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david Marçal cientista Luis ribeiro visão

Analfabetismo critico e superficialidade jornalística

Em 2018, o jornalista Luis Ribeiro, publicou na revista Visão, um artigo crítico sobre as terapêuticas Não Convencionais, fundamentado num estudo científico onde se conclui-a que pacientes de foro oncológico que recorrem a “terapias complementares” tem duas vezes mais probabilidade de morrer.

O aumento de probabilidade de morrer não se deve às técnicas dessas terapias mas ao facto de existirem pacientes que recusam os tratamentos médicos convencionais como quimioterapia, radioterapia, terapia hormonal e cirurgia.

O estudo cientifico também mostrava que os pacientes que faziam os tratamentos convencionais e os tratamentos “alternativos” não tinham aumento de esperança média de vida.

O jornalista da Visão conclui que os “tratamentos alternativos” parecem ser seguros mas são inúteis e podem levar os doentes a fazerem escolhas erradas relativamente aos cuidados de saúde convencionais. Escolhas essas que são mortais.

Ao ler o artigo o sentimento final que fica é: “se tiver cancro vou fugir destes inúteis alternativos”.

Este artigo é a resposta de um dos muitos inúteis alternativos que já atenderam pacientes oncológicos no seu gabinete.

O estudo de Yale

O objetivo do estudo consiste em analisar a relação entre o uso de terapias complementares e a adesão a tratamentos oncológicos e sobrevivência comparando com grupos que não usam medicinas complementares.

Apresenta alguns problemas:

Duas questões mal colocadas

Em primeiro lugar a questão inicial do estudo acaba por ser mal intencionada porque se divide em 2 partes completamente distintas:

1 – uma claramente sociológica, que não desenvolve, acerca das preferências terapêuticas de pacientes que recorrem a “tipos” de terapias;

2 – e outra clinica acerca do valor destas terapias na sobrevida do paciente.

Esta última é completamente inútil pois é dificil analisar o que quer que seja com a misturada de terapias “alternativas” mencionadas e foca-se unicamente num ponto: o aumento de tempo de vida.

Muitas terapias são úteis para pacientes oncológicos não porque aumentam o tempo de vida mas porque melhoram a qualidade de vida.

Algo admitido no estudo relativamente à acupuntura mas convenientemente omitido pelo jornalista da Visão!

Ou seja qualquer resultado que seja relativamente a esta última questão é completamente inútil e sem qualquer valor.

Uma definição de terapias inválida e pouco objetiva

Em segundo lugar o estudo usa uma definição de terapias complementares e medicinas alternativas que é altamente questionável.

De acordo com os autores, terapias alternativas são métodos não provados e usados em substituição dos tratamentos convencionais e as terapias complementares que são tratamentos não comprovados cientificamente mas usados em conjunto com tratamentos convencionais.

O que faz com que a diferença entre “alternativo” ou “complementar” seja a aceitação do paciente em fazer tratamentos convencionais e não a técnica terapêutica em si.

A própria definição de medicina complementar é dúbia.

Os autores definem como “Other-Unproven: Cancer treatments administered by nonmedical personnel”.

E se for feita por “medical personnel”?

Os autores do estudo usam uma definição de tratamentos que é sectária e não baseada em estudos científicos ou na técnica em si.

A homeopatia deixa de ser terapia complementars e feita por um médico?

Assim sendo e, nunca feita esta divisão, como podemos levar a sério as questões levantadas no estudo?

Mais confusão de conceitos

Em terceiro lugar referem que as terapias alternativas/complementares não tem sustentação científica mas a seguir usam uma misturada de terapias, algumas com evidências científicas e outras sem.

Uma vez que não definem o que se quer tratar com estas terapias fica difícil também definir o que é “alternativo” ou não.

Por exemplo, a acupuntura para queda de cabelo por quimioterapia seria um tratamento “alternativo/complementar” mas para vómitos pós-quimioterapia já não seria.

Uma miscelânea de terapias, crenças e hábitos

Em quarto lugar, além do estudo não usar uma definição do que deve ser complementar ou alternativo, mistura todo o tipo de terapias não convencionais, profissões de saúde idóneas, crenças religiosas, etc…

Dentre as várias terapias complementares/alternativas (depende do paciente) encontra-se a acupuntura, homeopatia, osteopatia, orações, yoga, exercícios de respiração, vitaminas, probióticos, medicina chinesa, medicina ayurvédica, dietas, técnicas de relaxamento, qi gong, etc…

Dificilmente vamos conseguir conjugar a osteopatia e o que os osteopatas pensam com o que pensam grupos de oração da Carolina do Sul!

Para os autores do estudo, e para o jornalista Luis Ribeiro, a osteopatia e as curas milagrosas dos Maná são a mesma coisa pois não há diferenças entre técnicas de mobilidade articular ou abençoar alguêm com água sagrada do rio Jordão.

O estudo não diferencia o trabalho de profissões de saúde cientificamente e socialmente reconhecidas como a nutrição e dietética do marketing de alguns produtos naturais e “milagrosos”!

Sim, os probióticos e as vitaminas foram classificados como “terapias complementares/alternativas” e o jornalista da Visão, Luis Ribeiro, parece concordar.

