ensino da acupuntura em portugal

O ensino da acupuntura chinesa em Portugal: 2004-2015

A data a que se refere este artigo marca o início e o fim da minha experiência como docente de cadeiras de acupuntura clinica na Escola de Medicina Tradicional Chinesa (ESMTC).

Ao longo destes anos troquei opiniões com vários alunos, colegas e professores das mais variadas instituições de ensino da acupuntura, em Portugal.

Esses contactos fizeram com que escrevesse vários artigos ao longo dos anos que vou compilar nas próximas linhas.

E no início era ESMTC vs APA-DA

O que começou por aproximar os diferentes profissionais destas escolas foram 2 acontecimentos distintos:

1 – o advento dos sites e dos fóruns na internet que permitia a troca de ideias;

2 – o processo de regulamentação da acupuntura que, a partir de 2008, provocou uma guerra aberta entre escolas e associações.

O que, na altura, separava estas 2 entidades era o tipo de curso ministrado.

A ESMTC apresentava um currículo mais exigente diário, com aulas práticas e estágios clinicos.

A APA-DA era um curso de um fim de semana por mês, dado em salas de aulas de hotel, virtualmente sem aulas práticas e sem estágios.

A desconfiança entre os alunos e profissionais destas 2 entidades tornou-se geral.

Esta desconfiança era alimentada por 2 fontes:

1 – da parte dos alunos da APA-DA, aquilo que era alimentado como um comportamento exclusivista e elitista por parte dos alunos da ESMTC;

2 – da parte dos alunos da ESMTC, aquilo que era percebido como lascismo profissional e marketing sem qualquer controlo.

Ficou conhecida a frase da APA-DA:

“É um dos cursos mais completo existente em toda a Europa.(1)“

3 critérios para a escolha de uma escola de medicina chinesa

Um artigo polémico de 2009 baseava-se no uso de 3 critérios para ajudar alunos a escolherem um curso mais completo.

Os 3 critérios seriam:

1 – número de horas teóricas com correspondente currículo;

2 – número de horas de aulas práticas com correspondente currículo;

3 – estágio clínico, tanto em clínicas privadas em Portugal como fora de Portugal.

Na realidade são 3 critérios usados em qualquer curso de saúde que tenha uma forte componente prática como topografia dos meridianos, anatomia palmatória, massagem, acupuntura, etc…

E estes 3 critérios estão alicerçados em algumas questões óbvias:

Qual a complexidade das matérias estudadas?

Quais as condições que determinada escola oferece para as aulas práticas?

Qual a prática que realmente poderá ser feita atendendo às condições materiais e de horário de determinada instituição?

Quais as reais condições para prática clínica que o aluno de determinada instituição poderá usufruir?

A maior parte das criticas à minha posição estavam relacionadas com a subjetividade do meu ponto de vista ou ao prestígio auto-imposto por essas pessoas (melhores cursos da europa, melhores profissionais do mundo, etc…).

As críticas dos alunos da APA-DA

Costumava ser muito atacado por alunos da APA-DA que não concordavam com as minhas ideias.

Uns tentavam um diálogo mais construtivo, pelo menos numa fase inicial, em que pensavam conseguir sustentar os seus argumentos.

Outros nem isso:

“Nem precisam de ter sempre um qualquer indivíduo a fazer de advogado do diabo nas respostas à critica à sua instituição, intitulando-se professor da mesma, dando o  aspecto de que só é professor por dar a cara e fazer o “trabalho sujo” dos responsáveis da mesma instituição, na sua defesa. O chamado…”(1)

Um terceiro tipo de pessoas prefere tentar sistematicamente manipular o que é escrito e discutido.

Por exemplo, quando discutia com um aluno da APA-DA sobre a importância do número de horas de aulas teóricas e práticas recebi a seguinte resposta:

“e ganha o curso que tiver mais horas, imagino que valha tudo nessa corrida pela qualidade até aulas sem professor”.(2)

Já para não falar no problema de se ver todo o tipo de informação manipulada seja por pessoas particulares ou por instituições, seja no processo de regulamentação, seja na discussão da exigência do ensino ainda há uma verdade bastante infeliz.

No ensino da Acupuntura, em Portugal, os profissionais discutiam sobre a validade de “licenciaturas” de fins de semana, algo intolerável para qualquer outra profissão de saúde.

