) https://www.goodnewsnetwork.org/examining-the-myth-that-big-pharma-doesnt-want-to-cure-cancer/
(9) https://www.skepticalraptor.com/skepticalraptorblog.php/secret-cancer-cure-big-pharma-hiding/
(10) https://www.drugabuse.gov/drugs-abuse/opioids/opioid-overdose-crisis
(11) http://time.com/james-nachtwey-opioid-addiction-america/
(12) https://www.theguardian.com/us-news/2017/oct/25/americas-opioid-crisis-how-prescription-drugs-sparked-a-national-trauma
(13) https://www.marketwatch.com/story/gilead-cured-hepatitis-c-thats-become-its-biggest-problem-2017-02-08
(14) https://www.cnbc.com/2018/04/11/goldman-asks-is-curing-patients-a-sustainable-business-model.html
(15) https://www.forbes.com/sites/matthewherper/2015/08/10/bill-gates-and-13-other-investors-pour-120-million-into-revolutionary-gene-editing-startup/#6cc322106369
(16) https://www.nature.com/news/bitter-crispr-patent-war-intensifies-1.22892
(17) https://www.cnbc.com/2017/08/31/investors-are-betting-on-a-cancer-cure-with-these-stocks.html
(18) https://www.theguardian.com/science/2018/apr/12/non-profits-300-hepatitis-c-cure-as-effective-as-84000-alternative
(19) https://seekingalpha.com/article/4155468-gilead-sciences-stellar-hiv-data-bring-new-life-company

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