Sistema de meridianos ou vasos longitudinais

TABELA DE CONTEÚDOS

A teoria da medicina tradicional chinesa preconiza a existência de um sistema de meridianos ou vasos longitudinais distribuído pelo corpo.

Chamo a atenção para o conceito de vasos longitudinais pois é o conceito correto. O termo meridiano foi usado erradamente para traduzir o termo chinês de vasos longitudinais.

O sistema de meridianos é diferenciados em meridianos (經脈 – jīng mai) e colaterais (絡脈 – luo mai).

Os jīng mai contêm 12 vasos longitudinais principais com um percurso externo (o mais conhecido) e outro interno, sendo que a cada um destes corresponde:

1 – 12 vasos tendino-musculares;

2 – 12 regiões cutâneas.

3 – 12 meridianos divergentes.

Além dos vasos regulares ainda existem os vasos extraordinários. Nestes encontram-se:

1 – 2 vasos com pontos próprios (vaso de concepção e vaso governador);

2 – 6 vasos constituídos por pontos dos 12 meridianos regulares;

3 – O meridiano extraordinário dai mai é o único que não tem um percurso longitudinal.

Os 12 meridianos principais e os 8 extraordinários são os mais conhecidos e são nesses que a nossa análise se vai basear.

As más traduções de Soulié de Morant

O termo meridianos é uma tradução incorreta pois o termo chinês que significa vasos longitudinais.

Esta tradução errada foi feita no início do século XX por Soulié de Morante que traduziu os vasos longitudinais regulares como meridianos mas manteve o conceito de vasos para os extraordinários.

Por isso hoje em dia dizemos “meridiano do rim” ou “meridiano do triplo aquecedor” ao mesmo tempo que dizemos “vaso governador” ou “vaso de concepção”.

Cumpre então tentar perceber o que significam os nomes destas estruturas.

Os nomes chineses do sistema de  meridianos

Quando pegamos num livro de medicina chinesa e começamos a ler os nomes chineses dos meridianos de acupuntura em chinês somos invadidos por um certo sentimento de “falta de coragem” para compreender a complexidade linguística por trás de nomes tão assustadores.

Referir nomes de meridianos de acupuntura tradicional chinesa como “zú tài yīn pí jīng” pode impressionar imensos alunos ou leigos mas não vai trazer novos amigos.

Também devo confessar que é mais fácil escrever do que dizer.

No entanto este artigo não é sobre pontuação ou sotaque mas sim sobre compreender o que realmente significam todos aqueles novos caracteres.

É mais simples do que parece e não é preciso ser nenhum Einstein para os compreender.

Comecemos a compreender os nomes chineses do sistema de meridianos de acupuntura em pequenas etapas.

Do geral para o particular

Em primeiro lugar vem o termo vaso longitudinal ou meridiano. Vasos longitudinais pois os meridianos, regra geral, são vasos com percurso longitudinal.

Neste caso fala-se sobre os meridianos regulares cujo nome é jīng. Como tal, o nome de todos os meridianos regulares acaba com jīng.

Como existem 12 meridianos/canais regulares vão existir 12 meridianos de acupuntura cujo nome vai acabar em jīng.

De seguida sabemos que alguns meridianos são chamados meridianos da perna e outros meridianos do braço.

Um meridiano do membro inferior é aquele que existe na perna, no tronco e/ou na cabeça mas não possui percurso no membro superior.

Acontece o mesmo com os meridianos do membro superior e para saber os nomes chineses dos meridianos de acupuntura é importante ter a noção desta divisão em mão e pé.

Logo o mais lógico seria especificar ainda mais a sua localização, seria dizer meridiano do braço ou meridiano da perna e é isso que os chineses fazem.

Zú significa perna ou membro inferior e shŏu significa braço ou membro superior[i].

Logo temos um meridiano de acupuntura da perna (zú  jīng) ou um meridiano de acupuntura do braço (shŏu jīng).

Se o leitor reparar, no exemplo usado, “zú tài yīn pí jīng”, existem os caracteres zú e jīng, logo falamos de um meridiano da perna.

reabilitação

A natureza do meridiano

No entanto existem 6 meridianos de acupuntura no membro inferior (zú  jīng) e 6 no membro superior (shŏu jīng).

Além de se pensar em termos de localização nos membros, para sabermos os nomes chineses dos meridianos de acupuntura, também se pensa em termos de natureza.