Quando criticava licenciaturas de um fim de semana por mês, alguns porque são dados em salas de conferência de hoteis muitos interrogam-se:

“E olha, eu, tal como todos os que “têm aulas de fim de semana e em hotéis”, ainda não consegui perceber qual é a influência de uma sala de hotel na formação, e na qualificação profissional.”(3)

Mas uma licenciatura exige tempo e condições que não se encontram numa sala de hotel!

Muitos alunos necessitam tirar formações extras onde poderão ter aulas práticas de massagem Tui na.

Regra geral estes seminários são fomentados pelas escolas (pelo menos no que concerne à APA-DA) o que ajuda o aluno a melhorar a sua perícia e os seus conhecimentos teórico-práticos.

No entanto estes seminários não são minimamente suficientes e nem todos os alunos os fazem.

A verdade é que um curso de fim de semana não consegue dar o acompanhamento desejado à formação de um profissional.

Por muito que nos esforcemos só com um lascismo enorme conseguiremos dar credibilidade a esse tipo de cursos.

Quando critico a prática clínica que é rara ou totalmente ausente em muitos cursos de fins de semana também era atacado.

Há pessoas que tiram cursos de fins de semana, recebem o diploma e vão para o mercado de trabalho sem ter visto um único paciente durante todo o curso.

Muitos têm de aprender as técnicas de acupuntura por eles ou noutras formações à parte. Isto deveria ser inadmissível.

Na realidade nem é admitida abertamente a existência deste tipo de problemas. Muitas vezes sou acusado de não saber do que estou a falar:

“Nuno desculpe que ponha as coisas desta maneira mas você só diz coisas sem nexo, injustificadas e sem conhecimento de causa.”(1)

A experiência dos alunos da APA-DA

Na realidade eu nem preciso saber do que estou a falar. Basta deixar os alunos e profissionais das escolas falarem:

“Quem assistiu às 1ºas aulas do Prof P.Choi e mesmo depois de se falar com os responsáveis do curso, percebe que a programação de base do curso assim como o nível de exigência parecem ser bastante bons, mas que o tempo não chega, de longe, para tudo o que se pretende ensinar. Daí, a redução enorme das aulas práticas de base e a forma acelerada como eventualmente vão ser dadas grande parte das matérias. Mas se todos percebem isto, como os próprios responsáveis corroboram, então porque se continua a manter as aulas concentradas apenas num fds por mês e não se aumenta para pelo menos mais um? (idealmente até acho que poderiam ser todos os fds, mas acredito que seria mais complicado agradar a toda a gente). Julgo que se todos estivessem alinhados neste sentido, este curso poderia certamente ser melhorado em muito, com as vantagens obvias daí inerentes.(2)

“Olá, sou aluno do 2º ano da APA-DA e estou a adorar o Curso. É verdade sim que a frequência das aulas deveria ser maior e com mais componente prática,”(3)

Entre acusações de não saber do que falo ou outros ainda mais ridículos esconde-se um problema epidémico em muitos cursos de fins de semana.

A prática clínica é inexistente ou cronicamente fraca.

Num tópico da comunidade de medicina chinesa datado de 15 de Março de 2007 é dito, por um aluno da APA-DA:

“Pela primeira vez, a APA-DA, iniciou a chamada “prática clinica” que consiste em fazer-se um tratamento – a pelo menos um paciente- por ano-que constitui o “estágio”.(4)

Noutro tópico sobre a prática clínica da mesma instituição:

“Alguém que me possa “situar”. Ouvi dizer, relativamente à apa-da «”OBRIGAR cada aluno a tratar, em cada ano lectivo, pelo menos um doente, a qual contará para a nota final do respectivo ano.. numa das clinicas do Dr.Pedro Choy ou dos seus assistentes… o “doente” paga consulta inicial, um tratamento e uma consulta de revisão…………e, a isto chamam de: obtenção de treino clinico Prático.agradecia que colega /alunos da apa-da podessem partilhar opinião sobre este assunto…”(5)

A resposta de um colega da APA-DA:

“Para mim, que estou no 4º ano, só tenho a ganhar em poder fazer um diagnóstico a um caso real, poder discuti-lo com um profissional… A não ser que se tenha conhecimentos no meio, não temos muitas oportunidades de o fazer.”(6)

Noutro tópico de 26 de Abril de 2007 é escrito, por uma aluna da APA-DA:

“Relativamente ás aulas praticas, a APA-DA obriga o aluno a realizar a “prática Clinica” – a pelo menos um paciente, em cada ano lectivo. Isto é, cada aluno terá que – devidamente acompanhado /seguido por um prof. – “tratar” um paciente ao longo de cada ano lectivo. Tb existe calendarios de formaçao mensais de aulas praticas ao longo de todo o ano.”(7)

Quando alunos de outras escolas se manifestaram contra a insuficiência que representa 1 doente por ano receberam a seguinte resposta:

“A quantidade não equivale a qualidade!!!”(8)

Mas como dizia um provérbio chinês:

“A quantidade tem uma qualidade muito própria”

O feitiço contra o feiticeiro: os imitadores da APA-DA

Quando um interessado em tirar um curso de acupuntura interrogou os membros do forumMTC acerca de um novo curso de “centrozen” em Aveiro, recebeu a resposta de um aluno da APA-DA:

“Um conselho amigo “não compres gato por lebre” limita te ás escolas que já tÊm credibilidade e nome na praça. Não desperdices o teu tempo com escolas sem certificação segura.”(1)

Depois do outro membro da do fórum ter perguntado a opinião acerca do curso afirmando que ele era reconhecido pelas entidades: Fundação Europeia de Medicina Chinesa (certificado nº 050004); PEFOTS (Pan European Federation of TCM Societies); Practitioner´s register e Beijing Herbal Medicine Acupuncture Institute, recebeu a seguinte resposta do mesmo aluno da APA-DA:

“Pois pode ser certificada segundo eles, mas nunca ouvi falar, há quanto tempo existe?O Drº Pedro Choy é membro da direcção da Fundação Europeia de MTC e é Vice-Presidente da WFCMS – World Federation of Chinese Medicine Societies, e a Universidade de medicina chinesa do dr pedro choy é o unico polo no mundo de uma universidade chinesa, por isso comparativamente a essa escola não sei…Qual o curriculo do curso, quantos anos etc…”(2)

Qual o currículo do curso?

Quantos anos?

Certificação segura?

Apa-da como prática clinica

Este texto foi escrito por um aluno da APA-DA e publicado inicialmente no MTCBlog.

É também um relato em primeira mão que vem confirmar muito do que já fora escrito nos fóruns sobre este tipo de ensino da acupuntura.

«Comecemos a desvendar um pouco do que me desiludiu e chocou no curso da APA-DA.

De maneira a arranjarem algumas horas práticas para o curso, a partir do meu 2ª ano vieram com uma história de ter de se fazer uma prática clínica.

E como é feita esta prática clínica?

Levamos um paciente a uma das clínicas que aceitam os alunos da APA-DA (evidentemente que a maior parte são as clínicas do Pedro Choy), tens de fazer a primeira consulta e o primeiro tratamento lá (e que tens de pagar de acordo com os preços praticados nessa clínica), em Aveiro 60€ (1ª consulta) + 32€ (1ºtratamento).

Fazemos os restantes tratamentos (mais ou menos 8, chegarão a 4 horas práticas? ) ao paciente em casa, e depois tens de o levar a uma consulta de revisão para te assinarem um papel para enviares para a APA-DA a provar que tens prática clínica feita (o facto de teres feito ou não os tratamentos em casa é irrelevante). Esta consulta de revisão são mais 40€.

Como podes ver, para horas práticas que devias ter direito por natureza no curso, tens de pagar e bem. E chamar horas práticas a isto é ser um bocado benevolente.

Esta “prática clínica”, neste momento é para ser feita do 3º ano ao 5º ano.

Quando alguém questiona esta maneira de fazer as coisas da APA-DA, dizem-nos que isto é um privilégio que nós temos, de usufruir das clínicas, e que devíamos estar muito contentes… e quem estiver mal que se mude.

É a prepotência de sempre.

Mas sobre isto e outras coisas, vamos continuar a falar por aqui.»

Duas perguntas sem resposta

Um comentário de uma aluna da APA-DA com algumas dúvidas sobre o seu futuro profissional, leva-nos a 2 perguntas que nunca são respondidas:

“Sou aluna da APA-DA do 3º ano, infelizmente não conheço bem os meus colegas, os que conhecia foram desistindo, portanto sinto-me um pouco perdida…

Gostaria que algum  colega me pudesse esclarecer algumas dúvidas que me têm atormentado, após ler alguns tópicos espalhados pela net:

Consegue-se exercer REALMENTE MTC no final deste curso da  APA-DA? Quem chega ao 5º ano sente-se preparado para tratar doentes? Com segurança? Com eficácia?

