prolapso estômago na acupuntura chinesa

Diagnóstico Tradicional Chinês

TABELA DE CONTEÚDOS

Introdução ao Diagnóstico Tradicional Chinês

Os primeiros padrões clinicos

…É de dia. O Sol corre alto e imponente pelo céu. Com o Sol vem o calor, um calor, por vezes insuportável, por vezes confortável.

Mas obviamente que não é sempre dia. Surge a noite. A noite, mais fria, também tem o seu astro, a lua, que embeleza o céu estrelado.

E, novamente, a noite transforma-se em dia; este começa mais frio, mas na medida em que a luz aumenta e o Sol percorre o seu caminho tende a aquecer, até que se começa a transformar, a diminuir a sua capacidade de aquecer, de iluminar e nasce, novamente, a noite…

Esta observação que os nossos antepassados agricultores chineses faziam e que nós também constatamos é a base para se compreender a natureza cíclica da Teoria Base do pensamento chinês: a teoria Yin/Yang.

Yang caracteriza todas as propriedades associadas ao dia: luz, Sol, calor; enquanto que o termo Yin caracteriza todas as propriedades da noite: escuro, Lua, frio.

Nenhuma destas é boa nem nenhuma é má: na natureza todas são necessárias. E nenhuma é fixa nem se compreende sem a outra: elas existem em função uma da outra, como fases de um mesmo ciclo.

Só quando se manifestam em excesso ou não se manifestam o suficiente se tornam negativas pois não conseguem manter o equilíbrio homeostático.

A razão pela qual não existe tradução para muitos dos termos usados em Medicina Chinesa deve-se ao seu uso com múltiplos significados.

Deste modo Yang significa: Sol, Verão, dia, calor, homem,  e Yin: Lua, Inverno, noite, frio, mulher.

Esta diferenciação básica se adaptada ao mundo exterior (macrocosmos) também explicaria as alterações físicas no Homem (microcosmos) pois estão os dois dentro da mesma realidade, são partes integrantes da mesma natureza.

Esta é a distinção básica usada no diagnóstico tradicional chinês para se diferenciarem sintomas, catalogá-los em padrões clínicos, catalogar plantas fitoterápicas, os alimentos e as funções de alguns pontos de acupunctura.

Sintomas ou sinais clínicos como pulso rápido, face vermelha, sensação de calor, febre, agitação psíquica e física pertencem à categoria Yang.

Outros sinais e sintomas como pulso lento, face pálida, frio generalizado, lentidão, melancolia, falta de força pertencem à categoria Yin.

No primeiro caso está descrito um conjunto de sintomas que indicam um quadro de calor: logo existe pouco frio (Yin) no organismo. Dizemos, então que o paciente sofre de um Vazio de Yin.

No segundo quadro dá-se o oposto: os sintomas são típicos de falta de calor (yang) no organismo. Dizemos, então, que existe um Vazio de Yang.

argumento antiguidade argumentum ad antiquitatem

Outros padrões Clínicos Gerais

Até agora só analisamos poucos sintomas que diferenciam os padrões clínicos baseados na teoria Yin/Yang.

Como veremos para se compreender o diagnóstico tradicional chinês é importante entrar em contacto com mais algumas teorias; mas falemos de sintomas.

Toda a linguagem no diagnóstico tradicional chinês é rica em sintomas e deve-se compreender nessa base.

Os sintomas gerais dizem respeito a sinais ou sintomas clínicos que não se associam a nenhum órgão mas sim a padrões gerais: Vazio de Yang, Vazio de Yin, Plenitude Calor.

Como se deve lembrar do que acima foi dito para o Vazio de Yang existem sintomas como: frio generalizado, astenia, lentidão, face pálida, sudação profusa, edemas, língua pálida e inchada.

O quadro de Vazio de Qi apresenta sintomas semelhantes mas menos severos: suor espontâneo, astenia, face pálida, língua pálida. Estes dois quadros são quadros de deficiência por Frio.

Daqui é fácil compreender que um Vazio de Qi quando agravado se transforme num Vazio de Yang.

O quadro de Vazio de Yin é um quadro de deficiência por calor e caracteriza-se por: suores nocturnos, febre vespertina, boca e garganta seca, urina escura, língua vermelha sem capa, entre outros.

Caso os sintomas de Vazio de Yin sejam mais intensos dizemos que existe um quadro de Plenitude Calor.

O paciente refere:

1 – febre,

2 – erosão da mucosa bucal (os líquidos existem em menor quantidade, logo, não existe só secura),

3 – urina mais escura que no Vazio de Yin,

4 – cara muito vermelha (no Vazio de Yin só as maçãs do rosto se encontram ligeiramente avermelhadas e os resto da face pode encontrar-se pálida)

5 – língua vermelha com capa espessa e amarela (no Vazio de Yin não existe capa amarela ou existe uma capa muito fina).

Existe uma diferença entre estes dois padrões e uma semelhança: a semelhança é que são padrões clínicos com sintomas de calor, a diferença é que o primeiro padrão pertence aos síndromes de deficiência e o segundo aos síndromes de Plenitude.

Apesar de existir esta associação hierárquica de sintomas, o padrão de Vazio de Yin encontra-se mais vezes associado a um padrão de Vazio de Sangue.

A razão para tal deve-se à natureza própria do conceito Yin (líquidos orgânicos). O Sangue sendo um dos líquidos orgânicos vai encontrar-se associado ao Yin Qi. No entanto observam-se algumas variações de sintomas.

Estas alterações devem-se aos conceitos associados à produção de Sangue: apesar de ser um líquido orgânico (característica Yin) a produção de sangue está muito dependente da força do Qi (natureza quente).

Logo é normal em padrões de Vazio de Sangue a mistura de sintomas típicos de Vazio de Yin e de Vazio de Qi.

O Vazio de Sangue apresenta:

Astenia física com agitação psíquica (astenia física está associada à ligação do Sangue com o Qi enquanto que a agitação psíquica se encontra associada à ligação Sangue-Yin),

No Vazio de Yin existe tanto agitação psíquica como agitação física ao contrário do Vazio de Sangue onde só existe agitação psíquica.

É este sintoma que associa o padrão de Vazio de Sangue com o Vazio de Yin. Todos os outros sintomas são diferentes.

No quadro abaixo mostramos os sintomas típicos de alguns padrões clínicos.

QUADRO 2 – ALGUNS PADRÕES CLÍNICOS GERAIS E SINTOMAS CORRESPONDENTES

Vazio de QiVazio de YangVazio de YinVazio de SanguePlenitude Calor
Suor espontâneo
Astenia
Face pálida
Língua pálida
Pulso fino
Suor espontâneo/profuso
Frio generalizado
Astenia/lentidão
Face pálida
Língua pálida e inchada
Pulso fino e lento
Suores nocturnos
Febre vespertina
Agitação física e psíquica
Maçã do rosto vermelha
Boca e garganta secas
Língua vermelha sem capa
Pulso fino e rápido
Astenia com agitação psíquica
Oligomenorreia
Face pálida
Língua pálida
Pulso fino
Febre alta
Urina amarelo escura
Erosão da mucosa bucal
Face vermelha
Língua vermelha com capa amarela
Pulso rápido e cheio

A diferenciação que aqui mostrámos pretende realçar as diferenças entre alguns padrões clínicos gerais.

No entanto, não é suficiente para compreendermos o diagnóstico tradicional chinês na sua totalidade.

No diagnóstico tradicional chinês existem sintomas gerais e sintomas de órgão.

Os sintomas gerais são aqueles que se enquadram nos padrões clínicos gerais como Vazio de Yin, Estase de Sangue, etc… enquanto que os sintomas de órgão denunciam a localização desse padrão clínico. 

Se os primeiros têm a função de descrever a natureza da patologia, os segundos dão-nos a localização dessa mesma patologia.

Assim temos diagnósticos como: Vazio de Yin do Rim, Vazio de Yang do Coração, Humidade-Mucosidade no Baço, Plenitude Calor no Fígado, etc…

Para compreendermos, este segundo aspecto do diagnóstico tradicional chinês é necessário conhecer os sintomas característicos dos órgãos.

Quando os padrões gerais se estudam com os sintomas de órgão

Numa primeira aproximação, associar sintomas a órgãos é bastante fácil.

Quando se refere palpitações toda a gente é capaz de associar o sintoma ao Coração. Quando se menciona dispneia pensa-se no Pulmão.

