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Dialogar com médicos

Factos históricos condicionantes ao dialogar com médicos

É impossível compreender o comportamento atual da China no Mar do Sul da China sem compreender a forma como a história modela a conceito de identidade chinesa.

É impossível compreender o comportamento da Rússia na Ucrânia sem compreender a forma como a geografia local modelou os conflitos e, obrigatoriamente, o comportamento de política externa dos russos.

Em termos de política externa, o comportamento de Putin, é muito idêntico ao dos diferentes líderes soviéticos e dos czars. E isto apesar das discrepâncias ideológicas e distanciamento histórico.

Tal como os chineses, é impossível compreender o comportamento de muitos adeptos de crenças energéticas na acupuntura sem compreender a importância da Revolução Industrial.

E tal como os russos, é impossível compreender o comportamento de muitos aderentes da extrema esquerda relativamente à islamofobia sem compreender o impacto que os descobrimentos tiveram na psique ocidental.

Quer desejemos, ou não, a história modela e condiciona a forma como observamos o mundo.

E quando discutimos com médicos, especialmente médicos céticos, devemos ter a noção que existem factos históricos que modelaram a forma como eles pensam hoje em dia.

Muitos médicos podem não ter noção da forma como estes factos históricos modelaram as suas crenças.

Certamente muitos aderentes do bloco de esquerda não se apercebem da importância da corrente sentimentalista do século XVIII nas suas definições de islamofobia.

Ou, os médicos, até podem ter noção da importância desses factos para o seu pensamento atual da mesma forma que os Russos relembram constantemente as invasões mongóis do século XII.

Este artigo vai abordar 2 factos históricos que modelaram a forma como a classe médica pensa, a forma como isso afeta a evolução da medicina e o diálogo com diversas terapias manuais sejam ou não TNC.

Vacinação: a grande vitória das doenças

O sucesso da vacinação não tem paralelo na história da medicina.

Das maiores descobertas da história da humanidade permitiu salvar milhões de vidas e melhorar a qualidade de vida de muitos mais milhões.

Apesar de existirem muitos adetos da medicina chinesa que, erradamente, contestam a eficácia da vacinação, ironicamente, esta teve início numa prática chinesa.

No Ocidente ficou conhecida como variolação. 2 séculos depois, o desenvolvimento de técnicas de vacinação permitiram erradicar a varíola. Sem dúvida, um feito nunca antes conseguido na história.

O sucesso da vacinação, a compreensão dos fenómenos fisiopatológicos e bacteriológicos das doenças veio fortalecer a definição do conceito de doença.

Este conceito apesar de se poder aplicar ao corpo todo ficou muito condicionado pelo estudo dos sistemas biológicos e pela sua aplicação a microorganismos infecciosos.

O conceito de doença é importante porque é através deste que chegamos ao objetivo máximo do diagnóstico.

Ou seja os médicos estão habituados a pensar em doenças num contexto de doenças infecciosas e de patologias de sistemas.

Pensar fora das doenças… e dialogar com médicos

No entanto, isto afeta o diálogo com áreas das terapias manuais e a compreensão de muitas doenças que se começam a conhecer melhor agora (sendo o cancro o exemplo perfeito).

Vamos abordar estes dois problemas.

A abordagem de algumas terapias manuais

Um paciente com dormência nos dedos, apresenta sinais clinicos típicos de túnel cárpico e eletromiografia a demonstrar alterações de condutividade nervosa que não deixam dúvida acerca do diagnóstico médico.

O paciente é diagnosticado com túnel cárpico.

Quantos de nós (osteopatas, fisioterapeutas, médicos, acupuntores), já não encontraram pacientes nestas circunstâncias que foram operados e não sentiram melhorias?

Em quantos as melhorias regrediram?

Quantos destes pacientes melhoram a tratar tudo o resto menos o túnel cárpico?

Tem lógica usar unicamente um sistema de catalogação de sintomas, sinais clinicos e exames médicos para muitas patologias músculo-esqueléticas?

Um paciente com o diagnóstico médico de túnel cárpico fica sem sintomas quando se altera o seu padrão respiratório, outro quando se promove deslizamento do nervo e outro quando se relaxam alguns músculos.