Estranho muito estas aulas salpicadas de mês a mês, sem vestígios de prática clinica. Estranho estes exames até ao momento de escolha múltipla, com baixo grau de exigencia (na minha opinião). Há Alguns Professores bons, mas outros muito maus que se limitam a ler slides durante horas seguidas. A sugestão de “irmos experimentando nos familiares e amigos” – parece-me uma irresponsabilidade -pessoalmente quando não sei, não gosto de inventar, pricipalmente actos médicos sejam de que natureza for. E esta questão de termos um paciente para treino (que acho normal, até deviamos ter muitos)mas que tem de PAGAR consultas numa clínica privada??? Começo-me a sentir enganada, será só uma sensação minha?

Seria muito mais eficaz termos aulas menos extensas mas todos os fins de semana…foi isso que eu pensei que aconteceria quando me inscrevi… Desta forma o conhecimento é disperso e a prática inexistente… O que será de um prifissional de saúde sem prática…sem experiencia…sem conhecimentos consolidados???

Cumprimentos aos colegas…”[i]

E no final fica sempre uma pergunta sem resposta:

Qual é o curso de saúde em Portugal que aceitaria este tipo de condições?

Será que o esforço financeiro compensa a falta de confiança com que o profissional vai para o mercado?

Ninguém quer responder a estas questões!

8 argumentos existentes a favor da licenciatura fim de semana

Qual a profissão de saúde atualmente regulamentada e com cursos homologados que aceita uma licenciatura fim de semana com quase nenhuma aula prática e estágios clínicos extremamente pobres ou inexistentes?

Esta foi a questão que levantei ao longo de vários anos e nunca ninguém e dignou a responder!

Mas levantar esta questão em tempos de Bolonha pode ser problemático.

Enquanto os acupuntores tentam justificar de todas as formas possíveis e imaginárias a existência de licenciaturas de fim de semana, outros profissionais de saúde protestavam contra Bolonha pela redução que significaria para os seus cursos!

No entanto a acupuntura não está regulamentada e qualquer argumento serve para vender um determinado ensino da acupuntura!

Este artigo fala sobre 8 pseudo argumentos cuja função consiste somente em criar uma auto-ilusão de credibilidade, uma sensação de satisfação pessoal, um engrandecimento dos nossos supostos altos valores de exigência pessoal.

Orwell escreveu sobre essa ilusão e na altura criou um clássico.

Cursos que desceram o número de horas com o processo de Bolonha: logo as horas não são necessárias

Um exemplo usado recentemente numa discussão do blogue mas que já tinha sido abordado noutras discussões em fóruns está relacionado com as alterações que se fizeram a alguns cursos durante o processo de Bolonha.

A licenciatura fim de semana torna-se aceitável porque cursos que tinham 5 anos passaram para 3 anos.

Logo o número de horas não é assim tão importante.

Como o número de horas não é assim tão importante a licenciatura fim de semana é válida.

Este argumento falha pelas seguintes razões:

1 – o número de horas de um curso pode ser diminuído só até certo ponto, retirando algumas cadeiras não nucleares.

No entanto, numa licenciatura fim de semana, existe um número de horas bem mais diminuído do que uma licenciatura de 3 anos.

2 – Não é uma comparação justa, uma vez que esses cursos mantiveram os 5 anos de formação associando os 3 anos de licenciatura base com mais 2 anos de mestrado.

Retirando algumas disciplinas não essenciais e recorrendo a um bom projeto de investigação e mantêm-se o curso com 5 anos.

Qualidade versus quantidade

Associado ao argumento atrás está o argumento “qualidade é preferível a quantidade”.

Este argumento pretende somente descredibilizar o facto da licenciatura fim de semana não possuir horas de aulas ou prática clinica suficiente.

O curso não tem quantidade de horas mas é compensado pela elevada qualidade das mesmas e dos seus professores que são realmente excepcionais. E o argumento pode ser usado sem limites.

