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Enfermagem na acupuntura

Muita da discussão sobre o uso de acupuntura por outras profissões de saúde centra-se nos fisioterapeutas mas ninguém fala nos cursos e especializações de acupuntura para enfermeiros.

Muitos acupuntores gritam contra cursos de acupuntura para fisioterapeutas mas esquecem-se de referir pós-graduações de acupuntura para enfermeiros que são bem mais antigos (lembram-se de Évora?).

Quase não se fala do interesse da enfermagem na acupuntura. Porque será que o enfermeiro pode fazer acupuntura sem ser percepcionado como risco para os acupuntores?

Qual a razão desta dualidade de critérios entre fisioterapeutas e enfermeiros?

Pode ser pela percepção inicial de ameaça que as diferentes profissões provocam?

Ou uma forma fácil de definir bodes expiatórios sempre úteis nas guerras de capelinhas dos acupuntores?

Neste artigo vamos abordar 4 profissões: enfermagem, fisioterapia, osteopatia e acupuntura.

Eu estudei enfermagem, dei aulas a imensos fisioterapeutas, tenho um diploma em medicina chinesa, faço acupuntura há quase 20 anos e também tenho diploma em osteopatia.

Gosto de todas as profissões e as linhas que se seguem devem-se a investigação bibliográfica e à minha experiência profissional com todas estas áreas.

O que não significa que o leitor vá apreciar a conclusão ou considerá-la consensual.

Este foi um artigo difícil de escrever com muitos pormenores que ficam de fora.

Certamente, muitos enfermeiros de reabilitação ou fisioterapeutas poderão não concordar com tudo o que é escrito. De qualquer forma espero pelos vossos comentários e aprender com a vossa experiência.

Muitos acupuntores poderão não concordar com as minhas conclusões.

Sem dúvida que a minha capacidade de tentar prever o futuro carece das mesmas deficiências que toda a gente.

2 cabeças pensam melhor que uma e certamente a vossa experiência poderá ajudar a ver outros cenários possíveis.

crenças inúteis na acupuntura moderna

Diferença entre enfermeiros e fisioterapeutas

Tanto a fisioterapia como a enfermagem surgiram como disciplinas de saúde dependentes da atividade médica e sujeitas a um método de trabalho médico-prescritivo.

O médico faz o diagnóstico e a prescrição enquanto o enfermeiro/fisioterapeuta cumpre a prescrição.

Nenhuma destas profissões nasceu de forma independente com um paradigma próprio tal como aconteceu com outras profissões das TNC (independentemente da sua validade cientifica).

Com o tempo ambas estas 2 profissões cresceram a ponto de desejarem a sua própria autonomia e emancipação sócio-profissional.

E as duas clamam ter desenvolvido métodos de avaliação próprios e independentes. É comum falar-se na autonomia dos enfermeiros ou dos fisioterapeutas.

A vantagem formativa dos fisioterapeutas

No entanto, na prática, só a fisioterapia realmente conseguiu começar a desenvolver um paradigma que lhe permite uma autonomia profissional diferenciada.

Efetivamente os enfermeiros estão mais dependentes de um trabalho de natureza prescritiva do que os fisioterapeutas cuja base neuro-músculo-esquelética permite uma abordagem mais postural do paciente.

Esta abordagem ajuda a criar conexões com outra profissão cuja análise posturológica e biomecânica é essencial e mais desenvolvida: a osteopatia.(4)

Este paradigma dá vantagem autonómica e técnica ao fisioterapeuta enquanto profissional liberal.

Permite-lhe separar-se da sua origem dependente do trabalho médico e definir uma identidade independente do pensamento médico.

Isto cria 2 dinâmicas sociais diferentes que são facilmente perceptiveis:

Em primeiro lugar, existem muitos mais cursos de osteopatia para fisioterapeutas do que para enfermeiros e os fisioterapeutas são profissionais liberais muito mais bem sucedidos que os enfermeiros.

Em segundo lugar, é mais fácil para os fisioterapeutas adaptarem-se ao pensamento osteopático (cujo pensamento biomecânico e postural já partilham) e à acupuntura contemporânea ou moderna (que facilmente se integra com técnicas manuais).

Finalmente, os fisioterapeutas facilmente desenvolvem ou adotam técnicas de acupuntura perfeitamente adequadas a um modelo biomecânico e neurofisiológico não dependente do modelo de trabalho médico.

As várias técnicas de acupuntura usada pela fisioterapia invasiva (que alguns fisioterapeutas dizem agora já não ser acupuntura) são um exemplo sem igual na área da enfermagem.

enfermagem na acupuntura para enfermeirosFoto de Pixabay no Pexels

Dinâmica da distribuição social de poder

A consequência social na distribuição de poder é a tentativa de domínio em diferentes ambientes de trabalho.