A análise sociológica

Finalmente temos a análise sociológica cujos dados adquiridos parecem interessantes.

Os autores conseguiram captar bem o tipo de pessoas que recorrem mais a terapias complementares:

1 – estratos socio-económicos mais altos;

2 – pacientes do sexo feminino;

3 – faixa etária mais nova;

4 – maiores níveis de educação escolar.

No entanto, nunca souberam discutir ou aprofundar (claramente por falta de dados) as razões sociológicas ou o efeito de causalidade existente.

Enviesamentos relevantes

Um enviesamento que pode ser importante no estudo está relacionado com a subvalorização de pacientes que recorreram a terapias “alternativas/complementares” devido à relutância em comunicar que fazem estes tratamentos.

O mais provável é que os pacientes mais seguros das suas escolhas e com tendências culturais anti-científicas mais fortes sintam mais confiança em recusar tratamentos médicos e assumir e procurar publicamente o uso doutro tipo de terapias.

Também existe maior probabilidade dos médicos relatarem casos de uso destas terapias quando os doentes recusam tratamento do que quando não recusam o que pode enviesar os resultados.

Estes 2 pontos são importantes para compreender um enviesamento de dados que pode ser importante.

Por outro lado os autores do estudo indicam que a acupuntura tem sido usada para melhorar a qualidade de vida dos pacientes com patologia oncológica e que se estima que entre 48% a 88% dos pacientes com cancro recorram a terapias “complementares/alternativas”.

No entanto, numa amostra superior a 1 milhão de doentes encontraram menos de 300 que admitiram recorrer a terapias complementares.

E desta amostra, 0,01% da amostra total (ligeiramente inferior a 48% ou 88%), que provavelmente representam os pacientes com as ideias anti-científicas mais radicais assume-se uma representatividade global de não sei quantas terapias e crenças religiosas!

Entre a experiência profissional e questões de bom senso

Muitos pacientes costumam associar tratamentos convencionais e não convencionais.

Alguns não gostam de informar os seus médicos por medo de críticas ou julgamentos por parte do médico e muitos sentem-se aliviados quando o médico apoia ou aconselha acupuntura ou osteopatia.

Mas ao longo de 15 anos de prática clinica só uma muito pequena minoria recusava tratar-se com médicos. E mesmo essa minoria ia ao médico quando precisava mesmo!

Provavelmente fariam 0,01% dos pacientes.

O comportamento que se observa em 0,01% de uma amostra superior a 1 milhão corresponde ao comportamento da maioria dos pacientes que recorrem à acupuntura ou osteopatia?

O estudo não responde a esta questão.

Fazer inferência em relação a isto depende essencialmente da crença e preconceitos de quem comenta.

Foto de Andrea Piacquadio no Pexels

O artigo do jornalista Luis Ribeiro publicado na Visão

Sociologia meu caro Luis Ribeiro, sociologia

O artigo do jornalista Luis Ribeiro começa com a frase:

“quem se submete a tratamentos alternativos tende a recusar radioterapia e quimioterapia”

Fica muito diferente escrever “amostra sobre crenças médicas dos pacientes com amostra representativa tão baixa que não dá para concluir nada”mas também era mais correto…

O problema está na validade clinica das terapias “alternativas/complementares”, em terapeutas específicos (que partilhem ou não um conjunto de valores pró ou anti-ciência) ou nas crenças/valores pessoais do paciente?

É um problema que surge da clara incompetência e iliteracia científica dos terapeutas alternativos (desde médicos acupuntores a pastores da IURD, etc… é claramente uma classe muito diversificada) ou é um problema sociológico mais complexo que depende das crenças dos pacientes e na relação que algumas franjas da nossa sociedade desenvolvem com crenças anti-cientificas?

Estamos a falar de um processo socio-histórico complexo com clara associações com as lutas vitalistas e mecanicistas do século XVII, e com as lutas de valorização intelectual entre correntes humanistas e artísticas vs científicas.

Uma luta que volta e meia tem os seus holofotes mais acesos como aconteceu com a publicação de Imposturas Intelectuais, com as recentes críticas do The New Yorker aos livros de Steven Pinker, ou num contexto mais nacional, nas criticas de António Manuel Batista a Boaventura Sousa de Santos ou nas trocas de opinião entre pós-modernistas e céticos portugueses acerca das terapêuticas Não Convencionais… o mecaniscismo orgânico contra o vitalismo “energético”, a objetividade científica contra o relativismo cultural.

Sem dúvida que muitas terapias se englobam nestas lutas mas perde-se sempre razão ao usar classificações ditatoriais e simplistas.

Os osteopatas tem boa formação científica, a homeopatia não tem qualquer fundamento científico, dentro da acupuntura existe uma série de correntes desde as mais esotéricas às mais científicas, os probióticos continuam a não ser uma terapia alternativa, etc…

E o valor clinico de uma terapia não está dependente da profissão de quem a pratica.

A homeopatia tem o mesmo valor seja prescrita por médicos ou não médicos.

Diferenciar o valor de uma terapêutica pela profissão de saúde é luta de classes sociais e não uma análise objetiva e científica como se pretende.

