eletrólise percutânea EPI EPTE

Eletrólise percutânea intratecidular e acupuntura elétrica: 2 argumentos falsos e convenientes

Recentemente surgiu uma técnica inovadora chamada eletrólise percutânea intratecidular (EPI).

Depois do seu sucesso surgiram concorrentes nacionais (são marcas espanholas) como a Eletrólise Percutânea Terapêutica (EPTE) ou internacionais como a microeletrólise percutânea (MEP) e, sem dúvida, mais tarde irão existir outras formas de eletrólise.

Podemos pensar na eletrólise percutânea miotendinosa (EPMT) ou na eletrólise percutânea clinica (EPC).

Certamente são bons nomes para vender e ainda tem espaço no mercado.

Este artigo foca-se no estudo do que é a EPI, a sua concorrente espanhola EPTE e aborda a questão da inovação científica e da inovação de marketing necessária numa época onde se procuram todo o tipo de inovações que nos distingam da concorrência.

Em suma, procura saber o que é que distingue a EPI ou qualquer outra forma de eletrólise percutânea da acupuntura elétrica.

fisioterapia invasiva é acupuntura

O que significa Eletrólise percutânea?

Primeiramente eletrólise refere-se a um processo no qual se induz uma corrente elétrica num dado sistema.

Esse estímulo desencadeia uma reação química que de outra forma não ocorreria.

Nesse sentido, percutânea significa que atravessa a barreira da pele, tal como acontece com uma agulha de acupuntura, ou uma injeção.

Ou seja eletrólise percutânea significa uma reação química dentro do organismo (através de uma agulha) induzido através da passagem de uma corrente elétrica.

A sigla EPI refere-se também a “intratecidular”, ou seja, dentro de um tecido.

Surge aqui a questão a saber, qual é a diferença entre EPI e acupuntura elétrica?

EPI é a definição de acupuntura elétrica

A acupuntura elétrica baseia-se em provocar reações químicas no interior dos tecidos provocada por uma corrente elétrica.

Insere-se uma agulha de acupuntura no corpo e passa-se um estímulo elétrico.

De acordo com sites de fisioterapia a EPI “Consiste na passagem de uma corrente elétrica galvânica ao nível dos tecidos, através de uma agulha de acunpuntura.”[1].

Então a EPI não é mais do que uma forma de acupuntura elétrica onde se usam determinadas correntes elétricas?

Quando é que passar um estímulo elétrico através de uma agulha de acupuntura deixou de ser acupuntura elétrica?

Quando nos abstraímos dos nomes complicados e nos focamos no seu significado simples qual é a real diferença entre EPI e acupuntura elétrica?

vesícula biliar nervo peroneal superficial

Eletrólise percutânea e Ultrasons?

Certamente os ultrasons vieram dar um grande impulso à EPI pois os procedimentos ecoguiados permitem detetar o local da lesão com muito maior precisão e como eu costumo dizer 90% da acupuntura tem a ver com localização.

Mas a técnica em si é uma coisa, o uso de informação ecoguiada é outra.

Os ultrasons já são usados para estudar a acupuntura e desenvolver a sua eficácia desde pelo menos 1998 quando se realizou um estudo em que se fazia acupuntura ecoguiada no olho (2) sendo que em 2004 se desenvolveu um estudo onde se usava ultrasons para estudar os efeitos da acupuntura nos tecidos locais (3).

Sem dúvida que a necessidade de precisão na medicina é essencial: desde radionuclidos acoplados a anticorpos antitumorais ao uso de imagiologia médica para garantir precisão numa biópsia.

E a acupuntura é uma forma de medicina baseada na precisão em muitos níveis (pontos de dor, diferenciação de tecidos para puntura, níveis de profundidade, etc…).

falácia da autoridade pulga do scimed

Microcorrentes e corrente galvânica

Outra coisa que supostamente diferencia a EPI é que além de usar uma agulha de acupuntura, naquilo que é agora conhecido como fisioterapia invasiva, é que usa um grupo particular de correntes galvânicas e microcorrentes[4].

Mas todos os aparelhos de acupuntura elétrica apresentam variações no tipo de corrente que usam.

Isto só por si não diferencia a técnica nem a torna inovadora.

A acupuntura elétrica nunca foi definida pelo tipo de estímulo elétrico usado mas sim pela presença do mesmo.

Não interessa o tipo de estímulo, onda, frequência ou duração de fase. Não é isso que define acupuntura elétrica.

Por outro lado também não é verdade que a fisioterapia invasiva, através da eletrólise percutânea intratecidular (EPI) tenha sido a primeira a usar corrente galvânica ligada a uma agulha de acupuntura.

Em 1921 já se publicava na literatura médica artigos sobre como usar “acupuntura galvânica”. (7)

A EPI é um rei nu

A EPI é apresentada como uma técnica inovadora e revolucionária no tratamento de vários problemas do aparelho músculo-esquelético como tendinites ou bursites, mas além de ter um nome mais pomposo, ainda não apresentou nenhuma evidência de ser algo diferente da acupuntura elétrica.

Porque antes das variantes da eletrólise percutânea como a EPI ou a EPTE, já a acupuntura elétrica era bastante usada no tratamento destas lesões.