Nem sempre é assim tão simples. No entanto para as próximas linhas também não vamos precisar de complicar muito mais.

Uma vez compreendidos alguns padrões clínicos podemos pensar em associá-los a sintomas de órgão.

Vamos supor que temos 2 pacientes: paciente YinTang e o paciente TaiYang.

O paciente Yintang apresenta:

1 – gastralgias (dor de estômago),

2 – febre,

3 – erosão da mucosa bucal,

4 – obstipação,

5 – face vermelha,

6 – língua vermelha com capa amarela e pulso cheio e rápido.

Neste paciente é fácil diagnosticar um caso de Plenitude Calor (febre, erosão da mucosa bucal, pulso cheiro e rápido, etc…) do Estômago (gastralgia).

Por seu lado o paciente TaiYang refere:

1 – palpitações,

2 – dispneia,

3 – astenia generalizada,

4 – face pálida,

5 – língua pálida e pulso fino e fraco.

Neste caso temos sintomas de Vazio de Qi (astenia física, pulso fino e fraco, língua e face pálidas), de Pulmão (dispneia) e Coração (palpitações).

Podemos então pressupor a existência de um padrão de Vazio de Qi do Pulmão e Coração.

marcos anatómicos pontos de acupuntura

Como as características dos padrões clínicos se manifestam nos sintomas de órgão

2 passos importantes foram dados para se ter uma ideia geral de como se pode justificar um diagnóstico tradicional chinês.

Sabemos reconhecer alguns sintomas de padrões clínicos gerais e outros tantos de órgão.

Para terminarmos esta fase falta-nos saber como é que as características dos padrões clínicos se manifestam nos sintomas de órgão.

Por esta altura afirmar que um paciente com tosse, expectoração, frio e lentidão física sofre de um Vazio de Yang do Pulmão já não é suficiente.

É importante também sabermos referir que a tosse e a expectoração agravam com frio (seja com aplicações locais de frio seja com tempos frios – daqui a importância da relação dos sintomas com as estações do ano) e melhoram com calor (ou com aplicações locais de calor ou com exposição a tempos quentes).

Neste caso melhorámos o nosso diagnóstico para: tosse, expectoração, frio, lentidão física, agravamento dos sintomas com exposição ao frio, aversão ao frio, melhora com calor – preferência pelo calor.

Agora o quadro começa a ficar bem pintado. Mas ainda falta aprofundar o estudo dos sintomas de órgão. Já que falamos do Pulmão falemos da expectoração.

A expectoração é um sintoma de órgão. Numa primeira análise diz-nos que qualquer que seja o padrão clinico ou a sua causa, o Pulmão é um dos órgãos afectados.

No entanto, como já devem ter percebido diferentes padrões clínicos do Pulmão tendem a mostrar pequenas alterações nos sintomas de órgão.

Deste modo observam-se variações na apresentação da expectoração como: expectoração clara e fluída, expectoração seca, amarela e pegajosa ou branca pegajosa, etc…

Estas alterações devem-se à natureza da patologia.

Se o Pulmão apresentar sintomas de Vazio de Qi, muito provavelmente, a expectoração apresentar-se-á fluída e clara (O Qi é de natureza quente logo um Vazio de Qi deve culminar com um aumento de líquidos orgânicos).

No entanto num quadro de Vazio de Yin (quadro de calor) a expectoração já se pode apresentar amarela e/ou escassa.

Num padrão de Humidade a expectoração apresentar-se-á pegajosa e, possivelmente de cheiro forte como é comum num quadro de humidade-Calor.

Neste momento saímos da esfera mais simplista da divisão dos sintomas gerais e dos sintomas de órgão e passámos a analisar as diferenças num mesmo sintoma.

A tosse também deve poder ser analisada dentro deste modelo.

Neste caso não existem muitas variações que possam ser estudadas pois já conhecemos os factores desencadeantes:

1 – agrava com frio? com calor? com estados de irritabilidade? Com exposição a tempos Húmidos? Após as refeições? Após esforço físico?, etc….

Falta-nos estudar as características particulares deste sintoma.

Uma vez que a tosse se caracteriza por uma expulsão de ar e essa expulsão de ar faz-se acompanhar por um som devemos estudar esse som emitido pelo paciente. Este passo é importante:

1 – saber se a tosse é de som fraco (padrões de deficiência) ou de som alto (padrão de plenitude).

Este é mais um dado a juntar à nossa análise. No quadro abaixo encontram-se expostos os diferentes sintomas do paciente:

Sintomas órgãoSintomas geraisFactores desencadeantesCaracterísticas dos síndromes gerais nos sintomas de órgão
Tosse
expectoração
Frio generalizado
Lentidão física
Agravamento com o frio
Agravamento no Inverno
Preferência pelo calor
Alivio dos sintomas no Verão
Tosse de som fraco
Expectoração profusa, fluida e transparente

Agora sim temos um padrão de Vazio de Yang do Pulmão devidamente documentado com:

1 – sintomas de órgão (tosse e expectoração);

2 – sintomas gerais (frio generalizado, lentidão física);

3 – a associação imediata desses 2 tipos de sintomas através dos factores desencadeantes (agrava com frio, melhora com calor, etc…);

4 – Características dos padrões clínicos gerais nos sintomas de órgão (tosse de som fraco, expectoração profusa, fluida e transparente).

No entanto devemos lembrar que Coração em Medicina Chinesa é uma função com uma expressão física e outra psíquica.

Isto significa que o conceito de coração na Medicina Ocidental é ligeiramente diferente da usada na MTC.

Por outro lado ainda nos falta referir a relação que se pode estabelecer entre diferentes órgãos ou entre diferentes padrões clínicos. 

Teoria Dos Cinco Elementos

Umas linhas atrás referimos que o Verão era (e continua a ser espero!) de natureza Yang e o Inverno de natureza Yin.

As alterações que se observam no decorrer das diferentes estações explicam-se através da teoria Yin/Yang.

Os povos asiáticos desenvolveram outras teorias que também tem aplicação na compreensão dos fenómenos naturais.

Uma dessas teorias, importante para o diagnóstico tradicional chinês, é a teoria dos Cinco Elementos.

Esta teoria descreve os Cinco Elementos ao longo do ano.

Assim temos o Elemento Fogo para o Verão, o Elemento Terra para o Fim do Verão, o Elemento Metal para o Outono, o Elemento Água para o Inverno e o Elemento Madeira para a Primavera.

A natureza cíclica da teoria Yin/Yang encontra-se inserida nesta correspondência. 

Olhando para a figura atentamente reparamos numa lógica sequencial que se inicia no elemento Madeira e segue até ao elemento Água que por sua vez gera, novamente, o elemento Madeira.

Existem dois ciclos nesta teoria de importância fulcral, para a compreensão do mundo que nos rodeia e o desenvolvimento dos processos patológicos que se manifestam no nosso organismo.

O Ciclo de Geração e o Ciclo de dominação

O Ciclo de Geração tem a ordem que analisámos mais acima: a Madeira gera o Fogo, o Fogo gera a Terra, a Terra gera o Metal, o Metal gera a Água e a Água gera a Madeira, voltando ao inicio do ciclo.

Desta forma podemos dizer que a Madeira é a Mãe do Fogo e que o Fogo é a mãe da Terra ou também podemos dizer que a Água é o filho do Metal e que o Metal é o filho da Terra.

A função do elemento mãe é nutrir o elemento filho e manter a harmonia do ciclo; este equilíbrio é interrompido quando a mãe se encontra fraca e não consegue nutrir o filho ou quando o filho se encontra fraco e tira demais à mãe tentando, desta forma, compensar a sua fraqueza.

O Ciclo de Dominação segue uma ordem diferente como mostrado na figura.

A Madeira domina a Terra, a Terra domina a Água, a Água domina o Fogo, o Fogo domina o Metal e este domina a Madeira.

Novamente nasce uma desarmonia que se deve tanto à fraqueza de um elemento como à sua força excessiva.

Assim se um elemento se encontra muito forte tende a dominar excessivamente outro elemento.

No entanto também se pode dar o caso de contra-dominação: devido à condição de fraqueza do elemento que domina ou devido à condição de força do elemento dominado.

Estes dois modelos (existem mais mas só nos interessam estes em particular) desenvolveram-se na medida em que era necessário um sistema mais completo que a teoria Yin/Yang para explicar muitos fenómenos  naturais.