E todos tem a mesma doença!

Eu não pretendo defender que o conceito de doença está errado mas sim que a experiência histórica com esse conceito limita a nossa capacidade de atuar em muitas queixas dos pacientes.

Dizer a um médico que em muitos casos o diagnóstico de síndrome de túnel cárpico é irrelevante e que a cirurgia é contraproducente não vai gerar respostas positivas e dialogantes da parte dos médicos.

E no entanto essa é a conclusão lógica da apresentação dos nossos factos e argumentos.

O cancro como exemplo da evolução de paradigmas médicos

A definição de doença com base na experiência histórica fez com que se catalogasse o cancro como doença de sistemas.

Isto não afeta a relação com as TNC mas afeta a compreensão que temos do cancro como fenómeno fisiopatológico.

Atualmente as coisas começam a mudar com o desenvolvimento de drogas agnósticas.

O cancro começa a ser definido como fenómeno fisiopatológico com base nas suas características biológicas e não tanto pela experiência histórica médica.

O desenvolvimento de um método científico para os medicamentos

O método de trabalho cientifico definiu uma metodologia com um sucesso espetacular.

Esse método foi forçado pelo crescente conhecimento científico, escândalos com efeitos secundários de medicamentos, necessidade de melhorar resultados clínicos, etc…

Usar placebo, medicamento real, grupos controlo, cegamento duplo de doentes e médicos e capacidade de analisar objetivamente estes dados permitiu criar um corpo de conhecimentos muito evoluído.

Nós lembramos as estratégias vencedoras e aplicamos as estratégias do passado nos desafios futuros pois é um modelo de aprendizagem e evolução cognitiva, normal no ser humano.

O passado condiciona a forma como enfrentamos os desafios presentes.

Mas por muito bonito, eficaz, interessante ou glorioso que tenha sido o passado não podemos esquecer nunca as premisass nas quais ele vingou e as premissas que sustentam os desafios atuais.

A história da aplicação do método científico na medicina condicionou os médicos a pensar na investigação em moldes muito específicos.

A consequência foi olhar para um fenómeno natural do corpo, como se fosse desprestigiante em termos académicos… o efeito placebo.

Dialogar com médicos sobre placebo e investigação

E isto geram 2 fontes de atrito com muitos terapeutas TNC e outros tantos profissionais de saúde.

O método científico funciona e não vai desaparecer. Mas precisa de se adaptar em condições especificas.

Em algumas técnicas terapêuticas na acupuntura, osteopatia ou fisioterapia as premissas que o tornaram útil na investigação dos medicamentos não são aplicáveis.

Em primeiro lugar não é possível cegar o terapeuta.

Em segundo lugar é virtualmente impossível cegar o doente.

Em terceiro lugar não é possível separar o “verdadeiro” do “falso” (exemplo: as definições completamente ridículas de acupuntura verdadeira e falsa)

Finalmente, todos estes 3 pontos são facilmente conseguidos ao separar um comprimido de açúcar com um comprimido com princípio ativo.

Ademais existe uma personalização da aplicação da técnicas que afeta o resultado dos estudos e a sua transcrição para a prática clinica.

Temos como exemplo o tamanho do médico, dos seus braços, da sua força ou sensibilidade tátil que são desnecessárias para prescrever um medicamento mas condicionam muito a aplicação de técnicas osteopáticas.

Por outro lado a forma como olhamos o efeito placebo condiciona o diálogo entre os diversos profissionais.

A aplicação do método científico fundamentou-se no efeito clínico em oposição ao efeito placebo.

No entanto o efeito placebo é parte integrante de muitas destas terapêuticas e da forma como são praticadas.

Isto não significa que estas técnicas sejam somente placebo. Mas o placebo faz parte integrante da técnica e é uma ferramenta clínica diária relevante para o terapeuta.

Na pele do outro: da cortisona à acupuntura elétrica

Como profissional das Terapêuticas Não Convencionais costumo ter pontos de vista conflituantes com outras classes profissionais. E sem dúvida, isto afeta a forma de dialogar com médicos.