É de natureza yīn ou yáng?

O meridiano será descrito de acordo com as suas naturezas yīn ou yáng.

No exemplo escolhido aparece yīn, logo já temos 3 caracteres zú yīn jīng.

Sabemos, então, que é um meridiano yin da perna.

Pode ser o meridiano do baço, do fígado ou do rim, pois ainda existem 3 meridianos que precisam ser diferenciados. 

Para já ficamos com a diferenciação:

1 –  3 meridianos de acupuntura yin da perna (zú sān yīn jīng);

2 – 3 meridianos yang da perna (zú sān yáng jīng);

3 – 3 yin do membro superior (shŏu sān yīn jīng);

4 – 3 yang do membro superior (shŏu sān yáng jīng).

Estas especificações ajudam a compreender a nomenclatura dos meridianos e diferenciá-los.

De notar que adicionei o caractér sān que significa 3.

Se referisse unicamente meridianos yin do braço usaria somente shŏu yīn jīng.

Quando os chineses referem os 14 meridianos principais (12 meridianos regulares mais os 2 extra com pontos próprios – rèn mài e dū măi) escrevem shí (10) sì (4) jīng (vasos longitudinais).

Mas ainda faltam mais dados relevantes para compreendermos os nomes chineses do sistema de meridianos.

Mesmo sabendo que existem 3 meridianos yin da perna (zú sān yīn jīng) eu não consigo especificar nenhum deles.

Pares de vasos longitudinais

Os pares de vasos longitudinais no fundo referem-se a meridianos do membro inferior e superior que possuam o mesmo nome.

Isto significa que existe uma ligação no seu percurso e um universo de queixas clínicas comuns.

Por exemplo, o Triplo Aquecedor (membro superior) tem o mesmo nome que a Vesícula Biliar (membro inferior) que fica no membro inferior: Shào Yáng.

Existindo 12 meridianos é fácil concluir que existem 6 pares de meridianos com o mesmo nome.

Os seis nomes de meridianos de acupuntura que existem são:

1 – yáng míng;

2 – tài yáng;

3 – shào yáng;

4 – jué yīn;

5 – tài yīn;

6 – shăo yīn.

Como referido cada uma destas designações referem um par de meridianos.

Por exemplo, yáng míng refere-se ao par composto pelos meridianos do Intestino Grosso e do Estômago. Se prestou atenção irá reparar que a designação yīn e yáng já se encontra incluída.

É possível diferenciá-los recorrendo ao ideograma responsável pelo membro superior (Intestino Grosso – shŏu yáng míng) e membro inferior (Estômago – zú yáng míng).

Como falamos de vasos longitudinais a designação mais correcta seria:

1 – zú yáng míng jīng – vaso/meridiano da perna Estômago.

2 – shŏu yáng míng jīng – vaso/meridiano do braço Intestino Grosso

Supondo que falamos do par de meridianos tài yīn.

Este conjunto de vasos longitudinais é composto pelo meridiano do braço Pulmão e pelo meridiano da perna Baço.

Estes 2 meridianos de acupuntura formam o complexo de meridianos (jīng) tài yīn.

Sendo o meridiano do Baço localizado na perna pode chamar-se zú (perna) tài yīn jīng (vaso tài yin).

Se o leitor bem se lembra, no início deste texto dei o nome chinês de um meridiano: zú tài yīn pí jīng.

Este nome é quase idêntico ao nome a que chegámos ao longo deste artigo: zú tài yīn jīng.

A única diferença reside no ideograma pí, sendo que este ideograma significa Baço.

Não é absolutamente necessário a sua presença para se saber que meridiano se descreve.

A presença de zú tài yīn é suficiente para saber que falo do vaso longitudinal (jīng ) do Baço que se localiza na perna (zú) e é de natureza yīn.

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Origens clinicas e culturais

No sistema de meridianos, estes são descritos como canais através dos quais passa o Qi.

A questão que se coloca é: como foi desenvolvido este sistema de meridianos?

Vasos sanguíneos

O conceito de vaso que segue num percurso longitudinal ao longo de corpo com divisões entre vasos centrípetos e centrífugos e cuja função consiste em levar nutrientes e qi (ar) ao organismo parte da associação com vasos sanguíneos.

Uma das práticas iniciais da acupuntura consistia em lancetar pontos de acupuntura e provocar sangramento.