Um exemplo muito prático, da nossa história actual, que se pode compreender com o ciclo de dominação: o derrube de terras desflorestadas após chuvadas fortes.

O desflorestamento é uma das razões que leva a desabamentos de terra após chuvadas fortes.

Com a ausência de árvores a terra ficou mais exposta às chuvas excessivas acabando por desabar.

O Ciclo de dominação diz-nos que a Madeira domina a Terra e esta domina a Água.

Com a desflorestação deu-se um enfraquecimento do elemento Madeira; esta falta de capacidade em dominar a Terra acaba por enfraquecer este último elemento dando-se o caso de uma contra dominação por parte do elemento Água.

Enfraquecido o elemento Terra não conseguiu suportar a sua situação de dominador e tornou-se contra dominado pelo elemento Água.

Na medida em que este sistema de explicação se adapta à natureza também se adapta ao organismo (não esqueçamos a ligação do microcosmos com o macrocosmos).

O primeiro passo para se compreender esta associação consiste em saber qual a correspondência dos órgãos internos com a teoria dos Cinco Elementos e explicá-la.

A teoria dos cinco elementos, os órgãos e patologias clínicas

A cada elemento encontra-se associado um órgão e a sua víscera acoplada.

1 – Ao elemento Fogo está associado o órgão Coração;

2 – ao elemento terra o Baço;

3 – ao elemento Metal o Pulmão,

4 – ao elemento Água o Rim;

5 – ao elemento Madeira o Fígado.

Outras qualidades se encontram associadas aos 5 elementos.

O sabor doce pertence ao elemento Terra, picante ao elemento Metal, salgado ao elemento água.

Dentro do espectro das emoções vemos a raiva associada ao elemento Madeira, a alegria no elemento Fogo, a reflexão no elemento terra, a tristeza no elemento Metal e o medo no elemento Água.

Podem observar-se outras associações no quadro abaixo.

De momento interessa-nos explicar algumas destas associações permitindo ao leitor compreender melhor todo este enredo.

Correspondências dos Cinco Elementos
 MadeiraFogoTerraMetalÁgua
estaçõesPrimaveraVerãoNenhumaOutonoInverno
órgãosFígadoCoraçãoBaçoPulmãoRim
víscerasVesícula BiliarIntestino DelgadoEstômagoIntestino GrossoBexiga
saboresÁcidoAmargoDocePicanteSalgado
climaVentoCalorHumidadeSecuraFrio
emoçõesRaivaAlegriaReflexãoTristezaMedo
Fases de desenvolvimentoNascimentoCrescimentoTransformaçãoRecolhaArmazenamento

Comecemos, então, por explicar 2 das associações observadas no quadro:

1 – O Baço que pertence ao elemento Terra é o órgão responsável pela nossa capacidade de estudo. Daí a emoção associada ser a reflexão.

Como todos os estudantes devem saber em casos de preparação para exames, quando o estudo é muito intenso aconselha-se sempre comer chocolate que é doce (tonifica o Baço).

No entanto, se comermos muito chocolate ou outros produtos doces podemos ficar enjoados pelo que a nossa capacidade de estudo fica afectada (o Baço recebe em excesso e destrói-se a harmonia).

Mas não só a nossa capacidade de estudo pois é o Baço que transforma (fase de desenvolvimento) os alimentos.

Além de transformar os alimentos ele também é responsável pela transformação e transporte dos líquidos orgânicos.

Caso esta capacidade se encontre afectada os líquidos estagnam e geram Humidade.

2 – O Fígado encontra-se associado ao elemento Madeira.

A estação correspondente é a Primavera que simboliza o nascimento.

Este nascimento (fase de desenvolvimento) tem em si uma força criadora que gera a vida.

Quando surge um obstáculo ao desenvolvimento dessa força a pessoa compensa com irritação ou raiva que é um mecanismo de ultrapassar os obstáculos.

Esta torna-se patológica quando os obstáculos não são ultrapassados.

Estas são algumas das associações que nos permitem compreender as diferentes associações que encontramos no quadro dos cinco elementos.

Devemos dirigir a nossa atenção, neste momento, para a análise que se pode fazer dos sintomas e compreende-los dentro da teoria dos Cinco Elementos.

Uma vez que conhecemos os sintomas dos padrões gerais devemos analisar os sintomas de órgão.

Estes sintomas podem compreender-se de duas formas: sintomas que referem a funcionalidade do órgão (palpitações para o Coração e dispneia para o Pulmão, por exemplo) ou sintomas que se compreendem dentro da teoria Básica de Medicina Chinesa (insónia para o Coração, incapacidade de pensar para o Baço).

De qualquer modo, no diagnóstico tradicional chinês, todos estes sintomas são encarados como manifestações de uma função clínica que se compreende não só no órgão (manifestação física dessa função clínica) como também no vaso longitudinal e nas suas relações com outras funções clínicas.

No quadro abaixo mostramos os sintomas que permitem denunciar o envolvimento de um órgão:

QUADRO 3 – SINTOMAS DE ÓRGÃO

CoraçãoPulmãoBaçoFígadoRim
Palpitações
Pré-cordialgia
Patologia cardiovascular
Sinais psíquicos
insónia
Tosse
Rinorreia
dispneia
Alterações de memória
Alterações de apetite
Dilatação abdominal
Vertigens
Edemas
Fezes moles
hemorragia
Dor no hipocôndrio
Alterações de visão
Irritabilidade
Patologia genital externa
Patologia músculo-tendinosa
lombalgia
Alterações urinárias
Alterações auditivas
Edemas
Esterilidade/impotência
Fraqueza dos membros inferiores

Após conhecermos os sintomas que evidenciam os padrões clínicos gerais assim como os órgãos ficamos em condições de iniciar o diagnóstico das diferentes situações.

A análise de diferentes casos clínicos encontra-se agora ao nosso alcance.

Numa primeira fase analisaremos casos clínicos em que se alteram os sintomas de órgãos mas se mantêm os padrões gerais e numa segunda fase mantêm-se os sintomas de órgão mas alteram-se os sintomas que denunciam os padrões gerais.

lombalgia dor lombar dor ciática

Exemplos Clínicos no diagnóstico Tradicional Chinês

Numa primeira fase analisaremos casos clínicos em que se alteram os sintomas de órgãos mas se mantêm os quadros gerais e numa segunda fase mantêm-se os sintomas de órgão mas alteram-se os sintomas que denunciam os padrões gerais.

EXEMPLO 1

O paciente A apresenta os seguintes sintomas: tosse, astenia, suor espontâneo, expectoração clara (transparente), voz fraca, pulso fino e língua pálida.

O paciente B apresenta os seguintes sintomas: palpitações, astenia (esgotamento por esforço), suor espontâneo, pulso fino, língua pálida.

O paciente C apresenta os seguintes sintomas: fezes moles, dilatação abdominal, astenia que agrava com o mínimo de esforço, alterações de apetite, suor espontâneo, face pálida, pulso fino e língua pálida.

Nos 3 casos apresentados observamos alguns sintomas em comum como astenia, suor espontâneo, pulso fino e língua pálida que são sintomas de Vazio de Qi.

Estes sintomas descrevem-nos o padrão geral.

No entanto, existem variações nos sintomas de órgão: o primeiro paciente refere tosse, o segundo refere palpitações e o terceiro refere fezes moles associadas a outros sintomas como alterações de apetite e dilatação abdominal.

Apesar do padrão clínico geral ser o mesmo os órgãos afectados são diferentes.

O paciente A sofre de Vazio de Qi do Pulmão, o paciente B sofre de Vazio de Qi do Coração e o paciente C sofre de Vazio de Qi do Baço/Pâncreas.

EXEMPLO 2

O paciente A apresenta os seguintes sintomas: palpitações, sinais psíquicos, lentidão, frio generalizado, preferência pelo calor, palpitações agravam em ambientes frios, edemas, sudação profusa, pulso fino e lento, língua pálida e inchada.

O paciente B apresenta os seguintes sintomas: palpitações, agitação psíquica e física, insónia, boca e garganta secas, suores nocturnos, febre vespertina, pulso fino e rápido, língua vermelha sem capa.

O paciente C apresenta os seguintes sintomas: palpitações, febre, aversão ao calor e preferência pelo frio, erosão da mucosa bucal, sede com vontade de beber líquidos frios, úlceras na língua, pulso cheio e rápido, língua vermelha com capa amarela.