A minha experiência é moldada por um conjunto e circunstâncias diferenciadas que limita a minha capacidade de compreender o trabalho dos outros.

Todos nós sofremos desta limitações e todos devíamos treinar a capacidade de nos colocarmos na pele dos outros.

Em muitos artigos meus sou crítico dos paradigmas de saúde que definem a cultura clínica de profissões de saúde como a medicina.

Costumo criticar o uso excessivo de medicação e o excesso de paternalismo médico que leva a uma postura mais passiva e menos responsabilizante do paciente.

E obviamente que gosto de sustentar as minhas críticas em factos e experiências clínicas:

1 – a europa avisou Portugal pelo uso excessivo de antibióticos que geram estirpes resistentes,

2 – o uso excessivo de anti-inflamatórios e analgésicos para tratar queixas músculo-esqueléticas,

3 – os conselhos de descanso a hidroginástica, etc…

Num exemplo clínico prático, critiquei o uso excessivo de cortisona em alguns pacientes que acabam por ter resultados a longo prazo que são claramente desfavoráveis.

Tem lógica, encher de cortisona, uma paciente com dor nos joelhos, por artrite reumatoide, e provocar um aumento de peso de vários kilos que só vai complicar a situaçâo mais tarde?

Tem lógica usar uma estratégia que facilita a curto prazo mas complica a longo prazo?

Entre o curto e o longo prazo

Mas e quando o profissional só pode pensar no curto prazo?

Quando doses elevadas da tão mal falada cortisona é a única possibilidade de ajudar o paciente?

Quando a cortisona salva a vida ao paciente?

Quando temos de atuar num caso tão agudo que temos de usar algo que vai ter efeitos secundários indesejados mas só podemos pensar neles depois?

Como acupuntor e osteopata eu não conheço essa realidade pois eu não tenho pacientes a morrer na minha clinica nem nunca tive de ver um paciente em falência cardíaca.

E a minha experiência em medicina intensiva é nula!

Eu vivo uma realidade em que muitos pacientes sofrem pelo uso excessivo de cortisona, mas muitos médicos vivem a realidade em que os pacientes estão vivos porque eles usaram cortisona.

O outro lado da cortina tem sempre uma realidade diferente definida por fatores que me são completamente estranhos.

2 paradigmas de saúde que moldam a forma de dialogar com médicos

Também falei acerca de diferentes paradigmas em saúde e a forma como podem condicionar o uso de diferentes ferramentas terapeuticas.

Usei, uma vez, o exemplo da hérnia discal:

o paciente tem dor porque a hérnia comprime o nervo ou porque o nervo não se conseguiu adaptar à hérnia?

Devemos focar as nossas terapêuticas em eliminar a dor e reverter alterações anatómicas ou em adaptar as estruturas circundantes a esses alterações anatómicas?

Menos cirurgia mais neurodinamicas, menos calores húmidos mais acupuntura elétrica, menos massagem suave local e mais mobilizaçâo articular, etc…

Mas esta minha realidade clinica é definida por um grupo de pacientes que não responderam aos tratamentos convencionais e nunca pelo grupo de doentes que responderam.

Existem imensos pacientes que vivem felizes com injeções de voltaren, calores húmidos e massagem local.

E muitos gostaram imenso do médico que os operou e ficaram muito melhores.

Eu nao pressuponho que a minha realidade seja errada, seja superior ou inferior.

Para mim ela é clinicamente válida e a minha experiencia é bastante positiva, mas também o é a experiencia de muitos fisioterapeutas e médicos que aplicam tratamentos convencionais.

Repensar o diálogo com médicos

O que escrevo não significa que deixe de concordar com muitas das críticas que escrevi no passado.

A medicina usa e abusa de determinados medicamentos que tem boa ação no curto prazo mas não compensam pelos efeitos que provocam no longo prazo.

Muitas vezes tratamos um sintoma para provocar outro.

Mas precisamos reconhecer que os médicos passam por muitas situações em que são obrigados a pensar assim.

Da mesma forma que eu me prendo aos meus paradigmas definidos pelo meu conhecimento e experiência profissional assim o fazem outros profissionais de saúde.