Por exemplo uma aluna de um curso de fim-de-semana para justificar a prática clinica do seu curso que consistia na observação de um único doente e quando de frente a uma avalanche de críticas devido à manifesta insuficiência da mesma, respondeu:

“A quantidade não equivale a qualidade!!!”[i]

Mais recentemente outra leitora do blogue defendeu os cursos de fim-de-semana com o  argumento onde a qualidade era posta em cheque em frente à quantidade:

“afinal é a profundidade com que aprendemos as coisas, e a qualidade do ensino, ou é o numero de horas?”[ii]

Este argumento é fraco devido à base em que se sustenta:

1 – Em primeiro lugar usar a qualidade, que na situação falada não se consegue avaliar objetivamente e é definida pela interesse próprio de quem faz a afirmação, para justificar a falta de horas de prática ou aulas conduz a uma resposta altamente inviesada.

2 – Em segundo lugar fala-se de quantidade e qualidade como se estivessem em oposição uma à outra e nunca como se fossem ambas necessárias.

A qualidade com que se ensina uma determinada matéria é afetada pelo número de horas que um professor tem disponível para ensinar.

Marketing

Apesar de ser usado como pseudo-argumento, na realidade não é mais que uma estratégia para tentar fortalecer os outros argumentos.

A qualidade do curso permite justificar a falta de horas do mesmo com base na excelência do curso e dos seus professores assim como no profissionalismo dos seus profissionais.

Em determinadas escolas isto é feito apelando ao mediatismo das mesmas ou dos seus fundadores.

Este argumento falha também por várias razões:

1 – A fama de uma pessoa não significa que um determinado cursos seja bom. Fama e competência ou validade são coisas diferentes. Apesar de serem bastante confundidas no mundo de hoje.

Nos cursos homologados com profissões regulamentadas a fama de uma pessoa está dependente do trabalho científico e clinico produzido.

Num curso não homologado de uma profissão não regulamentada o mesmo não é verdade.

2 – O marketing é definido sem qualquer tipo de base comparativa e os resultados concluem somente aquilo serve os nossos interesses. 

3 – Entra em direta oposição com a experiência de outras profissões de saúde que não admitem a existência de uma licenciatura fim de semana.

Comparações com outras formações

Outro pseudo-argumento usado está relacionado com comparações feitas com diferentes tipos de formação.

Uma leitora do blogue usou um panfleto de um curso de auxiliares de ação médica numa tentativa de mostrar que também na medicina convencional existiam cursos maus.

Outros leitores fazem comparações com os seus mestrados ou com os seus doutoramentos. Um leitor escreveu que não tinha aulas há 2 anos no seu doutoramento.

No entanto estas comparações não são válidas pois não se podem comparar licenciaturas com mestrados e doutoramentos. São etapas diferentes.

Na realidade os leitores que fizeram estas comparações esqueceram-se de referir que para chegarem aos mestrados e doutoramentos precisaram fazer licenciaturas… a tempo inteiro.

Cada um é responsável pela sua formação

A base deste pseudo-argumento está correta.

Quando um de nós é o principal responsável pela nossa formação. Além de um mau argumento é uma lapalissada.

Eu escolho se quero estudar mais ou menos. Eu decido se entro neste ou naquele curso. Eu seleciono as áreas que quero desenvolver após a licenciatura tirada… and so on…

Não coloco nada disto em causa. No entanto este argumento não consegue ser minimamente válido.

Um ataque ao tipo de cursos é um ataque ad hominem

Este pseudo-argumento pode ser usado em duas partes separadas:

(1) uma agressão aos profissionais e alunos dos cursos de acupuntura em fim-de-semana e

(2) existem maus profissionais em todo o lado, mesmo em cursos homologados.

É impossível abordar este problema sem criar uma guerra de capelinhas.

Efetivamente há sempre pessoas que se vão sentir ofendidas por várias razões que o leitor já deverá conhecer bem: qualidade não é quantidade, cursos de grande qualidade, ataques pessoais, número de horas não é importante de acordo com o processo de Bolonha, etc…

Apesar de poderem ser usados como argumentos diferentes eles costumam apresentar-se colados e como tal decidi apresenta-los como um único argumento.

Estas são as razões pelas quais eles falham redondamente:

1 – É impossível abordar a questão da formação em acupuntura sem ofender alguém.

Logo a única forma de se tratar o problema é não se falar do mesmo e fingir que não existe.

Porque de outra maneira há de sempre existir alguém ofendido.

2 – É uma forma dissimulada de evitar abordar o problema mostrando que quem o faz é uma má pessoa.

Demonstra falta de honestidade intelectual e incapacidade de discutir os problemas seriamente.