Neste segundo exemplo observamos o caso oposto. Os sintomas de órgão são idênticos e os sintomas dos padrões clínicos gerais são diferentes.

Os 3 pacientes referem sempre palpitações o que denuncia um problema ao nível do Coração.

Os restantes sintomas variam mas numa fase inicial pode distinguir-se dois tipos de quadros: um por frio e dois por calor.

O paciente A refere lentidão, frio generalizado, preferência por bebidas e alimentos quentes, sudação profusa, pulso fino e lento e língua pálida e inchada.

Estes sintomas são típicos de um Vazio de Yang (como pode reparar este quadro é mais severo que o apresentado no primeiro exemplo).

Os pacientes B e C apresentam sintomas de calor mas com algumas diferenças: o paciente B queixa-se de suores nocturnos, febre vespertina, boca e garganta secas enquanto que o paciente C apresenta febre, erosão da mucosa bucal, úlceras na língua e aversão ao calor.

Como deve ter reparado estes dois quadros diferenciam-se pela intensidade dos sintomas tal como foi referido nas diferenças dos padrões de Vazio de Yin e Plenitude Calor.

Outros sinais como pulso fino (deficiência) e rápido (calor) em comparação com pulso cheio (plenitude) e rápido (calor) e língua vermelha (calor) sem capa (vazio de Yin) ou com capa amarela (plenitude) asseguram as diferenças diagnosticadas nos dois últimos pacientes.

O paciente A sofre de Um Vazio de Yang do Coração, o paciente B sofre de um Vazio de Yin do Coração e o paciente C sofre de uma Plenitude Calor do Coração.

Na realidade, ainda existe uma terceira etapa para compreendermos esta ligação síndromes gerais-síndromes de órgão.

Sem ela nenhum diagnóstico pode ser justificado. Tem a ver como as características de um padrão clínico se manifesta nos sintomas de órgão.

Casos clínicos adaptados à teoria dos 5 elementos no diagnóstico tradicional chinês

Como se adapta a teoria dos Cinco Elementos a tudo o que foi dito?

Como reparámos os órgãos estabelecem dois tipos de relações entre eles, definidas em dois ciclos: o Ciclo de Geração e o Ciclo de Dominação.

Por esta altura já possuímos um conhecimento básico que nos permite diagnosticar as situações mais simples. No entanto estas situações não são muito comuns em clínica.

O mais comum são um ou mais padrões clínicos gerais que afectam mais de um órgão.

Nestes casos o estudo dos sintomas e da história clínica faz-se recorrendo á teoria dos Cinco Elementos.

Paciente Xi Que

O paciente QiXue (vamos dar-lhe nome de ponto de acupunctura) queixa-se de dispneia e expectoração excessiva de cor clara.

Cansa-se mais facilmente do que o costume, refere fezes moles e parecem existir alterações de apetite e suor espontâneo.

Também refere que após a alimentação (em particular quando come em excesso) sente um agravamento dos sintomas pulmonares.

Análise:

Este paciente apresenta sintomas de dois órgãos: dispneia e expectoração excessiva, ambos sintomas do Pulmão e fezes moles e alterações de apetite que denunciam um envolvimento do Baço.

Além dos sintomas de órgão apresenta dois sintomas de um padrão clínico geral (suor espontâneo e astenia – cansa-se mais facilmente), nomeadamente um Vazio de Qi.

Podemos, então concluir que existe um Vazio de Qi do Baço e do Pulmão.

Outros sintomas como a expectoração clara fortalecem a nossa convicção na existência de um padrão de Vazio de Qi no Pulmão.

No entanto, o paciente refere um dado curioso: os sintomas pulmonares agravam nas alturas em que come demasiado.

Quando estudámos o Ciclo de Geração da teoria dos cinco elementos observámos que o Baço (Terra) é a mãe do Pulmão (Metal).

Como o Baço se encontra em deficiência não consegue nutrir o filho enfraquecendo-o.

Nas alturas em que o paciente come demais o Baço (que já se encontra enfraquecido) é obrigado a gastar mais “energia” no processo da digestão ficando ainda com mais dificuldade em alimentar o Pulmão.

Por essa mesma razão é que os sintomas pulmonares agravam quando o paciente come em excesso.

Paciente HeGu

O paciente Hegu (4IG) queixa-se de dispneia; apresenta respiração fraca, opressão torácica e dor no hipocôndrio.

Refere que tem tido muitas complicações profissionais e sente-se muito stressado.

Também refere que os sintomas pulmonares agravam quando se irrita.

Apesar de ser uma pessoa irritável por natureza sente-se mais irritado nos dias que correm e não consegue suster essa irritabilidade.

Análise:

Este paciente apresenta sintomas de 2 órgãos: dispneia e respiração fraca que são sintomas típicos do envolvimento do Pulmão e dor no hipocôndrio e irritabilidade que pertencem à esfera de sintomas do Fígado.

Uma vez que não existem sintomas que denunciem a natureza fria ou quente do padrão clínico é muito difícil justificar a presença de um Vazio de Yin ou Vazio de Yang.

Uma vez que o sintoma mais relevante é a irritabilidade e o stress assumimos que existe uma Estagnação de Qi do Fígado.

Também vimos a relevância da irritabilidade para o agravamento dos sintomas pulmonares.

Assim, atendendo à teoria dos 5 elementos podemos observar que existe uma contra-dominação do Fígado ao Pulmão.

O Pulmão domina o Fígado, mas uma vez que se gera toda uma situação potencialmente gravosa para a harmonia do Fígado surge um desequilíbrio.

Ao estagnar o Qi do Fígado agride o Pulmão, contra dominando-o.

Reflexões sobre diagnóstico tradicional chinês

chi qi energias diagnóstico tradicional chinês

Sintomas e sinais clinicos

Um dos primeiros pontos para se compreender o diagnóstico tradicional chinês consiste em saber diferenciar sintomas, sinais clínico, padrões e doenças.

Um sintoma não é mais que uma queixa relatada pelo paciente.

Faz referência a algo que o paciente sente como patológico.

Por exemplo, quando um paciente diz “sinto dor de dentes” está a fazer referência a um sintoma.

O sintoma indica que algo não está bem, que existe um problema, independentemente de ser imaginado ou não pelo paciente.

Por seu lado o sinal clínico é algo que pode ser percebido pelo profissional de saúde sem recorrer ao relato do paciente. É algo percebido directamente pelo profissional de saúde.

Por exemplo, um paciente apresenta dor articular que agrava com exposição ao calor e em alturas de mudanças atmosféricas.

Além disso sente-se à palpação a pele quente e observa-se vermelhidão local.

SintomasSinais clínicos

dor mais acentuada nas articulações,

dor que agrava com exposição ao calor,

dor que agrava com mudanças atmosféricas

pele vermelha durante a fase de observação,

pele quente ao toque

Doenças, síndromes e padrões clínicos

Sabendo o que são sintomas e sinais clínicos seria agora útil percebermos o que são doenças, síndromes e padrões clínicos em medicina chinesa.

De forma resumida pode dizer-se que são formas distintas de catalogar sintomas e sinais clínicos. É só isto. Parece mais simples do que realmente é.

No entanto, apesar de serem formas distintas de catalogar sintomas e sinais clínicos, compreendendo as suas relações, existem diferenças marcantes entre doenças e padrões clínicos.

A grande diferença é esta: uma doença pode apresentar diversas variações (padrões clínicos) ou pode apresentar diferentes padrões clínicos ao longo da sua evolução.

Doenças em medicina chinesa: exemplo ilustrativo

A desinteria era uma doença extremamente comum na China e os seus sintomas foram catalogados correctamente ao longo dos séculos.

As diferentes formas que pode tomar acabaram por ser catalogadas como diferentes manifestações da mesma doença:

1 – a desinteria branca (marcada pela presença de pus),

2 – a desinteria vermelha (marcada pela presença excessiva de perdas de sangue),

3 – a desinteria vermelha e branca (onde o pus e o sangue existem em quantidades idênticas), etc…

Isto são variações de uma mesma doença mas sem englobar o conceito de padrões clínicos.

A icterícia também foi classificada como doença ao longo da história da Medicina Chinesa.

Como doença apresentava variações que tinham variações compreendidas como padrões clinicos.

Assim pode existir icterícia yin, icterícia yang ou icterícia aguda.