No modelo médico-prescritivo (grandes hospitais, centros de reabilitação, centros de saúde) os enfermeiros vão tentar dominar a acupuntura ocupando o máximo de funções e lugares disponíveis no SNS.

Num modelo mais independente os fisioterapeutas vão fazer pressão continuada sobre a osteopatia e a acupuntura tentando beneficiar simultaneamente dos laços históricos à classe médica.

Percepção de risco dos acupuntores

Isto cria uma sensação de ameaça imediata a muitos acupuntores que não surge com os enfermeiros.

Os acupuntores não se sentem ameaçados por fisioterapeutas que fazem ultra-sons e calores húmidos prescritos por médicos.

Sentem-se ameaçados por fisioterapeutas cujo sucesso depende de outras técnicas como osteopatia e acupuntura (mesmo que os próprios não admitam) e competem com eles como profissionais liberais.

Mas no futuro, mesmo com a regulamentação, os acupuntores que sonham com o SNS tem de pensar que vão ter de ocupar espaço social que os enfermeiros podem desejar… e eles tem uma Ordem que não vai gostar nada!

O poder social dos enfermeiros

A seguir aos médicos, os enfermeiros são provavelmente a profissão de saúde com mais poder social em Portugal.

Ao mesmo tempo que procuram ganhar mais poder e independência face aos médicos tentam controlar o crescimento de outras profissões de saúde.

No Reino Unido os técnicos de diagnóstico fazem cursos de canulação e são responsáveis pela aplicação de todas as técnicas dentro da sua área de saber.

Em Portugal, alguns serviços tinham (não sei como está a situação atualmente) enfermeiros a fazer canulação sendo que aos técnicos, algumas técnicas necessárias para o cumprimento da sua função eram vedadas.

E ao longo dos anos, os enfermeiros, ao mesmo tempo que lutavam para ter mais poder tentaram impedir outras classes de crescer.

Da luta para terem uma Ordem própria até à oposição à Ordem dos Fisioterapeutas (1) são alguns anos de amnésia histórica.

As lutas entre os fisioterapeutas e enfermeiros de reabilitação volta e meia ativa-se qual vulcão adormecido (2).

Sob a perspetiva de muitos enfermeiros são os fisioterapeutas que tem invadido a área e de acordo com outros existem alguns choques que são normais mas não impossibilitam o trabalho conjunto (3), (4).

Por um lado os enfermeiros não tem capacidade para se tornarem profissionais liberais, autónomos, com identidade própria, de forma a competirem com os fisioterapeutas.

Mas por outro lado possuem força social suficiente para tentarem dominar a arena no modelo médico-prescritivo.

Ao mesmo tempo que procuram maior autonomia relativamente aos médicos irão procurar impedir o crescimento de outras profissões.

preços da sessão de acupuntura

Acupuntura para enfermeiros?

Muitos acupuntores criticam a abordagem invasiva da fisioterapia mas esquecem-se dos enfermeiros e do seu interesse em acupuntura enquanto técnica não farmacológica.

Alguns colegas em privado outros em discussões mais públicas referem que não existe problema porque se fala em trabalho conjunto e não invasão de competências.

Segundo esses colegas, os fisioterapeutas invadem as nossas competências enquanto os enfermeiros trabalham em conjunto mas isto pode não ser totalmente verdadeiro.

Em primeiro lugar existem cursos de acupuntura para enfermeiros tal como para os fisioterapeutas (5), (6), (7), (8), (9), (10), (11).

Existem “cursos de acupuntura para enfermeiros”, “pós-graduações de acupuntura para enfermeiros” e “especialização de acupuntura para enfermeiros”.

Em segundo lugar, a acupuntura já aparece em teses de Mestrado de Enfermeiros, como medida analgésica não farmacológica acessível aos mesmos (12).

E o que diz a Ordem dos Enfermeiros sobre o uso de acupuntura?

Pareceres oficiais da Ordem dos Enfermeiros

O parecer CJ 113/2012 surge na sequência de pedido de um enfermeiro para a Ordem dos Enfermeiros reconhecer a formação feita em “Acupuntura e Fitoterapia Tradicional Chinesa” relativamente a um mal entendido sobre a proposta de lei das TNC.

A Ordem refere na conclusão:

1 – “Face ao exposto, o pedido solicitado pelo membro para reconhecimento das formações elencadas anteriormente não se insere no âmbito das atribuições da Ordem dos Enfermeiros.”

2 – “O enfermeiro com competências nas abordagens terapêuticas não farmacológicas pode inclui-las no planeamento dos cuidados de enfermagem, desde que a sua utilização traga ganhos para o cliente e este as tenha consentido, não podendo contudo intitular-se com outro título profissional que não o de enfermeiro.”