Muitos pacientes com artrite reumatóide podem beneficiar mais de acupuntura elétrica do que cortisona mas outros pacientes podem estar a ser prejudicados ao fazer acupuntura elétrica e não cortisona ou outra qualquer medicação.

Como definimos a fronteira?

Como podemos garantir que o doente pode ter o melhor acompanhamento, com os resultados mais satisfatórios e menos efeitos secundários?

O melhor é repensar a forma de dialogar com médicos, mas repensar esse diálogo implica ter abertura de espírito suficiente para compreender a forma como a experiência clínica desses profissionais condiciona a sua forma de trabalhar.

Significa que muitos terapeutas TNC tem de repensar o seu discurso pouco científico pois qualquer diálogo construtivo sobre saúde tem de ser assente em noções reais e não fantasistas.

Significa que temos de ter consciência da diferença que existe entre a posição sectária da ordem dos médicos e a posição clínica dos médicos no dia a dia.

Abrir a cortina e colocarmo-nos na pele do outro não implica somente uma maior compreensão da forma como os outros pensam e trabalham mas também das nossas falhas e da forma como essas falhas condicionam um diálogo construtivo que, no futuro, só poderá beneficiar o doente.

Abrir a cortina

Precisamos abrir a cortina e ver as condiçôes em que as classes que criticamos trabalham.

Fazemo-lo através de um diálogo construtivo com outros profissionais de saúde como médicos, fisioterapeutas, fisiologistas de exercício, nutricionistas, psicólogos.

Precisamos faze-lo defendendo a nossa filosofia de trabalho ao mesmo tempo que tentamos compreender todas as nunaces que definem a filosofia de trabalho que originaram outras filosofias e paradigmas profissionais.

Não é fácil pois alguns profissionais são mais abertos ao diálogo que outros, outros são mais propensos a aceitarem novos paradigmas de trabalho e outros preferem ficar a olhar para as sombras da sua caverna platónica.

Temos visões diferentes acerca da forma como os estudos científicos devem ser efetuados ou da forma como devemos olhar culturalmente para efeitos fisiológicos como o efeito placebo.

Mas temos de começar por algum lado…. E se calhar a cortisona serve perfeitamente.

Dialogar com médicos na perspetiva do paciente

Dificuldade que os pacientes sentem a dialogar com médicos

Uma política comum na minha prática é aconselhar sempre o paciente a falar com o seu médico sobre os tratamentos que faz.

A maioria dos pacientes passa a ideia que costuma dizer ao seu médico os tratamentos que faz independentemente do que ele ache.

Um número mais pequeno de doentes não se sente à vontade para dialogar com médicos sobre outros tratamentos.

Ao todo lembro-me de 4 razões principais que levam os pacientes a não referirem aos seus profissionais de saúde que fazem tratamentos de acupuntura e/ou fitoterapia:

1 – medo da reação do médico

2 – necessidade de sentir compreendido e incapacidade de lidar com opiniões negativas

3 – o paciente desiste do médico relativamente a um determinado problema de saúde

4 – o doente respeita o médico e não quer que ele pense que o seu trabalho é desvalorizado

Medo da reação do médico

Este fator é muito comum e afeta principalmente a classe médica.

Muitos pacientes, cujos médicos de família possuem temperamentos mais inflamáveis, tendem a esconder-lhes que fazem outros tratamentos pois não querem ouvir a reprovação do seu médico.

Regra geral os pacientes que conseguem lidar melhor com esta situação são aqueles que possuem uma personalidade mais vincada e decisiva ou tem médicos com os quais é mais fácil dialogar.

Os pacientes detestam sentir a reprovação do médico, mas pior ainda é sentirem-se atacados pelas escolhas que fizeram ao dialogar com médicos.

Necessidade de se sentir compreendido e incapacidade de lidar com opiniões negativas

Este é um fator muito comum em pacientes com problemas emocionais como depressões e falta de auto-estima.

Não afeta só a classe médica mas sim todo e qualquer profissional de saúde e tem a ver com a necessidade do paciente se sentir melhor.