Na icterícia yang, por exemplo, existe um padrão clínico predominante conhecido como humidade-calor.

Mas mesmo aqui podem existir diferenças uma vez que os sintomas de humidade se podem fazer sentir com mais intensidade que os sintomas de calor sendo o seu contrário também possível.

Por outro lado a icterícia yin apresenta uma variedades maior de padrões clínicos possíveis como vazio de qi do baço, estase de sangue, etc…

Doenças em medicina convencional e padrões clínicos em medicina chinesa

Convêm referir que as doenças em Medicina Ocidental tem uma lógica de catalogação de sintomas e sinais clínicos mais semelhante às doenças no diagnóstico tradicional chinês do que em relação aos padrões clínicos.

O que interessa saber, para o leitor, é que a mesma doença pode apresentar-se com diferentes padrões clínicos.

Imaginemos a infecção urinária (a infecção urinária é uma doença ocidental, mas serve para o nosso exemplo).

A infecção urinária baixa vai caracterizar-se por vários sintomas como:

1 – disúria (dor ao urinar),

2 – hematúria (sangue na urina),

3 – polaquiúria (aumento da frequência urinária),

4 – urgência em urinar.

Pode ainda existir dor/desconforto no baixo abdómen e alterações de cheiro da urina.

A presença de todos estes sintomas faz-nos pensar na infecção urinária. No entanto a infecção urinária pode apresentar-se sob a forma de diferentes padrões clínico.

No quadro abaixo irei colocar 2 padrões clínicos – estase de sangue e humidade-calor- que são comuns em pacientes com infecções urinárias.

Os sintomas serão colocados num quadro para o leitor compreender mais facilmente a sua diferença.

Estase de sangueHumidade-Calor
Polaquiúria (aumento da frequência urinária)Polaquiúria (aumento da frequência urinária)
Urgência a urinarUrgência a urinar
Hematúria (sangue na urina)Hematúria (sangue na urina)
Dor tipo facada a urinarDor tipo ardor/queimadura a urinar
Dor que agrava há noiteDor agrava com calor
Dor melhora com movimento – a paciente pode referir necessidade de se levantar e andar pela camaDor acompanhada de sensação de peso
Urina sem grandes alterações de cheiro – ou, pelo menos não é tão comum – depende da existência de um padrão de calor associadoUrina com alterações de cheiro que podem ser significativas

Se o leitor reparar existem sintomas comuns que denunciam a existência de uma infecção urinária (polaquiúria, disúria, hematúria, etc…).

Mas existem diferenças na presença ou apresentação de alguns sintomas como a dor no baixo ventre ou a dor a urinar.

tendinites tendinose tendinopatias

A diferença entre padrões clínicos e síndromes

Muitas vezes usa-se outro sinónimo para padrões clínicos. Falo de síndromes. E em alguns livros técnicos de tradução de termos chineses são usados como sinónimos.

No entanto podem efectivamente existir diferenças entre padrões clínicos e síndromes.

Podem existir síndromes independentemente dos padrões clínicos. Em cima falei da infecção urinária. A infecção urinária não é uma doença em medicina chinesa. Nem um síndrome.

No entanto a disúria (dor ao urinar) já é um síndrome designado por síndrome Lin.

Qualquer patologia ocidental que apresente dor ao urinar (prostatite, hiperplasia prostática, infecção urinária, cálculos renais, etc…) pode ser analisada à luz dos síndromes Lin na Medicina Chinesa.

Tal como doenças de Medicina Chinesa, como a desinteria, os síndromes Lin também apresentam variações, de acordo com a apresentação dos sintomas.

Dentro das variantes dos síndromes Lin, com o nome chinês Lin Zhen (que significa estrangúria: uma condição caracterizada por uma micção lenta e dolorosa.), podemos ter 5 tipos diferentes:

1 – estrangúria com sangue,

2 – estrangúria Qi,

3 – estrangúria com pedras,

4 – estrangúria complicada por esforço,

5 – estrangúria com quilúria (a urina aparece leitosa).

Além destas variações dentro da classificação mais generalista Lin Zhen (síndromes de estrangúria) existem ainda outras formas de analisar mais aprofundadamente os sintomas.

Como o leitor já deve ter reparado, falo especificamente dos padrões clínicos.

Os síndromes Lin podem ter associados diversos padrões clínicos como Humidade-Calor na Bexiga, deficiência do Rim e Baço, Estagnação de Qi do Fígado, etc…

O que ainda pode facilitar um pouco mais este aprofundamento da nossa análise é saber que os diferentes tipos de Síndromes Lin tem tendência a estar mais associados a um tipo particular de padrões clínicos.

Desta forma o síndrome Lin (estrangúria) Qi está mais associado a padrões de Estagnação de Qi que provocam o aparecimento de calor no baixo ventre e a padrões de afundamento do Qi.

Neste caso podemos dividir o síndrome Lin Qi em dois tipos: tipo excesso (estagnação de Qi do Fígado) e tipo deficiência (afundamento do Qi).

Além dos síndromes Lin, existem outros síndromes que não são padrões clínicos.

Falo, por exemplo, dos síndromes Bi que significa síndromes dolorosos.

Qualquer padrão de dor pode ser analisada à luz dos síndromes Bi – o que não significa que seja sempre um síndrome Bi.

Por exemplo, inicialmente, os síndromes Lin foram chamados de Lin Bi porque também englobam a dor.

Os síndromes Bi podem também dividir-se em diversos padrões clínicos como Humidade-calor, Vento-frio, Vento-humidade-frio, etc…

Cada uma destas classificações possível representa um conjunto de sintomas diferentes.

No síndrome Bi por humidade calor temos dor que se concentra mais nas articulações, dor sensível às alterações atmosféricas, sensação de peso, agravamento com o movimento, sensação de calor local, rubor e calor à palpação, etc…

Muitos leitores devem estar a reconhecer os sintomas que aparecem em muitos pacientes com artroses.

Sintomas positivos, sintomas negativos… a sua importância no diagnóstico tradicional chinês

Um aspecto extremamente importante relacionado com o diagnóstico tradicional chinês consiste em saber distinguir os sintomas positivos dos sintomas negativos. Isto muitas vezes passa despercebido.

Mas é a diferenciação entre sintomas positivos e negativos que algumas vezes nos ajudam a diferenciar determinados padrões clínicos.

Alguns leitores devem estar a perguntar o que são sintomas negativos e o que são sintomas positivos. Bem a resposta é relativamente simples.

O que são sintomas positivos e sintomas negativos?

Por sintoma positivo compreende-se um sintoma que se manifeste no paciente. Quando afirmamos que um paciente apresenta dor no ombro falamos de um sintoma positivo.

Por sintoma negativo, como o leitor já deve ter percebido, falamos de um sintoma que não se manifesta no paciente. Por exemplo, o paciente não apresenta tonturas. A ausência de tonturas é um sintoma negativo.

Caso de estudo

Existe um caso estudo típico de sintomas positivos versus sintomas negativos que revela a sua importância para o diagnóstico e futura formulação de princípios terapêuticos.

Este caso está relacionado com a área da patologia externa no diagnóstico tradicional chinês. O padrão da invasão de vento-frio.

A invasão de factores patogénicos externos levando a um padrão de vento-frio pode ser esmiuçado em duas sub-categorias.

Podem existir padrões de vento-frio de plenitude e padrões de vento-frio por deficiência.

Um padrão de vento-frio diz respeito a um determinado conjunto de sintomas que surgem repentinamente e apresentam algumas características semelhantes como:

1 – aversão ao vento,

2 – aversão ao frio,

3 – agravamento dos sintomas com exposição ao vento e frio,

4 – alívio dos sintomas com calor,

5 – febre alternado com arrepios.

Outros sintomas como corrimento nasal, dor de garganta, cefaleia, tosse podem estar presentes.

Como é que distinguimos, nestes sintomas um padrão de vento-frio por plenitude de um padrão de vento-frio por deficiência?

É através da presença (sintoma positivo) ou ausência (sintoma negativo) de um sintoma particular: sudação.

A presença de sudação (sintoma positivo)  indica a existência de uma padrão de vento-frio tipo deficiência, enquanto que a ausência de sudação (sintoma negativo) indica a existência de um padrão de vento-frio tipo plenitude.