Pensamentos a reter de um terapeuta

Tive poucos pacientes que me disseram não vacinarem os seus filhos. A todos eu recomendei que o fizessem e não fez diferença.

Alguns pacientes preferem mudar de terapeuta e encontrar alguêm que partilhe das suas crenças anti-vacinação e outros calam-se.

Mas não me lembro de um paciente que me viesse dizer que deciciu vacinar os filhos por causa de mim. Os pacientes já vem com os seus valores e crenças.

Já tive um paciente que preferiu não tratar-se comigo porque eu não acredito na astrologia.

Inegavelmente alguns pacientes só aceitam ser tratados por terapeutas que partilhem os mesmos conjuntos de crenças.

Trilogia vulgar: reducionismo conveniente, falta de honestidade intelectual e afirmações infundadas

O jornalista Luis Ribeiro apresenta 2 terapêuticas Não Convencionais: a homeopatia e a acupuntura (apesar do estudo ser uma miscelânia incompreensível de terapias e crenças). O estratagema típico dos críticos.

Critica-se a falta de bases científicas da homeopatia e depois deixa-se que o público assuma a generalização para todas as TNC e reduz-se a acupuntura a teoria de meridianos ou pontos de acupuntura.

Este tipo de reducionismo conveniente é vantajoso porque o autor não tem de apresentar uma definição de acupuntura e muito menos justificá-la em termos técnicos.

Também não tem de lidar com as diferenças existentes entre as várias TNC. Como tal, qualquer disparate é suficiente.

Em primeiro lugar assume-se que a fantasia científica homeopática é generalizada o que não é verdade.

Em segundo lugar, reduz-se a acupuntura a meridianos ou energias quando existem formas de pensar a acupuntura que nunca usaram, e não usam, meridianos.

Depois disto parte-se para a critica que estes tratamentos são inúteis. No artigo da Visão está escrito:

“Ou seja, tecnicamente, os métodos alternativos são inócuos, desde que os pacientes sigam à risca as indicações dos médicos encartados. Mas, dado que não fazem aumentar a taxa de sobrevivência, são também inúteis.””

No estudo em que se baseia este artigo está escrito:

“Past research has shown that CM therapies such as massage, acupuncture, yoga, and meditation can improve quality of life.”

Perceberam a manipulação? Para o jornalista o facto da acupuntura não aumentar o tempo de vida de um paciente oncológico indica que é um tratamento inútil.

Mas esquece-se de referir que muitos tratamentos não são para aumentar o tempo de vida mas sim a qualidade de vida.

A acupuntura, por exemplo, tem demonstrado ser útil no alívio de vómitos pós-quimioterapia.

Para o jornalista Luis Ribeiro medicamentos anti-eméticos são inúteis porque não aumentam o tempo de vida do paciente oncológico.

E o que dizer de muitos tratamentos convencionais ou acompanhamento psicológico para doentes terminais?

Quando o estudo diz o que queremos ler publicitamos o estudo, quando diz algo contrário às nossas crenças inventamos e fazemos interpretações criativas.

Conclusão sobre o jornalismo ignorante do jornalista Luis Ribeiro

Luis Ribeiro troca uma análise objetiva, que se pretende no jornalismo, por um título fantástico para ser lido (é o sensacionalismo a disfarçar a falta de conteúdo).

De seguida faz análises superficiais, tendenciosas e afirmações que são infundadas mas convenientes com as suas crenças tal como a sua colega da Sábado Lucilia Galha.

Se o objetivo era divulgar o estudo cientifico, o jornalista Luis Ribeiro, falhou a vários níveis:

1 – falhou completamente na análise social e crítica científica subjacente ao mesmo;

2 – falhou na diferenciação entre terapias complementares ou crenças religiosas;

3 – reduziu a acupuntura à teoria dos meridianos mostrando a mesma superficialidade crítica e ignorância técnica de muitos céticos da moda;

4 – não soube adaptar o estudo ao contexto nacional;

5 – demonstrou falta de honestidade intelectual ao usar exemplos óbvios como a inutilidade da homeopatia e permitir uma generalização injusta (a ignorância científica da homeopatia dificilmente se espelha na biomecânica osteopática);

6 – fez afirmações infundadas desfasadas do próprio objetivo do estudo cientifico.

Entre muitos artigos cientificos, Luis Ribeiro, escolheu aquele cujas conclusões mais lhe agradavam.

Um artigo para o qual é fácil escrever uma resenha superficial e com o qual o jornalista se sentia à vontade para fazer afirmações infundadas acerca de técncias terapêuticas das quais não é fâ.

Apresentou um ponto de vista simplista, sobre uma área complexa, e uma análise superficial para problemas mais profundos e acabou com um artigo claramente negativo que induz os leitores em erro!

Isto é jornalismo made in Visão!

Referências Bibliográficas

https://jamanetwork.com/journals/jamaoncology/fullarticle/2687972

http://visao.sapo.pt/visaosaude/2018-07-20-Doentes-com-cancro-que-usam–tambem–terapias-alternativas-tem-duas-vezes-mais-probabilidade-de-morrer

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