A simples afirmação, do profissional de saúde, que não acha credível determinado tipo de tratamento associado com a incapacidade do paciente em lidar com opiniões negativas faz com que este se proteja evitando falar abertamente sobre todos os tratamentos que faz.

O paciente desiste do médico relativamente a um determinado problema de saúde

Este fator surge em pacientes mais idosos com problemas crónicos para os quais a medicina não se conseguiu mostrar eficaz e o médico, ao longo do tempo, começou a apresentar um certo distanciamento.

Nestes casos ouive-se os pacientes relatarem conversas com médicos onde estes respondem: “não posso fazer nada”, “isso é da idade… tem de aguentar”.

O fator decisivo não é o fracasso da medicina em tratar o paciente mas sim o distanciamento que o médico apresenta relativamente ao sofrimento do paciente.

É comum, quando aconselho estes pacientes a informarem o médico de família de que faz acupuntura, receber a resposta: “para quê? Ele não se interessa mesmo” ou “ele atende-me em 5 minutos e não me ajuda em nada, não lhe vou estar a dizer nada… ainda me vem chatear”.

O doente respeita o médico e não quer que ele pense que o seu trabalho é desvalorizado

Este caso acontece para qualquer profissional de saúde que consiga manter uma forte relação empática com o doente mas que em determinada altura do tratamento, a eficácia deste comece a ficar comprometida.

Recentemente tive de tratar um caso de paralisia facial onde a paciente se recusou a contar ao fisioterapeuta que fazia acupuntura para que este não achasse que o seu trabalho não era respeitado.

A paciente respondeu muito bem aos tratamentos de fisioterapia mostrando uma evolução excelente ao final do 1º mês.

No entanto, no final do 1º mês, o fisioterapeuta começou a notar que os músculos da boca não respondiam tão bem assim como os músculos dos olhos (orbicular dos olhos).

A paciente começou a fazer acupuntura elétrica para tratar estes sintomas e o fisioterapeuta notou diferenças de resposta com melhorias muito boas.

Mas nunca soube que a paciente fez algumas sessões de acupuntura pois para a paciente esta era a forma de premiar a dedicação que o fisioterapeuta lhe tinha dedicado.

Razões pelas quais os doentes devem falar com os seus médicos

São 3 as principais razões que fazem com que o paciente deva falar com o seu médico.

1 – evitar problemas maiores

2 – garantir o melhor diagnóstico possível

3 – estimular o contato entre profissionais

Evitar problemas maiores

Especialmente no que concerne à fitoterapia pois podem existir interações farmacocinéticas e farmacodinâmicas entre fitoterápicos e medicação ocidental.

Neste caso, especialmente, falar com o seu médico ou médicos que acompanham o paciente deve(m) estar conscientes de possíveis perigos para o paciente.

Mesmo não sabendo todas as interações que existem, na eventualidade de surgirem sintomas estranhos ou respostas anómalas à medicação, sem razão aparente, pode pensar-se em interações farmacocinéticas antes de se entrar em exames mais dispendiosos em termos de tempo e dinheiro.

Garantir o melhor diagnóstico possível

Em 2007, uma médica, na altura vice-presidente da Sociedade Portuguesa Médica de Acupuntura, afirmou “Não se devem atrasar tratamentos que podem ser mais efectivos para a patologia em causa, a utilizar a acupunctura em vez de um tratamento mais eficaz”.

Longe de mim depois de atacar esta afirmação vir agora defende-la.

Mantenho tudo o que disse de início acerca deste argumento que mais não é que uma forma grosseira de mandar areia para os olhos das pessoas (a maioria dos pacientes vem para a acupuntura porque os tratamentos ocidentais não foram eficazes e o tratamento de acupuntura não se incompatibiliza com outros tratamentos).

No entanto, existem fatores inter-profissionais que podem conduzir a atrasos no tratamento.

Nomeadamente a necessidade de conduzir determinados exames de diagnóstico cujos resultados podem ser alterados pela fitoterapia ou acupuntura.

São casos raros na medida que acontecem em situações clinicas muito graves e/ou com pacientes com um historial longo de acompanhamento em acupuntura.

