Prós e Contras: as TNC no sistema de saúde

prós e contras TNC no SNS

A ciência e os seus pouco amigos

As TNC no SNS foi a problemática que serviu de motor ao prós e contras. Começou com uma mesa de cientistas e médicos que supostamente são defensores da ciência.

O programa rapidamente provou que a ciência em Portugal não tem muitos amigos.

Começou com um espetáculo do David Marçal apresentando um gráfico sem fontes para não ser imediatamente descredibilizado e acabou com o marketing de filmes do youtube pelas mãos de Pedro Choy.

O Choy venceu pela estratégia mais inteligente mas nenhum deles conseguiu defender a ciência.

Pelo meio pudemos ver um médico homeopata a usar e abusar da falácia da popularidade, o João Beles com as teorias da conspiração e o João Cerqueira com o seu estilo cáustico e desrespeitoso.

A falácia da popularidade (com os 5000 estudos de homeopatia) fora facilmente desmontada por um médico na plateia (ao referir a importância de estudos com qualidade).

As teorias da conspiração anularam-se a elas próprias (não tem lógica apresentar um estudo e depois dizer que não há estudos porque não é permitido pouco depois do colega do lado ter dito que existiam milhares de estudos).

O estilo agressivo e pouco polido do João Cerqueira não lhe permitiu tomar a dianteira dos argumentos mesmo estando correto uma série de vezes.

beles meme tnc no sns

A peixarada como nova forma de divulgação cientifica

A ciência divulga-se pela beleza inerente ao processo de descobrir a realidade que nos rodeia.

Ela defende-se pela beleza lógica dos argumentos usados e da forma como são pensados.

A ciência não se divulga ou defende através de ofensas pessoais ou egos ofendidos.

scimed iluminadoEnquanto o David Marçal e o João Cerqueira se fundamentarem nas pessoas que odeiam e na bajulação pessoal do seu ego e não no processo construtivo do modelo científico nunca serão representantes dignos de qualquer ciência.

A utilização de argumentos (nem todas as opiniões tem o mesmo peso) aplicadas de forma egocêntrica e logicamente insustentável  (assume que só a opinião deles tem valor), o uso de dados sem fontes, a postura ou linguagem mais ofensiva mostraram a incapacidade de comunicar e defender ciência tanto do David Marçal como do João Cerqueira.

Parece que a defesa da ciência deixou de estar entregue a pessoas que conquistam a audiência usando a lógica como Carl Sagan ou Sam Harris ou mesmo pensadores com tiradas mais mordazes como Christopher Hitchens ou Richard Dawkins.

Agora existe uma nova geração facebook que acha que a defesa da ciência se faz ofendendo as pessoas e cometendo os mesmos erros que elas.

Exemplos a seguir no prós e contras

Houve 4 intervenientes nas TNC que tentaram validar estas áreas recorrendo a estudos.

Um colega apresentou videos do Youtube, referências da TVI e “milhões” de estudos chineses (acupuntura/medicina chinesa).

Outro colega usou a quantidade de estudos como prova da eficácia de uma terapia (homeopatia).

Outro colega apresentou estudos escolhidos a dedo condicionando a informação do mesmo (naturopatia).

Finalmente, outro colega, Alexandre Nunes, apresentou a osteopatia focando-se nos benefícios económicos do tratamento da dor crónica e em guidelines internacionais a apoiarem a osteopatia no tratamento da lombalgia.

Se queremos as TNC no SNS este é o caminho a seguir.

A resposta que cada um recebeu demonstra o tipo de validade que tinham.

1 – Os videos do Youtube e os “milhões” de estudos chineses foram recebidos com uma chuva de críticas e indignação.

O Youtube não serve como prova de nada e, desejemos admitir ou não, está bem documentado o problema de credibilidade dos estudos chineses.

2 – A quantidade de estudos não prova a eficácia de nada como ficou comprovado pelas críticas que foram feitas por vários intervenientes.

3 – A resposta ao estudos usados pela naturopatia não podia ter sido mais descredibilizante. Um médico na plateia em 3 minutos encontra o estudo e coloca em causa imediatamente o mesmo, através das conclusões do próprio.