Mesma doença, tratamentos diferentes vs Doenças Diferentes, tratamento semelhante

Compreender a relevância da classificação e doenças e padrões clínicos é importante para se compreender o pensamento clínico do diagnóstico tradicional chinês. E da sua terapêutica.

Há primeira vista afirmar que doenças diferentes terão o mesmo tratamento, parece ridículo.

Quem no seu perfeito juízo trataria um síndrome do canal cárpico da mesma forma que trataria uma infeção urinária?

Poderemos nós sequer pensar em tratar um caso de dismenorreia da mesma forma que tratamos um caso de dor cardíaca?

Como vimos a doença e o padrão são formas distintas de se classificarem sintomas. Regra geral os padrões refletem diferentes apresentações da mesma doença ou diferentes fases da evolução da doença.

Muitos tratamentos em medicina chinesa são vocacionados para o padrão e não para a doença.

Vamos supor que temos 2 pacientes: o paciente A sofre de síndrome do canal cárpico e o paciente B sofre de infeção urinária.

O paciente A, com um síndrome de canal cárpico, refere dor que agrava à noite, tipo facada e melhora com movimento.

O paciente B, com infecção urinária, pode apresentar dor no baixo ventre tipo facada, dor ao urinar tipo facada, sangue na urina, ambas estas dores agravam durante a noite e melhoram com o movimento.

É natural estes pacientes terem necessidade de se levantarem e passearem pela casa durante a noite para aliviar a dor.

Apesar das doenças serem diferentes os sintomas que as caracterizam são idênticos. Neste caso ambos os pacientes seriam diagnosticados com uma estase de sangue:

(1) dor tipo facada,

(2) agrava à noite e

(3) melhora com movimento.

Uma vez que a forma de classificar sintomas e a forma de classificar a matéria médica chinesa é a mesma e uma vez que ela se fundamenta na análise dos padrões clínicos temos, como consequência, que diferentes doenças podem ter o mesmo tratamento.

Os fitoterápicos (fórmulas complexas em que se juntam plantas com propriedades terapêuticas) usados nos 2 pacientes seriam muito semelhantes.

Poder-se-ia observar pequenas alterações, mas estas seriam marginais, quando comparadas com as semelhanças.

Na realidade qualquer fórmula fitoterápica que elimine a estase de sangue pode ser usada com alguma segurança nestes 2 casos.

Então temos que doenças diferentes, tratamento semelhante.

Vamos supor que o nosso paciente B continua com a infecção urinária. Agora iremos compará-lo com outro paciente com infecção urinária.

Em termos de pensamento médico ocidental, 2 pacientes com infecção urinária são 2 pacientes com a mesma doença e aos quais irão ser aplicados tratamentos muito semelhantes.

No entanto, o novo paciente, ao qual chamaremos paciente C, apresenta dor ao urinar acompanhada de sensação de queimadura, dor que melhora com aplicações de frio, sensação de peso no baixo ventre, dor que agrava com pressão.

Neste caso, em particular, a fitoterapia usada nos 2 casos, será completamente diferente.

O paciente B apresenta um padrão de estase de sangue (como vimos nos parágrafos anteriores), mas o paciente C apresenta um quadro de humidade-calor.

A única semelhança é que ambos afectam a bexiga (víscera em Medicina Chinesa).

Mas as diferenças nos sintomas que caracterizam a queixa (estase de sangue ou humidade-calor) é que serão determinantes na selecção da fitoterapia a usar.

Se no paciente B queremos plantas que ativem o sangue e dispersem a estase, no paciente C já se usam drogas que eliminem humidade e calor.

Temos, então, o caso de mesma doença, tratamentos diferentes.

Os padrões clínicos surgem como variações que se podem manifestar em determinadas zonas do corpo.

Por exemplo, um padrão de humidade-calor pode manifestar-se na vesícula biliar com sintomas muito semelhantes à colecistite ou na bexiga com sintomas idênticos à infecção urinária.

Mas para a Medicina Chinesa são sempre padrões de humidade-calor.

osteopatia osteopata tratamento osteopático

Correlação e causalidade: erros no diagnóstico tradicional chinês

Um diagnóstico em medicina chinesa é formulado quando existem um determinado número de sintomas e sinais clínicos e quando existe uma clara relação entre esses sintomas e sinais clínicos.

O que significa que algumas vezes estamos em frente a fenómenos de causalidade e outras vezes a fenómenos de correlação.

Saber distinguir correlação e causalidade é essencial no diagnóstico tradicional chinês.

Causalidade e correlação

Como o nome indica causalidade implica uma ação causal.

A União Soviética entrou em guerra com a Alemanha porque a Alemanha invadiu a URSS. Existe uma relação causal imediata.

Correlação não implica necessariamente a existência de causalidade. Estamos, neste caso, perante dados que parecem relacionar-se mas que não tem qualquer relação.

Por exemplo, eu posso usar as duas afirmações verdadeiras:

1 – A economia chinesa tem vindo a crescer.

2 – Eu estou a ficar mais velho.

São duas verdades (para muito custo pessoal e felicidade de alguns chineses) mas existe alguma relação causal?

A economia chinesa está a crescer porque eu estou a ficar mais velho?

Ou eu estou a ficar mais velho porque a economia chinesa está a crescer?

Neste caso temos dois dados verdadeiros que estão correlacionados mas não tem nenhuma causalidade (este exemplo ridiculamente simples tem como objetivo ser divertido e informativo).

Em clinica o problema é o mesmo. O conceito de causalidade é essencial para um correto diagnóstico.

Um paciente apresenta os sintomas de astenia (cansaço físico) e palpitações.

Muitas vezes pegamos nestes sintomas e diagnosticamos um vazio de qi do coração pois são sintomas que pertencem ao padrão de vazio de qi (astenia) do coração (palpitações):

Mas na realidade é um diagnóstico apressado (os alunos caem sempre neste erro e deve-se à forma errada como é ensinado o diagnóstico) e sem qualquer fundamento.

Estamos a olhar para dois sintomas que podem não ter qualquer causalidade entre eles.

Caso o paciente refira que sente um cansaço grande e quando se sente mais cansado surgem palpitações então temos uma provável relação causal. Esta relação causal é muito importante.

Porque o paciente também pode referir que sente muitas palpitações e quando estas agravam surge um grande cansaço físico.

Ou seja inverte-se a causalidade dos sintomas e o padrão que afeta o paciente pode ser completamente diferente.

Neste caso podem existir outros padrões que afetam o coração (estagnação de qi, humidade calor, etc…) na origem das palpitações.

Tonificar o qi neste paciente teria sido altamente contraproducente.

Correlação e causalidade sem história clinica

Outro problema durante o diagnóstico tradicional chinês está na incapacidade de se construir uma boa anamnese, desenvolver um interrogatório capaz, relevar a importância dos dados estatísticos e a história clínica do paciente.

Há uns anos chamaram-me para ajudar num caso clinico na clinica escola da ESMTC (onde dava aulas).

O paciente apresentava lombalgia, surdez e poliúria. O diagnóstico que todos desconfiavam era vazio de yang do Rim.

É assim que nos ensinam a pensar: tem os sintomas que pertencem à esfera de uma padrão clinico logo o paciente tem esse padrão clinico.

Nada mais desfasado da realidade clínica porque não existe causalidade entre nenhum sintoma. E não se consegue estudar causalidade sem se estudar a história clinica do paciente.

Quando estudei a história clinica do paciente notei:

1 – lombalgia do lado direito com início há 2 semanas enquanto trabalhava na horta,

2 – surdez do ouvido esquerdo por exposição prolongada a sons altos;

3 – poliúria provavelmente desencadeada por consumo elevado de água.

Ou seja não existe nenhuma relação causal entre sintomas seja essa relação atual (lombalgia agrava zumbidos, por exemplo) ou histórica (primeiro surgiu a lombalgia e mais tarde agravou com sintomas urinários).

Um dos sintomas, poliúria, nem sequer tem expressão clínica relevante (basta o paciente não beber 2 litros de água por dia e não comer sopa que o débito urinário começa a diminuir).

Correlação e causalidade na aplicação terapêutica

Um paciente surge na clinica com dor e irritabilidade.

O diagnóstico é imediato: estagnação de qi do fígado.

Tal como aconteceu no exemplo do coração devemos perguntar o que causa o quê.

É comum pacientes com dor prolongada sentirem-se irritados. Quem não se sente? Mas nesse caso a dor causa a irritabilidade.