3 – “Sempre que o enfermeiro for detentor de competências nestas áreas e se integrar estas técnicas nos cuidados de enfermagem que presta, apresentando-se como enfermeiro, não se identifica incompatibilidade de aplicação das mesmas.”(13)

No entanto o parecer do Conselho de Enfermagem 83/2018 (6 anos depois) parece ter mudado de direção e ter aceite a lei já estabelecida. Neste conselho falam em partilha de funções (14). Referem:

1 – “Nos termos do disposto no artigo 98º, do Estauto da ordem dos Enfermeiros, o exercício de acupunctor, não configura incompatibilidade ou impedimento com o exercício da profissão de enfermeiro.”

2 – “O enfermeiro poderá realizar atividades no âmbito da acupuntura, mas, num outro contexto de cuidados, que não o de exercício da profissão de enfermeiro.”

3 – “A utilização das terapêuticas não convencionais, não integram a construção de resposta em cuidados de enfermagem, ou seja, não são intervenções de enfermagem.”(14)

Este último parágrafo parece ser um ponto final no receio dos acupuntores.

Caracterização profissional da acupuntura

Contudo, caso o leitor deseje fazer uma investigação mais aprofundada aconselho a leitura do último parecer referido. (14). Alguns pontos relevantes desse parecer são:

1 – O enfermeiro tem autonomia para escolha das estratégias a usar nos cuidados de enfermagem.

2 – O enfermeiro atua num contexto multi-profissional onde existem 2 tipos de intervenções de enfermagem: intervenções interdependentes que são da implementação técnica do enfermeiro ou iniciadas pela prescrição do enfermeiro.

3 – Defende o trabalho em articulação e complementação com outros profissionais defendendo que a execução de determinados procedimentos deverá ser “efetuada pelo profissional que melhor estiver preparado para intervir”(14)

4 – O parecer chama a atenção para 2 pontos: a portaria que fixou a caracterização e o conteúdo funcional da profissão de acupuntor e, logo a seguir, no primeiro ponto da conclusão refere:

“No âmbito das intervenções de enfermagem, não se pretende definir detalhadamente o que fazer e o que não fazer, reduzindo a acção dos enfermeiros a um conjunto de actividades e tarefas, antes sim, considerar uma intervenção assente na aplicação efectiva do conhecimento, evidências científicas e capacidades, indispensáveis no processo de tomada de decisão em enfermagem”(14).

O problema é que o conteúdo funcional da profissão de acupuntor é exatamente aquilo que a enfermagem nunca pretendeu “definir detalhadamente”.

Podem comparar os conteúdos funcionais destas 2 profissões (15), (16).

Logo no início do da caracterização do conteúdo funcional da profissão de acupuntor é referido:

1 – “A acupuntura é a terapêutica que utiliza métodos de diagnóstico, prescrição e tratamentos próprios assentes em axiomas e teorias da acupuntura, utilizando a rede dos meridianos, pontos de acupuntura e zonas reflexológicas do organismo humano, com o fim de prevenir e tratar as desarmonias energéticas, físicas e psíquicas.”

2 – “Assenta numa filosofia e metodologia específicas baseadas na medicina tradicional chinesa”

Ou seja, em vez de definirmos uma profissão de forma vaga e assentarmos os princípios dessa profissão com base nos instrumentos de trabalho, reduzimos a profissão a um conjunto de tarefas e limitámos a mesma a uma abordagem tradicionalista e esotérica.

O enfermeiro pode fazer acupuntura. Só não pode é dizer que é acupuntor ou que trata síndromes energéticos ou qualquer coisa que lhe valha.

A Ordem dos enfermeiros deixou bem claro que não quer confrontos legais mas também que não tem qualquer problema em permitir aos enfermeiros ganhar mais autonomia ou usar as estratégias que estes achem mais corretas.

Enfermagem e acupuntura combinam a 100% nos desejos da Ordem.

Técnicas de osteopatia IMG

Uma ameaça futura

Como se mostrou na primeira parte do artigo, os enfermeiros procuram aumentar a sua autonomia sem se desvincular do modelo médico-prescritivo que deu origem à profissão (ao contrário dos fisioterapeutas).

Isto significa que os enfermeiros não tem grande capacidade de competir como profissionais liberais (não implica que não possam vir a faze-lo no futuro).

No entanto, a história recente mostra que tem tentado ganhar cada vez mais terreno num modelo não-liberal médico-prescritivo.

Na prática significa que o seu campo de batalha será a inserção de acupuntores no SNS e não a situação atual em que nos encontramos.