4 – No entanto a resposta ao comentário do Alexandre Nunes foi totalmente diferente. Não se ouviram vozes de indignação.

Pelo contrário, qualquer cético presente aceitou de imediato o que tinha sido dito.

Os membros do painel a “representar a ciência” começaram o programa a dizerem que as TNC eram todas a mesma coisa e não tinham valor e acabaram a assumir que a Osteopatia era um tratamento válido na lombalgia.

Existe um exemplo a seguir. O programa mostrou claramente que existe uma forma de comunicar que nos dá valor. Só temos de o seguir.

Ciência não se combate… aceita-se. Muitos críticos das TNC não tem como argumentar contra uma boa apresentação científica.

tnc no sns indignados

A indignação e as crenças esotéricas que afetam a entrada das TNC no SNS

Alguns pontos dignos de referência e que nos deveriam fazer pensar:

1 – a primeira intervenção dos médicos João Júlio Cerqueira e André Casado referem explicitamente os ataques anti-quimioterapia, anti-vacinas e anti-ciência de alguns setores das TNC.

2 – A intervenção da presidente da Sociedade de Céticos refere uma diferença importante entre os efeitos da fitoterapia e a homeopatia focando na diferença entre ter e não ter validade cientifica.

Enquanto não se endereçar esta indignação, que tem todo o direito de existir, nunca poderemos encontrar pontos base para uma discussão futura.

E não vai existir um futuro de “mentes abertas” onde a homeopatia tem água ou existem energias no corpo só porque é politicamente correto.

Ou se abandonam crenças esotéricas e irracionais ou estas serão sempre um entrave à comunicação com outras profissões de saúde.

As abordagens anti-ciência típicas de nichos da homeopatia e naturopatia serão sempre um entrave à comunicação com outras profissões de saúde e à respeitabilidade social dos terapeutas.

É verdade que também foram feitas afirmações contra algumas TNC que geram indignação (relógio que acerta 2 vezes, é tudo falso, não servem para nada, o paciente melhora porque somos simpáticos, etc…) mas o nosso problema fulcral está na componente anti-científica de algumas TNC.

prós e contras tnc sns

Resposta aos céticos

Os problemas que iam ser levantados eram conhecidos. As manipulações também.

De certeza que o estudo de Yale ia ser abordado como acontece quase sempre.

A oposição à quimioterapia e vacinas igualmente; uso de falácias ou teorias da conspiração… and so on.

3 passos para vencer o debate

1 – Saber responder usando os mesmos estudos, não usar estudos fracos, defender a quimioterapia e as vacinas, não entrar em lutas ou fazer acusações, admitir os próprios erros e não usar falácias nem teorias da conspiração.

2 – Apontar os sucessivos erros dos céticos: Falta de honestidade intelectual, afirmações sem fundamentação, apresentação de dados viciados, dualidade de critérios

O médico João Júlio Cerqueira tem um historial bem comprovado de afirmações infundadas, traduções manipuladas, cherry picking, etc… Não seria muito difícil contradizer alguns pontos de vista.

3 – direccionar o discurso para o que seria realmente relevante e este seria dos pontos mais importantes.

Estudo da validade cientifica (homeopatia vs osteopatia), diferentes formas de olhar a acupuntura, etc…

Estudo da validade clinica (diferentes níveis de evidência – homeopatia, prescrição médica offlabel, fitoterapia, prescrição normal vs importância clinica dos diferentes níveis de evidência face à eficácia, custos e efeitos secundários vs gravidade dos sintomas vs níveis de evidência).

Focar na construção de identidades semelhantes: tal como o osteopata Carlos Martins tentou fazer.

Focar em bases cientificas comuns (biomecânica ou neurofisiologia), focar na experiência clinica e nos problemas idênticos que são consequentes dessa prática clínica.

Analisar as diferenças de opinião com base na experiência pessoal tocando problemas como a perspetiva clinica e cientifica de quem prescreve um medicamento ou de quem aplica técnicas manuais.