Na maioria das vezes com sintomas graves pelo que o paciente não vai descurar os exames, mas efetivamente é algo a que se deve ter atenção.

Já aconteceu algumas vezes médicos pedirem aos meus pacientes para pararem com os tratamentos temporariamente para fazerem um determinado exame.

Pode ser que a acupuntura até nem tenha influencia, mas uma vez que não sabemos deve jogar-se pelo seguro, e depois de realizados os exames os pacientes retornam ao tratamento.

Estimular o contato entre profissionais

Outro aspeto importante em falar com o seu médico sobre outros tratamentos está no facto que isso pode originar novos contatos profissionais.

Já me aconteceu no passado receber doentes provenientes de médicos que eu nunca conheci porque tinha tratado com sucesso alguns dos seus doentes.

No caso da paciente com paralisia facial que não queria ofender o seu fisioterapeuta poderia ser relevante saber que os resultados dos seus tratamentos foram potencializados pela acupuntura.

Futuramente isto poderia ajudar alguns dos seus doentes e não colocaria em causa o seu trabalho ou a dedicação que entrega a cada um dos seus pacientes.

Reformas na medicina da perspetiva de um não médico

Abordagem mais humana

Recentemente um paciente consultou a médica de família para lhe pedir umas análises que uma nutricionista tinha prescrito.

Explicou que se ela passasse essas análises ficariam muito mais baratas e como eram úteis para um check up dos recentemente adquiridos 50 anos não deveria ter nenhum problema legal ou moral em prescrever essas análises.

A ousadia de uma nutricionista a prescrever exames e um doente a pedir exames desses à sua médica.

Entre o constante desconforto, ao discurso paternalista até à ofensa pública de estar prescrever exames que não foram pensados por ela, não houve um único momento de criação de empatia entre médico e doente.

Entre aptidões cognitivas e sociais

É uma constante ter doentes a referirem uma incapacidade grande de se sentirem ouvidos ou compreendidos pelo seu médico.

As aptidões sociais e emocionais de imensos médicos são claramente insuficientes para o exercício da profissão.

A seleção pelas universidades de alunos com claras capacidades cognitivas muito evoluídas e completo desprezo pelas suas capacidades emocionais e sociais é responsável por parte deste cenário.

Outros fatores na perspetiva médica

Outros fatores contribuem para que o médico sinta dificuldades acrescidas em criar uma relação empática com o doente.

As Dras. Silvia Camões e Ana Ramos, internas da formação Específica de Medicina Geral e Familiar abordaram muitos destes fatores ao referirem

“a relação de confiança pretendida e idealizada é difícil, com inúmeras dificuldades no seu estabelecimento… os alicerces estão a desvanecer, muitas instalações estão a deteriorar-se e os profissionais de saúde estão cada vez mais desmotivados… elevado número de pacientes inscritos em cada lista médica, agudizado pela falta de condições das instalações e por uma pressão crescente para que os médicos efetuem as consultas em menos tempo, torna-se muito difícil estabelecer a tal relação de confiança mútua.”(1)

Sem querer tirar valor aos fatores referidos pelas médicas internas e com os quais concordo nunca vejo nestes artigos nenhuma auto-crítica à forma de estar e pensar a medicina.

A culpa é sempre dos outros: dos burocratas, da tecnologia, dos políticas, das guidelines de trabalho, etc…

No entanto, a minha experiência como profissional de saúde que já trabalhou de perto com muitos médicos e que recebe pacientes em prática clinica privada, a ideia com que fico é que este fator é de extrema relevância.

Creio que a mentalidade dos médicos neste aspeto está a mudar pois os médicos mais novos costumam ser mais acessíveis.

A forma como essa mentalidade nova se vai adaptar ao status quo cultural existente ou como vai mudar esse status quo só poderá ser respondido no futuro.

Menos doenças e mais doentes

A categorização das doenças é importante, a definição de protocolos de intervenção junto dessas doenças também, mas enquanto a medicina se resumir a isto ela está a limitar a sua eficácia.

Este é um problema que afeta a comunicação entre profissões de saúde e afeta a capacidade de dialogar com médicos tanto numa perspetiva profissional como pessoal.