Não há necessidade de perder tempo a fazer nenhum diagnóstico que só nos vai levar por tratamentos mais morosos, dispendiosos e clinicamente menos úteis.

Os princípios terapêuticos e a relevância que se dá a cada um deles vai ser diferente ao ter noção do fenómeno causal entre dor e irritabilidade.

dor e dormência na mão

Sintomas e sinais clinicos: importância para o diagnóstico do pulso e língua

Uma questão interessante que aparece em muitas discussões tem a ver com a natureza sintomática do diagnóstico tradicional chinês.

O diagnóstico tradicional chinês é impossível na ausência de sintomas mas será que é possível a partir de sinais clínicos como pulso e língua?

Na maior parte das vezes os terapeutas dão mais importância à observação da língua e palpação do pulso.

Quando escrevi sobre a importância do sintomas no diagnóstico tradicional chinês fui contrariado por leitores que falavam sobre a importância da análise da língua e do pulso.

Um deles, escreveu:

“O que a MTC pode oferecer é diagnosticar precocemente um vazio de Rim, Yuan e/ou Jing Qi, por exemplo, havendo no mínimo sinais na língua e o pulso, se não houver dores de joelhos, dor lombar, etc etc etc.”[i]

Na altura respondi:

“Como é possível diagnosticar um Vazio de Yang do Rim sem sintomas? Pela língua ou pelo pulso? A língua e o pulso são sinais clinicos muito limitados, não só porque são facilmente alteráveis, como pela falta de especificadade na informação que oferecem. Tem lógica analisá-los enquandrados nos sintomas.”[ii]

A resposta, na altura, não se fez esperar:

““A língua e o pulso são sinais clinicos muito limitados”

Diga isso aos vários mestres que o fazem. Eu não consigo e o Nuno também não,”[iii]

O José, autor destes comentários, tem razão numa coisa.

Efectivamente existem imensas pessoas a fazer diagnóstico tradicional chinês quase só pela língua e pulso.

São sinais clínicos relevantes para a Medicina Chinesa e existem imensos médicos chineses que lhes dão imensa importância.

Obviamente que existem pequenas divergências entre profissionais e escolas.

Pulso e língua: qual o seu verdadeiro valor semiológico?

No entanto, não é por ser uma prática muito usada que a torna mais correcta. Nem faz com que a língua ou o pulso sejam verdadeiramente independentes dos sintomas.

Como tal somos obrigados a levantar uma questão. A questão, que nos preocupa, é esta:

Qual o verdadeiro valor semiológico destes sinais clínicos?

Poderei usar estes sinais, na completa ausência de sintomas, e fazer um diagnóstico correcto?

A minha resposta imediata é não, como o leitor já deve ter reparado.

É totalmente impossível fazer um diagnóstico tradicional chinês acertado só com base no diagnóstico pela língua e pulso.

São sinais clínicos com poder semiológico muito limitado, podem ser facilmente viciados, e quase nunca são usados independentemente da análise dos sintomas, especialmente se se deseja fazer uma diagnóstico tradicional chinês correcto.

Olhar para a língua, oferece informações clínicas, de acordo com a teoria clínica da MTC. Mas essas informações são muito vagas.

Ver uma ponta da língua vermelha pode ser um problema circulatório, pode ser um problema cardíaco, pode ser insónia ou agitação física ou psíquica ou o facto da paciente ter esticado demasiado a língua – se mantiver o língua de fora algum tempo vai ver que a cor muda.

Diferentes pessoas levam tempos diferentes a ficar com a língua de cor diferente.

Verdade seja dita: língua com ponta vermelha não nos diz nada acerca do estado de saúde da paciente.

Diz somente que existe a possibilidade de ter calor no AS (Aquecedor Superior).

Em termos clínicos isso é a mesma coisa que dizer que existe um tipo chamado Nuno Lemos em Portugal.

Boa sorte para saber quem é, onde vive, de onde veio, qual dos vários Nuno Lemos existentes é que se pretende e onde se encontra neste momento.

Bordos da língua pálida podem indicar um vazio de sangue do fígado, por exemplo. Mas também podem indicar um vazio de qi do fígado. E além disso não nos dizem nada acerca de possíveis patologias do paciente.

Ou seja, somente a observação da língua nem nos permite diferenciar 2 padrões clínicos distintos no mesmo órgão.

E muito menos nos pode informar acerca das queixas (queixa principal ou doença) da paciente.

Uma paciente pode ter amenorreia por vazio de sangue do fígado, palpitações por vazio de qi do coração e vesícula biliar, ou alterações oculares por vazio de sangue do fígado, etc…

Boa sorte para conseguir definir o que essa paciente tem, olhando somente para a língua.

Parâmetros como:

1 – A presença de sintomas (dismenorreia, dor, alterações de apetite, sudação profusa, etc…),

2 – Características próprias desses sintomas (dismenorreia que agrava antes do período menstrual, dor com sensação de peso, sudação profusa que agrava com esforço físico);

3 – Relação formada entre eles (estados de irritabilidade desencadeiam vómitos, ansiedade que gera palpitações, astenia física que gera tonturas, etc…)

são aspectos essenciais para se fazer um diagnóstico e nenhuma delas é percebida pela observação da língua ou a palpação do pulso.

Por muito difícil que seja para alguns praticantes, sem sintomas não há diagnóstico tradicional chinês.

dor e dormência na mão

Incerteza dos sinais clínicos no diagnóstico tradicional chinês: a língua e o pulso como exemplos

Não só a observação da língua e apalpação do pulso tem um valor semiológico pobre quando isolados, como também são valores facilmente alteráveis.

Tanto a língua como o pulso podem ser facilmente manipuláveis, especialmente no mundo atual, onde imensos pacientes tomam medicação que altera a pulsação ou tem hábitos de vida – café, chupa-chupas, maus hábitos de higiene oral – que facilmente alteram a cor da língua ou a sua capa.

O problema subsiste. O diagnóstico tradicional chinês é essencialmente sintomático.

É impossível fazer um diagnóstico tradicional chinês sem uma análise correcta dos sintomas do paciente.

Pulso e língua: Como padrões clinicos podem alterar sinais clinicos

Existe, obviamente, um problema com o que acabei de dizer. O pulso e língua não oferecem informação clínica detalhada, nem permitem fazer um diagnóstico tradicional chinês.

Mas, teoricamente, permitem conhecer quais os possíveis padrões clínicos existentes.

Se os bordos pálidos da língua não me permitem dizer se é um problema ocular ou menstrual, efectivamente permitem-me dizer que pode ser um vazio de sangue do fígado (consideremos este padrão uma vez que é mais comum que o vazio de qi).

Mas o que será que a língua nos diz quando existem 2 padrões clínicos no mesmo órgão?

Falámos do vazio de sangue. Em alguns pacientes, pode existir vazio de sangue do fígado com subida de yang (algo muito comum no vazio de yin).

No entanto, vazio de sangue e súbida de yang apresentam línguas com cores diferentes.

O vazio de sangue apresenta bordos da língua pálidos enquanto a subida de yang do fígado apresenta bordos da língua vermelhos.

Neste caso, temos 2 exemplos a demonstrar que a informação baseada na observação da língua não nos permite saber se existem 2 padrões clínicos num mesmo órgão.

Outra situação complicada refere-se à existência conjunta de vazio de yin e vazio de yang.

O vazio de yin apresenta língua vermelha e o vazio de yang apresenta língua pálida.

No entanto, pacientes com estes 2 padrões podem apresentar língua rosada… ou seja normal.

Outra falha grande de se observar unicamente a língua é não reconhecer estas situações particulares onde a existência de 2 padrões clínicos distintos provocam alterações na língua que nos leva a crer que não existe nenhum problema.

A observação da língua também não nos oferece nenhuma informação sobre a relação entre diferentes padrões clínicos.

Por exemplo, é virtualmente impossível diagnosticar “Estagnação de Qi do Fígado que agride o Estômago” através da observação da língua ou da palpação do pulso.

Como sinais clínicos, têm lógica na presença de sintomas e somente na presença de sintomas.

Em termos de diagnóstico tradicional chinês, a língua e pulso:

1 – não são capazes de definir objectivamente o diagnóstico;

2 – não são capazes de mostrar a existência de 2 padrões clínicos no mesmo órgão;

3 – não são capazes de mostrar relações entre diferentes padrões clínicos;

4 – podem dar informação errada.