… and on and on and on…

Integrar ou não integrar as TNC no SNS

Neste momento, sou contra integrar as TNC no SNS por várias razões:

1 – Existe uma componente muito esotérica e anti-cientifica em algumas áreas. A última coisa que queremos é tirar trabalho a médicos de família e substitui-los por homeopatas anti-vacinação.

2 – Existem prioridades para o SNS que não a integração das TNC. Faltam recursos que obrigam a uma gestão criteriosa; faltam valências como medicina dentária, etc…

3 – Existem mais vantagens em trabalhar como profissional liberal: não comprometemos a eficácia com a burocracia, trabalhamos numa situação em que somos obrigados a arranjar soluções que os tratamentos mainstream não foram capazes dando-nos vantagens competitivas.

4 – Identidade e conflito: o prémio Nobel da Economia, Amartya Sen, refere a importância da criação de várias identidades de forma a diminuir a probabilidade dos conflitos.

O que se aplica à relação entre países e ideologias, aplica-se às profissões de saúde.

Somos profissões recentes e precisamos criar identidades base semelhantes com as outras profissões de saúde de forma a trabalharmos em conjunto minimizando o impacto geral dos conflitos.

Inicialmente vamos sempre ser recebidos com cepticismo, medo e hostilidade.

5 – Polarização e política: neste momento existem opiniões muito polarizadas. Ao mesmo tempo que alguns terapeutas defendem a introdução das TNC no SNS também atacam a vacinação e os médicos.

Isto gera uma resposta mais violenta por parte dos céticos. O discurso público acaba por ser dominado pelas opiniões mais radicalizadas.

6 – Estabilidade: somos uma profissão nova e precisamos de tempo para ganhar o nosso espaço.

Por outro lado precisamos focar-nos nos problemas internos da classe.

Não precisamos de estratégias políticas para provocar guerras desnecessárias de forma a esconder os problemas que afetam a classe.

Precisamos de estabilidade e tempo para uma nova geração de profissionais com melhor formação científica poder criar novos laços de comunicação com outras profissões.

A questão não é se devemos ter as TNC no SNS.

A acupuntura (que provoca celeumas) já é praticada no SNS por médicos e a osteopatia que é cada vez mais aconselhada nas guidelines clínicas para vários problemas de saúde (lombalgia e cervicalgia, por exemplo) não está no SNS.

A questão está na relação de confiança social com novos profissionais de saúde. Já imaginaram uma equipa de saúde com o João Cerqueira e o João Beles?

O dinheiro dos impostos, como usado por alguns terapeutas, é um falso argumento. Usámos este argumento tanto no programa de televisão como nas redes sociais.

No entanto é um argumento egocêntrico e sem validade.

Em primeiro lugar não podemos ultrapassar a questão da validade cientifica pela vontade democrática.

Pelo menos numa democracia liberal que pretende saber gerir corretamente os seus fundos públicos.

Em segundo lugar, existem muitos contribuintes que não são a favor do uso dos seus impostos para pagar o ordenado a profissionais TNC.

enfermagem na acupuntura

Pensamentos finais sobre as TNC no SNS

O prós e contras parecia um jogo de casados contra solteiros.

O David Marçal e o Pedro Choy tentaram manipular a ciência e criar o seu próprio espetáculo (o Choy soube faze-lo melhor!) enquanto o João Cerqueira e o João Beles mostraram que todas as áreas tem as suas Kardashians.

Os melhores intervenientes? 3 médicos e 1 osteopata.

O grande vencedor da noite acabou por ser o Pedro Choy pela estratégia inteligente que seguiu.

Das diferentes TNC, a Osteopatia, saiu com uma imagem diferenciada e credível.

Os grandes derrotados acabaram por ser o João Cerqueira e João beles. O seu estilo agressivo e desrespeitoso foi desnecessário e contraproducente.

No global, tanto a ciência como as TNC não lucraram nada.

Os problemas mais sérios a ser discutidos relativamente à evidência científica e clínica das diferentes TNC, a complexa tapeçaria social de valores e crenças nas TNC ou os problemas de integração das TNC no SNS não foram quase abordados.

No final cada um saiu de lá com as certezas com que chegou e no dia seguinte todos se estavam a ofender e vitimizar nas redes sociais.