O problema futuro dos enfermeiros será como conciliar a sua autonomia num contexto médico-prescritivo com técnicas de acupuntura que não se enquadrem no conteúdo funcional do acupuntor.

A acupuntura chinesa, através dos protocolos criados, é a que se adequa melhor ao modelo médico-prescritivo mas também é aquela que está mais defendida pela lei.

Este choque criado pelos interesses de classes em determinados modelos de trabalho usando ferramentas clinicas sem especificidade profissional ou modelar vai criar muitos choques futuros.

Pensamentos finais sobre acupuntura para enfermeiros

Os fisioterapeutas e enfermeiros tiveram origem no mesmo modelo médico-prescritivo.

Mas os fisioterapeutas estão a conseguir, efetivamente, separar-se desse modelo sendo que isso tem 2 consequências.

Em primeiro lugar os fisioterapeutas conseguem competir como profissionais liberais.

Em segundo lugar os enfermeiros tentam ganhar mais poder no SNS.

Isto parece refletir o mapa de conflitos inter-profissionais que se vão manifestar no futuro.

Os acupuntores trabalham somente como profissionais liberais, logo percebem os fisioterapeutas como ameaça imediata e não os enfermeiros.

Qualquer choque entre a Enfermagem e Acupuntura surgirá quando se equacionar seriamente a inserção desta técnica no SNS por acupuntores não médicos.

Os médicos vão querer uma fatia do bolo, os enfermeiros são os que se adequam melhor ao modelo de trabalho médico-prescritivo e nenhuma destas profissões vai aceitar tratamentos “energéticos” só porque estão legalizados (são claramente contra o modelo cientifico destas profissões de saúde).

Os enfermeiros se por um lado se consideram os responsáveis pela implementação de técnicas médicas, também tem autonomia para implementar as suas técnicas ou adoptar técnicas novas.

Pela natureza tradicionalista e esotérica da lei que regulamenta a acupuntura, pela incompatibilidade de valores cientificos com a medicina ocidental, pela forte ligação histórico profissional entre Enfermagem e Medicina e pelo crescimento da Enfermagem (e merecido) num modelo médico-prescritivo os acupuntores dificilmente serão, alguma vez, inseridos no SNS.

O único futuro dos acupuntores (pelo menos nas condições atuais) estará na sua capacidade de competir como profissionais liberais.

Isto significa excelente formação científica e técnica, excelentes conhecimentos de marketing e de gestão.

É nestas 3 áreas que os fisioterapeutas estão a investir, e muito corretamente.

Fontes importantes para escrever este artigo sobre acupuntura para enfermeiros

(1) https://www.ordemenfermeiros.pt/media/5343/sai-oe-2018-2972.pdf
(2) https://www.publico.pt/2018/06/19/p3/cronica/fisioterapia-e-enfermagem-de-reabilitacao-a-ultima-palavra-1835114#gs.LUvVtzC7
(3) https://doutorenfermeiro.blogspot.com/2010/02/enfermeiros-de-reabilitacaofisioterapeu.html
(4) https://expresso.pt/opiniaoeblogues/correio/cartas/enfermagem-de-reabilitacao-e-fisioterapia-percecao-de-uma-ameaca=f773168#gs.DWuRdpxB
(5) https://www.bwizer.com/pt/formacoes/eletropuntura_nov_2019_-_porto-10010_029.html
(6) https://www.forumenfermagem.org/newsletter/201304-news-FE-BW-acupuntura.htm
(7) https://www.educaedu.com.pt/acupuntura-para-enfermeiros-2-edicao-dor-e-patologias-musculo-esqueleticas-cursos-31923.html
(8) https://evk.foramplus.com/geral/detalheeventos.aspx?cod=7
(9) https://www.esenfcvpoa.eu/wp-content/uploads/2016/02/fichatecnica_pgacup.pdf
(10) https://www.cespu.pt/pos-graduacoes/pos-graduacoes/2017/pos-graduacao-em-acupunctura-integrativa-1-edicao/
(11) https://www.ipleiria.pt/cursos/course/pos-graduacao-em-ciencias-aplicadas-a-acupuntura/
(12) https://comum.rcaap.pt/bitstream/10400.26/15870/1/RELAT%C3%93RIO_T%C3%82NIA_NOBRE.pdf
(13) https://www.ordemenfermeiros.pt/arquivo/documentos/CJ_Documentos/CJ_Parecer_113_2012_Acupuntura_e_Fitoterapia.pdf
(14) https://www.ordemenfermeiros.pt/media/4805/ce_parecer83_05022018_acupunturaenfermeiros.pdf
(15) https://dre.pt/web/guest/pesquisa/-/search/58217873/details/maximized
(16) https://dre.pt/pesquisa/-/search/490413/details/maximized

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