Críticos das TNC eletrólise percutânea

Marketing e ciência

Como vimos a eletrólise percutânea tem-se apresentado como uma grande inovação em saúde, no tratamento de tendinites e ruturas musculares, mas como já vimos ainda não mostrou ser diferente tecnicamente de acupuntura elétrica.

Estamos a arranjar nomes complicados cientificamente para dar credibilidade a uma prática cujo nome mais tradicional não é tão respeitado?

Mas nesse caso a EPI não é mais do que uma campanha de Relações Públicas.

Pode a ciência associada às correntes usadas no aparelho de EPI ser a marca diferenciadora?

Ou não interessa o tipo de correntes mas sim o estímulo doloroso?

Conheço fisioterapeutas que usam técnicas manuais para estimular os mesmos mecanismos fisiológicos que explicam o sucesso da EPI, pois o segredo está na produção de dor localizada.

No entanto, a EPTE, concorrente da EPI, usa correntes que não provocam dor ao paciente (5).

Mais uma vez, no passado, a acupuntura manual ou elétrica já era usada com estímulos dolorosos e não dolorosos no tratamento deste tipo de problemas.

Quando se confunde política com ciência

A EPI é uma prática de fisioterapia invasiva que só pode ser ensinada a fisioterapeutas.

Talvez esta seja a grande vantagem da eletrólise percutânea: Proibir o acesso da acupuntura aos outros profissionais de saúde… inclusivamente aos acupuntores.

Pegar na acupuntura elétrica dar-lhe um nome cientificamente respeitado e depois proibir essa prática aos acupuntores parece ser mais uma campanha política que ciência.

Gostava de salientar que não coloco em causa a eficácia da EPI e não tenho dúvidas do mérito que o seu criador merece pelos trabalhos que desenvolveu em termos científicos e clínicos.

E não me oponho ao trabalho com EPI uma vez que a máquina tem características diferentes que a podem tornar mais indicada para determinado paciente. (Além de ser vendida ao preço do ouro)

Mas parece-me que a eletrólise percutânea na suas diferentes variações (EPI, EPTE, etc…)  além da sua componente científica tem uma componente, tão ou mais forte, de política e relações públicas.

Até ao momento a EPI não introduziu nenhuma inovação de raciocínio clínico.

1 – a estratégia de fazer acupuntura elétrica no tendão já é usada faz anos;

2 – o uso de ultrasons na acupuntura já vem dos anos 90 (e só não está generalizado devido ao elevado preço dos ecógrafos);

3 – a integração com treino excêntrico ou outros exercícios já era feito por outros profissionais e surge como uma consequência do aumento de conhecimento sobre reabilitação.

crenças inúteis na acupuntura moderna

Reflexões finais

A EPI apresentou-se no mercado como uma grande inovação. Foi considerada uma ideia inovadora revolucionária.

O “criador” da técnica tem o mérito de ter generalizado clinicamente o uso conjunto de técnicas de acupuntura ecoguiadas, desenvolveu um trabalho cientifico notável com aplicações clínicas reconhecidas por todos, soube integrar diferentes tratamentos num todo coerente e merece, na minha opinião, reconhecimento por todo este trabalho.

Mas não criou nenhuma técnica revolucionária do nada.

A EPI é acupuntura elétrica que está revestida de um nome pomposo para satisfazer o ego profissional de alguns fisioterapeutas.

O que realmente interessa é que a EPI é fisioterapeia invasiva e não acupuntura.

Consequentemente só pode ser feita por fisioterapeutas.

É nesta altura que se afunda a objetividade cientifica num lodo de hipocrisia política.

Continuo sem perceber qual a diferença entre EPI e acupuntura elétrica.

Não posso concordar com a postura da fisioterapia de querer aprender tudo mas depois não partilhar nada.

Invadir todas as áreas possíveis ao mesmo tempo que choram se alguém invade a área deles.

E continuo com o desgosto de ver que muitas vezes a credibilidade clínica vem mais de demagogia científica.

Talvez a um nível sociológico a EPI, assim como a punção seca ou a acupuntura contemporânea, marquem a fronteira entre aqueles que usam cegamente ferramentas tradicionais sem questionamento científico e sem necessidade de as abordarem cientificamente e aqueles que achando potencial clínico numa ferramenta tradicional a tentam explicar em métodos científicos e tentam inovar a forma como se pode aplicar ou desenvolver essa ferramenta (6).

Mas mesmo este fenómeno acaba por ser sujeito aos nacionalismos profissionais. O resto depois é show off para vender.

NOTAS FINAIS

(1) http://www.biofisio.pt/tratamento-de-tendinites-epi

(2) Litscher G, Yang NH, Wang L:: Ultrasound Controlled Acupuncture. The Internet Journal of Anesthesiology 1998; Vol2N4: http://www.ispub.com/journals/IJA/Vol2N4/acu.htm ; Published October 1, 1998; Last Updated October 1, 1998.

(3) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15550321

(4) http://www.intrafisio.pt/epi—electrolise-percutanea-intratecidular

(5) http://www.electrolisisterapeutica.com/pt-pt/10-razoes-para-eleger-eletrolise-percutanea-epte/

(6) http://www.epiadvanced.com/products/epi-devices/

(7) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2414933/?fbclid=IwAR1YmMjmJ_OIhL_kK7DNr5V-DeLgZlyupxKbcQdjHV7fEm4CuLS5RkwW9lc

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.