Não só são bastante inúteis, quando tratados isoladamente, como também não nos ajudam a definir nenhum tratamento.

Pulso e língua numa abordagem terapêutica estrutural

A medicina tradicional chinesa é um processo contínuo.

O seu pensamento está estruturado de forma a permitir ao praticante conseguir fazer diagnóstico tradicional chinês, definir princípios de tratamento e aplicar terapêuticas.

Uma vez que é essencialmente sintomática, todo este processo fica dependente dos sintomas existentes.

Na ausência de sintomas – por não existirem ou não serem comunicados – somente a observação da língua e a palpação do pulso tornam-se abordagens impraticáveis.

A questão é esta: como definir o meu protocolo de acupunctura ou criar uma fórmula de matéria médica sem conhecer os sintomas do paciente?

O princípio base de um protocolo de acupuntura tradicional chinesa consiste na selecção de pontos “locais, distais e sintomáticos”. Isto implica o paciente ter sintomas.

Dor no hipocôndrio por Vazio de Sangue ou diminuição da acuidade visual por Vazio de Sangue do Fígado são tratados com protocolos muito diferentes.

Mais não seja porque falamos de queixas localizadas em regiões diferentes do corpo o que iria alterar de imediato o princípio de selecção de pontos locais.

Existem pontos de acupuntura distais e sintomáticos que também são diferentes. Todo o protocolo base seria diferente.

As fórmulas de matéria médica seguem processos de pensamento diferentes (drogas imperadores, ministros, etc… em vez de princípios baseados nos vasos longitudinais) mas também estão dependentes da presença de sintomas.

Existem drogas tónicas do sangue que são mais aconselhadas para o tratamento de problemas visuais enquanto outras são mais aconselhadas no tratamento de problemas menstruais.

A verdade é que sem sintomas, por muito bons que sejamos a observar a língua ou palpar o pulso, não conseguimos criar um protocolo de acupunctura ou uma fórmula de matéria médica (a não ser algo extremamente vago e impreciso).

Riscos clínicos na ausência de sintomas

Mas não é tudo. Não só não conseguimos definir tratamento de acupuntura ou matéria médica sem conhecer os sintomas, como não é aconselhável prescrever matéria médica sem conhecer os sintomas do doente.

No caso em questão mencionei o exemplo de problemas menstruais (amenorreia, dismenorreia, etc…) por vazio de sangue do Fígado.

Uma das drogas muito usadas no tratamento desta queixa e deste padrão clínico é a Angelica Sinensis.

Mas quem iria prescrever esta droga sem saber primeiro se o paciente tinha ou não diarreia?

bronquite crónica acupuntura chinesa

Tratar Vazio de Yin: um exemplo da importância do sintoma e da aplicação da raciocínio clínico do diagnóstico ao tratamento

Este capítulo foca-se na relevância do sintoma fundamento do raciocínio clínico desde o diagnóstico tradicional chinês à aplicação terapêutica.

Aceita-se a existência de um vazio de yin quando na presença de alguns sintomas e sinais clínicos específicos. Para este texto só nos vão interessar os sintomas.

De forma geral os sintomas de Vazio de yin podem dividir-se em 3 categorias: temperatura, líquidos orgânicos, mental.

Vazio de yincalorSensação de calor nas 5 palmas
Febre vespertina
Líquidos orgânicossecuraPele seca
Boca e garganta secas
Obstipação
Urina escassa e escura
Perda de liquidosSuores nocturnos
mentalAgitação mental
insónia

Tratar o vazio de yin: dos sintomas para os princípios terapêuticos

A partir destes sintomas é possível definir diversos princípios terapêuticos que nos levarão à formulação do protocolo de acupunctura.

Por exemplo, na categoria mental podemos definir o princípio terapêutico acalmar a mente.

Neste princípio terapêutico vamos seleccionar pontos para agitação psíquica e insónia.

Nos sintomas relacionados com os líquidos orgânicos podemos seguir princípios terapêuticos como nutrir os líquidos orgânicos nos sintomas de secura ou parar sudação quando pretendemos um efeito de adstringência.

O leitor deve ter notado nos sintomas de calor.

No vazio de yin, em termos de estratégias terapêuticas, é nutrir o yin e não eliminar calor.

No entanto, na presença de sintomas de calor relevantes também podemos eliminar calor.

No quadro abaixo mostro a relação entre as diferentes categorias de sintomas do vazio de yin com correspondente princípio terapêutico:

Vazio de yincategoriaPrincípio terapêutico
calorEliminar calor
Nutrir yin
Líquidos orgânicossecuraNutrir líquidos orgânicos
Perda de líquidos orgânicosParar sudação (adstringência)
 mentalAcalmar a mente

É o princípio terapêutico que nos vai ajudar a dar objectividade quando pretendemos construir o protocolo de acupuntura.

Comecemos por compreender como se aplica no caso de acalmar a mente.

Observámos que existem 2 sintomas envolvendo a mente no vazio de yin, sendo eles: agitação física e psíquica e a insónia.

Regra geral um ponto de acupuntura que acalme a mente pode ser usado no tratamento de qualquer sintoma que envolva a mente.

Nutrir o yin e aclarar o calor leva-nos a outra divagação.

Regra geral, se existe vazio de yin tem de se nutrir o yin. Isto é independente de existirem ou não sintomas de calor ou de secura bastante intensos.

Se o diagnóstico é um vazio de yin, um dos princípios terapêuticos que não pode faltar é aquele que nos manda nutrir o yin.

Os pontos base para o fazer são simples de se aprenderem.

Tratar o vazio de yin: iniciar com protocolos simples

Os pontos 6BP e 3R denunciam na maioria das vezes a existência de um vazio de yin.

Uma vez que são base para o yin podem não nos dizer muito acerca dos sintomas que compõem o padrão clínico.

O 6BP é o ponto de intersecção dos 3 meridianos yin da perna enquanto o 3R é um dos principais pontos para nutrir o yin do rim.

Muitas escolas consideram que em casos de vazio de yin ou vazio de yang é necessário nutrir o rim, mesmo que não se encontre no nosso diagnóstico.

Ao contrário dos pontos para nutrir o yin, os pontos para clarear o calor podem ser facultativos.

Vão depender da presença destes sintomas, da sua intensidade e da estratégia terapêutica que o acupunctor decida seguir.

Nutrir os líquidos orgânicos pode levantar outra questão.

Este princípio terapêutico envolve diferentes sintomas, desde urina escura e escassa a pele seca, o que complica a selecção de pontos que pretendemos para o protocolo.

Por seu lado os pontos que param sudação (adstringência) não levantam tantos problemas.

Para facilitar vou deixar no quadro abaixo a relação entre sintomas, princípios terapêuticos e pontos usados.

Princípios terapêuticossintomasPontos de acupunctura
Clarear o calor/nutrir o yinSensação de calorNutrir yin: 6BP, 3R
Febre vespertinaFebre: 4IG, 11IG
Nutrir líquidos orgânicosPele seca 
Boca e garganta seca6R, 22VC, 9E
obstipação6R, 6TA, 25E, 37E, 25B
Urina escassa e escura6R, 7R, 3R, 3VC, 28B
Para sudaçãoSuores nocturnos7R, 6C, 3ID, 4IG
Acalmar a menteAgitação mental e físicaYintang, anmian, 6C, 17VC, 7C, 9R, 6MC, 7MC, entre outros
insónia

O leitor deve ter reparado que não coloquei pontos para a pele seca.

Efectivamente existem pontos para tratar problemas de pele como 40B, 11IG, 4IG, 10BP, etc…

No entanto não se costuma dar grande atenção a estes pontos em padrões de vazio de yin. A combinação 6BP e 3R acaba por ser substituta.

Obviamente que, caso os problemas de pele sejam a queixa principal podemos usar os pontos mencionados.

Para já pedia ao leitor para esquecer o sintoma de pele seca e focar-se nos outros sintomas.

Reflexões finais sobre diagnóstico tradicional chinês

O diagnóstico tradicional chinês consiste numa leitura complexa de sintomas usando bases de raciocínio derivadas da matemática, filosofia e teologia natural chinesa.

No entanto uma coisa é certa: tudo parte dos sintomas do paciente e da análise que se faz dos mesmos.

Mesmo sinais clínicos relevantes, como sendo a língua e o pulso, só tem sentido quando analisados num universo de sintomas e relações causais.

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