Porque quanto mais categorizamos doenças menos capacidade temos para ver todas as particularidades do paciente que podem influenciar o nosso diagnóstico ou a forma como deve ser entregue a terapêutica.

Pensar num longo prazo multidimensional

Muitas das estratégias médicas são pensadas para o imediato sendo que no longo prazo se tornam contrapruducentes.

Parece que de alguma forma a estratégia das farmacêuticas de manterem os doentes doentes, conseguiu passar para a prática médica sem ninguém se aperceber.

A forma como muitos médicos se vêm na sociedade, como pensam o seu trabalho, e a dependência da indústria farmacêutica parecem ser os principais responsáveis por este estado de situação.

Entre a dor e o excesso de peso

Alguns exemplos são flagrantes e já foram abordados:

Pacientes com dor nos joelhos por artrite reumatóide são tratadas com corticosteróides.

A dor alivia temporariamente, mas juntamente com esse alívio vem mais 30 ou 40 kilos de peso.

Qual o impacto de mais 30 ou 40 kilos de peso nos joelhos de uma paciente com artrite reumatóide?

Esse peso perde-se facilmente?

Que consequência terá o aumento desse peso com o avançar da idade no alívio dos sintomas de uma doença degenerativa?

Existe uma versão em que a cortisona foi essencial para salvar aquela vida ou aliviar o sofrimento e determinado doente mas também existe a versão que a cortisona acabou por complicar mais do que tratar.

A nossa incapacidade de pensar no longo prazo ou nas diferentes dimensões da existência humana e de centrar os tratamentos no paciente tornam difícil definir estas fronteiras.

Quantos anti-inflamatórios são prescritos sem necessidade?

Os anti-inflamatórios produzem efeitos secundários graves, maioritariamente no estômago. Ou seja é preciso prescrever outro medicamento (omeprazol) para diminuir os efeitos secundários dos anti-inflamatórios no estômago.

Mas o omeprazol tomado em longa duração provoca demência de acordo com alguns estudos. And so on…

Quantos doentes tomam anti-inflamatórios no longo prazo para tratar dores que são de origem estrutural?

Terá lógica usar uma abordagem bio-química (anti-inflamatório) de curto prazo em detrimento de uma abordagem estrutural (mistura de fisiologia de exercício, osteopatia, acupuntura, fisioterapia) de longo prazo?

E como dialogar com os médicos a necessidade deste tipo de reformas sem ofender o seu status histórico ou a sua identidade médica?

A arrogância histórica

Outro dos pontos que se observa a necessidade de uma reforma na medicina tem a ver com a forma como os médicos comunicam, ou não, com outras profissões.

Histórica e atualmente a medicina é a profissão de saúde reinante.

Profissões como enfermagem ou fisioterapia surgem da necessidade de haver alguêm que consiga acompanhar o médico ou substitui-lo em funções que este não deseja fazer.

Sem dúvida, muitos técnicos de saúde tem funções que foram relegadas para segundo plano pelos médicos, especialmente funções associadas à proximidade com o paciente.

No entanto, atualmente, surgem uma série de profissões novas que são autónomas e outras mais antigas que buscam uma autonomia maior:

1 – Os fisioterapeutas já podem ter um consultório próprio sem um médico como responsável clínico;

2 – Os enfermeiros tem ganho alguma autonomia com avaliação própria e ganho de novas aquisições;

3 – Os osteopatas e acupuntores são uma profissão recente com autonomia garantida pela Lei.

No ensino, muitos cursos politécnicos desenvolveram-se tanto que começaram a lutar por maior autonomia, a fazer mestrados e doutoramentos e a conseguir desenvolver investigação científica.

No entanto a resposta da comunidade médica não tem sido de procurar adaptar-se a esta situação mas sim de tentar manter os previlégios do passado.

Em vez de tentar dialogar de forma construtiva com estas profissões de saúde tenta impôr o seu ponto de vista pelo poder social e institucional da sua classe.

O Ato de Saúde

A recente polémica com o ato de saúde é disso um exemplo claro.

