eletrólise percutânea EPI EPTE

Eletrólise percutânea intratecidular e acupuntura elétrica: 2 argumentos falsos e convenientes

Nos últimos 10 anos, os fisioterapeutas começaram a vender uma técnica inovadora chamada eletrólise percutânea intratecidular (EPI).

Depois do seu sucesso surgiram concorrentes nacionais (são marcas espanholas) como a Eletrólise Percutânea Terapêutica (EPTE) ou internacionais como a microeletrólise percutânea (MEP) e, sem dúvida, mais tarde irão existir outras formas de eletrólise.

Podemos pensar na eletrólise percutânea miotendinosa (EPMT) ou na eletrólise percutânea clinica (EPC). Certamente são bons nomes para vender e ainda tem espaço no mercado.

Este artigo foca-se no estudo do que é a EPI, a sua concorrente espanhola EPTE e aborda a questão da inovação científica e da inovação de marketing necessária numa época onde se procuram todo o tipo de inovações que nos distingam da concorrência.

Em suma, procura saber o que é que distingue a EPI ou qualquer outra forma de eletrólise percutânea da acupuntura elétrica.

fisioterapia invasiva é acupuntura

O que significa Eletrólise percutânea?

Primeiramente eletrólise refere-se a um processo no qual se induz uma corrente elétrica num dado sistema.

Esse estímulo desencadeia uma reação química que de outra forma não ocorreria.

Nesse sentido, percutânea significa que atravessa a barreira da pele, tal como acontece com uma agulha de acupuntura, ou uma injeção.

Ou seja eletrólise percutânea significa uma reação química dentro do organismo (através de uma agulha) induzido através da passagem de uma corrente elétrica.

A sigla EPI refere-se também a “intratecidular”, ou seja, dentro de um tecido.

Surge aqui a questão a saber, qual é a diferença entre EPI e acupuntura elétrica?

EPI é a definição de acupuntura elétrica

A acupuntura elétrica baseia-se em provocar reações químicas no interior dos tecidos provocada por uma corrente elétrica.

Insere-se uma agulha de acupuntura no corpo e passa-se um estímulo elétrico.

De acordo com sites de fisioterapia a EPI consiste “na passagem de uma corrente elétrica galvânica ao nível dos tecidos, através de uma agulha de acunpuntura.”[1], mas de acordo com outros sites esta técnica usa “agulhas não necessáriamente específicas de acupuntura”(8)

Então a EPI não é mais do que uma forma de acupuntura elétrica onde se usam determinadas correntes elétricas?

Quando é que passar um estímulo elétrico através de uma agulha de acupuntura deixou de ser acupuntura elétrica?

Quando nos abstraímos dos nomes complicados e nos focamos no seu significado simples qual é a real diferença entre EPI e acupuntura elétrica?

vesícula biliar nervo peroneal superficial

Acupuntura elétrica

Típico da fisioterapia invasiva é procurar dar definições erradas de acupuntura para traçar uma fronteira conveniente para o fisioterapeuta.

Desta forma, define-se a acupuntura como a punção em pontos de acupuntura previamente catalogados.

O problema desta definição é que está simplesmente errada como provo no meu artigo sobre fisioterapia invasiva. Mas convenientemente continua a ser vendida.

Caso não usassem esta definição falsa e claramente incompetente os fisioterapeutas teriam muita dificuldade em justificar que não fazem acupuntura.

Eletrólise percutânea e Ultrasons?

Um dos fatores, vendido como diferenciador, da EPI em relação à acupuntura é o uso de ultrasons.

Certamente os ultrasons vieram dar um grande impulso à EPI pois os procedimentos ecoguiados permitem detetar o local da lesão com muito maior precisão e como eu costumo dizer 90% da acupuntura tem a ver com localização.

Mas a técnica em si é uma coisa, o uso de informação ecoguiada é outra.

Os ultrasons já são usados para estudar a acupuntura e desenvolver a sua eficácia desde pelo menos 1998 quando se realizou um estudo em que se fazia acupuntura ecoguiada no olho (2), (3).

Sendo a acupuntura uma forma de medicina baseada na precisão em muitos níveis (pontos de dor, diferenciação de tecidos para puntura, níveis de profundidade, etc…) é normal que os ultra-sons tenham sido usados!

Os ultrasounds já eram usados para aperfeiçoar a acupuntura antes de existir a fisioterapia invasiva mas nenhum fisioterapeuta vai admitir este facto pois contraria toda a mitologia que querem vender.

Os ultrasons começaram a ser usados como fator diferenciador entre eletrólise percutânea e acupuntura elétrica por conveniência para os fisioterapeutas. 

falácia da autoridade pulga do scimed

Microcorrentes e corrente galvânica

Outra coisa que supostamente diferencia a EPI é que além de usar uma agulha de acupuntura, naquilo que é agora conhecido como fisioterapia invasiva, é que usa um grupo particular de correntes galvânicas e microcorrentes[4].

Mas todos os aparelhos de acupuntura elétrica apresentam variações no tipo de corrente que usam.

Isto só por si não diferencia a técnica nem a torna inovadora.

A acupuntura elétrica nunca foi definida pelo tipo de estímulo elétrico usado mas sim pela presença do mesmo.