3 – Por existirem maus profissionais de cursos mais completos (cursos a tempo inteiro de medicina, enfermagem ou outros por exemplo) não justifica a existência de cursos onde a formação ainda é pior.

Quanto muito justifica a necessidade de se melhorar a formação dos profissionais. É um argumento que se nega a ele próprio.

O mercado decide quem são os bons acupuntores

Este argumento é bastante usado. Já o observei em diferentes pessoas, em diferentes discussões em diferentes locais (blogs, fóruns, etc…). Um leitor do blogue comentou:

“O mercado é que fará a seleção dos acupunctores mais capacitados. Não serão as escolas .”[i]

De todos, este é provavelmente o pior dos argumentos, mas usado ad nausea!

Ataques pessoais e teorias da conspiração

Outra forma de contestar a minha oposição a tipos de licenciatura fim de semana consiste em fazer ataques pessoais ou criar histórias da conspiração.

Ataques pessoais passa por definir os meus graus de ignorância como “não percebes nada disto”, “não sabes do que falas”, “como podes criticar um curso que não conheces”,etc… ou uma caracterização psicológica da minha pessoa.

Regra geral sofro de complexos de inferioridade, complexos de superioridade, sou recalcado, verdugo, elitista, cómico ou com capacidade de provocar muitas gargalhadas e sofro da síndrome de recém-licenciado.

Recentemente uma leitora, inclusivamente, afirmou que a minha oposição às licenciaturas fim de semana era uma ofensa à filosofia chinesa. Ou pelo menos a forma como me oponho aos mesmos.

Associado a isto costumam vir as teorias da conspiração.

No fundo, no fundo pretendo provocar o medo para ganhar muito dinheiro ou então estou mandatado por uma escola particular para atacar outra escola particular.

A minha experiência na ESMTC até 2015

Comecei a ensinar acupuntura por volta de 2004. Durante 11 anos fui o responsável pela definição do currículo escolar das disciplinas de acupuntura clinica.

No ensino da acupuntura propus-me a 2 objetivos:

1 – focar no raciocinio clínico da medicina chinesa tal como preconizado nas melhores obras académicas das universidades chinesas;

2 – desenvolver o ensino da acupuntura numa perspetiva contemporânea focada na análise objetiva de patologias músculo-esqueléticas e na compreensão dos mecanismos neurofisiológicos da acupuntura.

A ESMTC foi a única instituição em Portugal a ter um programa curricular focado no tratamento de pontos gatilho, seleção de pontos de acordo com miologia funcional e sistema nervoso, acupuntura elétrica, etc…

No entanto, ao longo dos anos, foram sempre surgindo inúmeras dificuldades:

1 – os alunos que chegavam ao 4º ano já tinham uma mentalidade muito esotérica e acabavam por não usar a maioria do material que era ensinado.

Muitos colegas estão mais interessados em “regular as energias” do que em compreender padrões de dor referida ou ter noção da importância dos segmentos nervosos no controlo de dor;

2 – havia professores que nem sequer permitiam que os alunos tratassem pontos gatilho nos estágios.

Para alguns colegas meus era uma curiosidade e para outros um anátema. Mas quase nenhum levou a sério a importância dos pontos gatilho na dor músculo-esquelética.

3 – a formação em anatomia era tão fraca que eu passava mais tempo a ensinar anatomia do que a explicar raciocínio clínico.

Hoje em dia, quando falo com antigos alunos meus, a ideia com que fico é que a maioria gostou das aulas mas não fazem nada do foi ensinado.

A parte mais tradicional e académica acabou por perder o seu interesse ao longo dos anos quando se tornou moda começar a seguir grandes mestres e curas milagrosas e não um raciocínio clínico.

Pouco antes de sair, começou a diminuir-se os horários para acupuntura clinica e surgiram novas cadeiras como “acupuntura tradicional”.

Durante estes anos todos nunca foi possível eliminar o esoterismo irracional dos programas curriculares nem criar reformas estruturais relevantes que permitissem o ensino da acupuntura evoluir de uma estrutura tradicional para outra mais contemporânea.

Evolução do mercado do ensino da acupuntura e pressões nas instituições: 2011 a 2021

Em 2011, defendia que, muito provavelmente, escolas com cursos a tempo inteiro iriam ter mais dificuldade de resistir num futuro sem regulamentação.

As alterações sentidas no ensino da acupuntura são consequências de diferentes pontos de pressão.