Apesar de ter sido aprovado pelas Ordens de Saúde foi rejeitado pela Conselho Nacional da Ordem dos Médicos,

“por não referenciar, por exemplo, que a coordenação de equipas multidisciplinares deve competir aos médicos…”(2)

sendo ainda afirmado que

“Esta lei tem que servir para proteger os doentes de usurpação de funções, publicidade enganosa, más práticas, etc.” …

“…para separar a atividade de profissões autorreguladas das que são reguladas diretamente pelo Estado e de “terapêuticas” que não tem validade científica como as TNC …

…tendo este órgão colegial da Ordem dos Médicos, numa votação histórica, aprovado uma moção de “apoio ao Conselho Nacional na defesa intransigente do Ato em Saúde em respeito pela clarificação dos atos próprios de cada profissão e pela coordenação médica das equipas multidisciplinares””(2).

Por um lado existe a necessidade de tentar defender as competências médicas da intrusão cada vez mais evidente de outras áreas e por outro existe um alheamento completo às novas dinâmicas sociais e a tentativa de manutenção de um status quo que permite ter poder sobre todas as outras profissões e definir as ações e limitações técnicas das outras profissões.

Estes desafios sentidos pela classe profissional condicionam a nossa capacidade de dialogar com médicos.

Conclusão sobre desafios ao dialogar com médicos

Os médicos são os herdeiros culturais e profissionais de Hipócrates, Vesalius, John Snow e Claude Bernard.

Isso granjeou-lhes uma respeitabilidade social que muitas profissões procuram imitar. Ao mesmo tempo esse estatuto social implicou uma relação histórica de domínio sobre o tratamento do paciente e outras profissões de saúde.

Na sociedade atual tudo está a mudar e isso afeta a forma de dialogar com médicos e o próprio dialogar dos médicos.

O médico tem um estatuto único mas profissões antes sobre o seu domínio começam agora a ganhar mais autonomia.

Ao mesmo tempo outras profissões, com ou sem o prestígio cientifico da medicina, garantem uma maior oferta terapêutica fazendo com que o médico, muitas vezes, tenha de aceitar tratamentos que não gosta ou competir com os mesmos.

Isto representa um desafio grande ao dialogar com os médicos. Afeta a relação entre médicos e outros profissionais que trabalham sobre a sua tutela, afeta o diálogo entre médicos e doentes e entre médicos e novas profissões liberais de saúde.

Muitas mudanças são boas e outras más. Independentemente do tipo de mudanças uma coisa é certa: a medicina precisa mudar e está a mudar.

Essa mudança vai ter implicações na forma de pensar dos médicos e alterar o diálogo que se forma com outros profissionais de saúde.

Essa alteração de paradigma já é visível dentro da medicina e na forma de relacionamento com outros profissionais de saúde.

No tratamento do cancro, drogas agnósticas começam a ser faladas, os médicos começam a referir parcerias entre valências médicas (imuno-alergologia com oncologia por exemplo).

A acupuntura é cada vez mais aceite por diferentes organizações médicas apesar destas não aceitarem as premisas esotéricas seguidas por muitos acupunturistas.

Há cada vez mais investigadores que estão a questionar velhos paradigmas e a adaptá-los. A controvérsia de NICE pegou muito nesse problema.

É altura de mudar mas também é altura de compreender as forças históricas e científicas que ajudam a modelar as nossas crenças e comportamentos.

Não pretendo com este artigo dizer que os médicos são os únicos que precisam de mudar ou que são os que tem mais dificuldade em mudar.

Pelo contrário, a história, a investigação científica constante mostram que essa mudança é inerente à evolução do conhecimento médico.

Por último, não gostava que este artigo fosse usado como fonte de críticas de meios esotéricos contra o pensamento médico e científico.

Em última instância, dialogar com médicos deverá ser sempre feito com base em conhecimento científico e não imaginação esotérica.

Eles não aceitarão a ausência de fundamentação lógica e científica e nunca o deverão fazer.

Mesmo discordando acerca da forma como fazemos ou olhamos determinados princípios científicos ou argumentação lógica nenhum diálogo sobre saúde deve ser iniciado na ausência dos mesmos.

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