Não interessa o tipo de estímulo, onda, frequência ou duração de fase. Não é isso que define acupuntura elétrica.

Por outro lado também não é verdade que a fisioterapia invasiva, através da eletrólise percutânea intratecidular (EPI) tenha sido a primeira a usar corrente galvânica ligada a uma agulha de acupuntura.

Em 1921 já se publicava na literatura médica artigos sobre como usar “acupuntura galvânica”. (7)

Mais uma vez, nenhum fisioterapeuta vai admitir este facto porque desmonta toda a propaganda criada à volta das suas técnicas revolucionárias.

A EPI é um rei nu

A EPI é apresentada como uma técnica inovadora e revolucionária no tratamento de vários problemas do aparelho músculo-esquelético como tendinites ou bursites, mas além de ter um nome mais pomposo, ainda não apresentou nenhuma evidência de ser algo diferente da acupuntura elétrica.

Porque antes das variantes da eletrólise percutânea como a EPI ou a EPTE, já a acupuntura elétrica era bastante usada no tratamento destas lesões.

Críticos das TNC eletrólise percutânea

Marketing e ciência

Como vimos a eletrólise percutânea tem-se apresentado como uma grande inovação em saúde, no tratamento de tendinites e ruturas musculares, mas como já vimos ainda não mostrou ser diferente tecnicamente de acupuntura elétrica.

Estamos a arranjar nomes complicados cientificamente para dar credibilidade a uma prática cujo nome mais tradicional não é tão respeitado?

Mas nesse caso a EPI não é mais do que uma campanha de Relações Públicas.

Pode a ciência associada às correntes usadas no aparelho de EPI ser a marca diferenciadora?

Ou não interessa o tipo de correntes mas sim o estímulo doloroso?

Conheço fisioterapeutas que usam técnicas manuais para estimular os mesmos mecanismos fisiológicos que explicam o sucesso da EPI, pois o segredo está na produção de dor localizada.

No entanto, a EPTE, concorrente da EPI, usa correntes que não provocam dor ao paciente (5).

Mais uma vez, no passado, a acupuntura manual ou elétrica já era usada com estímulos dolorosos e não dolorosos no tratamento deste tipo de problemas.

Quando se confunde política com ciência

A EPI é uma prática de fisioterapia invasiva que só pode ser ensinada a fisioterapeutas.

Talvez esta seja a grande vantagem da eletrólise percutânea: Proibir o acesso da acupuntura aos outros profissionais de saúde… inclusivamente aos acupuntores.

Isto não podia ser mais evidente na análise das estratégias da fisioterapia invasiva.

Pegar na acupuntura elétrica dar-lhe um nome cientificamente respeitado e depois proibir essa prática aos acupuntores parece ser mais uma campanha política que ciência.

Parece-me que a eletrólise percutânea na suas diferentes variações (EPI, EPTE, etc…)  além da sua componente científica tem uma componente, tão ou mais forte, de política e relações públicas.

Até ao momento a EPI não introduziu nenhuma inovação de raciocínio clínico.

1 – a estratégia de fazer acupuntura elétrica no tendão já é usada faz anos;

2 – o uso de ultrasons na acupuntura já vem dos anos 90 (e só não está generalizado devido ao elevado preço dos ecógrafos);

3 – a integração com treino excêntrico ou outros exercícios já era feito por outros profissionais e surge como uma consequência do aumento de conhecimento sobre reabilitação.

crenças inúteis na acupuntura moderna

Reflexões finais

A EPI apresentou-se no mercado como uma grande inovação. Foi considerada, e vendida, como uma ideia inovadora revolucionária.

Mas esta técnica revolucionária não nasceu do nada.

A Eletrólise percutanea é uma mistura de definições erradas e argumentos hipócritas e convenientes para o fisioterapeuta conseguir vender o seu peixe.

A EPI é acupuntura elétrica que está revestida de um nome pomposo para satisfazer o ego profissional de alguns fisioterapeutas.

O que realmente interessa é que a EPI é fisioterapeia invasiva e não acupuntura. Consequentemente só pode ser feita por fisioterapeutas.

É nesta altura que se afunda a objetividade cientifica num lodo de hipocrisia política.

Continuo sem perceber qual a diferença entre EPI e acupuntura elétrica.

NOTAS FINAIS

(1) http://www.biofisio.pt/tratamento-de-tendinites-epi

(2) Litscher G, Yang NH, Wang L:: Ultrasound Controlled Acupuncture. The Internet Journal of Anesthesiology 1998; Vol2N4: http://www.ispub.com/journals/IJA/Vol2N4/acu.htm ; Published October 1, 1998; Last Updated October 1, 1998.

(3) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15550321

(4) http://www.intrafisio.pt/epi—electrolise-percutanea-intratecidular

(5) http://www.electrolisisterapeutica.com/pt-pt/10-razoes-para-eleger-eletrolise-percutanea-epte/

(6) http://www.epiadvanced.com/products/epi-devices/

(7) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2414933/?fbclid=IwAR1YmMjmJ_OIhL_kK7DNr5V-DeLgZlyupxKbcQdjHV7fEm4CuLS5RkwW9lc

(8) https://www.electrolisisterapeutica.com/pt-pt/tecnicas-invasivas-eletrolise-ou-eletroacupuntura/

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