1 – o excesso de profissionais está a tornar intolerável a entrada no mercado de novos acupuntores;

A competição está tão grande que uma boa parte dos profissionais desiste da profissão por não conseguir viver da mesma.

Estes dados implicam que, mais tarde ou mais cedo, o futuro das escolas tradicionais de ensino da acupuntura, poderá ficar muito condicionado.

2 – evolução do ensino da acupuntura de um modelo de “licenciaturas” para “formações mais avançadas”

Diferentes empresas oferecem formação em áreas muito semelhantes como acupuntura e cancro ou áreas completamente diferentes como formações específicas para tratar dor ou para cosmética.

A juntar a estas formações encontram-se formações próprias para profissionais de saúde que desejam aprender acupuntura e inseri-la nos seus tratamentos.

Pós-graduações para enfermeiros, formações avançadas em acupuntura para fisioterapeutas, mestrados e pós-graduações em acupuntura para médicos, etc…

Estas classes profissionais estão cada vez mais interessados em associar a acupuntura ao seu arsenal terapêutico.

O futuro das escolas de acupuntura tradicional parece estar dependente da capacidade destas se adaptarem a um novo tipo de clientes.

Olhando para trás a partir da visão do ano de 2021 podemos observar a evolução deste mercado:

1 – veio a regulamentação e a pressão para a escolas tradicionais se adaptarem com a perda de relevância de “licenciaturas” em fim de semana e o aparecimento de licenciaturas homologadas;

2 – o ensino da acupuntura para acupuntores evoluiu para um conjunto de formações extra-curriculares baseadas numa forte componente esotérica;

3 – o ensino da acupuntura para outros profissionais evoluiu para um conjunto de formações muito focadas em abordagens contemporâneas.

Enquanto algumas escolas desapareceram, cursos homologados mais recentes abriram e fecharam, os acupuntores fecharam-se em algumas formações extra-curriculares ao mesmo tempo que explodiu todo um conjunto de novas formações de acupuntura contemporânea para outros profissionais de saúde.

Uma revisão histórica baseada numa análise sociológica

O ensino da acupuntura, em Portugal, sempre esteve condicionado por 2 fatores:

1 – a ausência de regulamentação que facilitou o lascismo escolar e o oportunismo financeiro.

2 – o completo desprezo pelo ensino de abordagens contemporâneas e cientificas em detrimento de abordagens mais esotéricas e anti-institucionais.

Por outro lado, o efeito da acupuntura no tratamento da dor, assim como algumas vantagens sócio-profissionais, criou um novo interesse por parte de muitos profissionais de saúde.

Isto gerou novas pressões no ensino da acupuntura em Portugal.

Numa fase inicial, muitos desses profissionais, faziam simples “licenciaturas” de fins de semanas ou algo mais especializado como “mestrados” de acupuntura para enfermeiros.

No entanto, a maioria desses cursos demoravam muito tempo, eram caros e não desenvolviam abordagens contemporâneas que chamavam a atenção de muitos profissionais.

Para quê estar inscrito num curso de 5 anos e aprender uma série de matérias que não me dizem nada quando só quero uma técnica especifica para um dado problema?

Rapidamente começaram a surgir pequenas formações especializadas com propósitos muitos específicos: “acupuntura para fisioterapeutas”, “punção seca”, “punção seca segmentar”, “acupuntura elétrica”, “eletrólise percutânea”, etc…

Os interesses sociais destas classes com o dinamismo empresarial de muitos fisioterapeutas fizeram com que o mercado começasse a apresentar uma série de produtos com os quais as escolas tradicionais não conseguiam competir.

Para que é que um fisioterapeuta vai fazer um curso manhoso de “acupuntura energética” quando pode aprender uma técnica revolucionária usada nos principais clubes de futebol chamada “eletrólise percutânea”?

Esta dinâmica gerou 2 massas de profissionais distintas:

1 – os acupuntores tradicionais que desprezam abordagens contemporâneas e preferem o conhecimento anti-sistema: Van Ghi e Mestre Tung, vieram a dominar as formações para acupuntores!

2 – profissionais de saúde que preferem abordagens contemporâneas para se integrarem com outras técnicas passivas e ativas: punção seca sendo a mais conhecida.

Estas 2 classes de profissionais tem ideias muito diferentes sobre saúde humana ou que é ou não é acupuntura! Isso vai definir os desafios dos próximos 10 anos no ensino da acupuntura!

 

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