Tanto a definição de vasos longitudinais, a forma como estão construídos e técnicas de acupuntura não deixam dúvidas da importância do sistema cardio-vascular para a construção do sistema de meridianos.

Pontos locais

Em primeiro lugar vem a descoberta dos pontos de acupuntura locais.

Por vezes quando uma pessoa sente dores tem tendência para pressionar localmente e muitas vezes sente alívio quando o faz.

Os chineses passaram do simples acto de pressionar para o de inserir agulhas em alguns destes pontos.

Pontos distais

Pontos na perna que aliviam dor de estômago? Isto ajuda a explicar a razão pela qual os chineses, em determinada altura podem ter preferido o sistema de meridianos face a outras hipóteses.

Isto porque parte da premissa base para se construir este sistema partiu da necessidade de se juntarem áreas com indicações clinicas semelhantes.

Além dos pontos locais também e começou a descobrir áreas cuja estimulação conseguia tratar problemas distais ou mesmo problemas sem localização anatómica precisa (febre).

Como exemplo começaram a observar:

1 – pontos de acupuntura na mão que tratam dor de cabeça;

2 – pontos de acupuntura na perna que tratam dor de costas, etc…

O ponto 36E localiza-se na perna mas também trata problemas digestivos como dor de estômago, vómitos, dor epigástrica, etc…

Com o tempo associaram-se áreas locais que tratavam esse tipo de problemas com áreas distais.

Definiram-se essas áreas como entidades (pontos de acupuntura) e catalogaram-nas de forma a passar e manter o conhecimento das mesmas.

A necessidade de associar estas áreas em teorias coerentes levou à formação do sistema de meridianos.

Este princípio que levou à formação dos meridianos é tão importante que é a base para formulação de protocolos de acupuntura.

O princípio primordial na construção de qualquer protocolo consiste na selecção de pontos locais, distais e sintomáticos.

Outros princípios importantes como seleção de pontos do mesmo meridiano, seleção de pontos de meridianos acoplados, etc… são todos baseados nas observações clínicas que os chineses fizeram.

A complexidade de um protocolo acaba por ser uma consequência das múltiplas interacções entre pontos locais e distais de diversos meridianos.

pontos de acupuntura no ombro

IMAGEM: uso de pontos locais no ombro.

Reações à punção

Puncionando diferentes regiões do corpo é possível perceber diferentes reações.

Nos membros é muito comum uma sensação de descarga elétrica.

Com o tempo começaram a catalogar-se uma série de sensações e os seus percursos e através de algumas destas sensações começou por definir-se o percurso dos meridianos.

Por exemplo, ao punturar o 36E sente-se uma sensação de choque em direção ao pé sendo que vários pacientes referem a mesma sensação.

Logo esse deve ser o percurso do meridiano do estômago na perna.

Por outro lado, a sensação de choque elétrico é uma das sensações que caracteriza a chegada do qi, ou seja, que caracteriza a estimulação do qi no sistema de meridianos.

Ou seja, a resposta à punção ajudou a definir o percurso dos jingluo e ao mesmo tempo a definir a sensação de qi.

Análise semiológica dos sintomas álgicos

Outra fonte de dado vem da análise das doenças e sintomas do paciente.

Muitos sintomas relacionam-se com o percurso do meridiano sendo a sensação subjetiva de dor uma das mais importantes (pensem na ciática).

Estas duas abordagens podem ajudar a explicar a formação de parte do sistema de meridianos, em particular o seu percurso junto das extremidades.

Quando em 1350, os médicos Yangjie e Zangji, publicaram a sua obra mostrando a relação entre o sistema de meridianos e o sistema nervoso e vascular, não se alterou a teoria do sistema de meridianos.

Poder-se-ia ter trocado o sistema de meridianos pela teoria do sistema nervoso, pois pelo menos conseguir-se-ia observar o sistema nervoso.

Na realidade o sistema de meridianos meridianos permitia explicar muito mais coisas que os conhecimentos antigos sobre sistema nervoso ou cardio-vascular.

Se por um lado, o percurso dos meridianos nos membros, é semelhante ao do sistema nervoso, o seu percurso total é muito diferente.

E isto deve-se ao facto que muitos pontos são pensados em grupos de sintomas que parecem tratar sendo muitos desses pontos distais em relação à queixa.

Ignorância científica e filosofia

O sistema nervoso ou o sistema vascular não permitia explicar a razão de o 36E poder tratar problemas no estômago ou no Pulmão.

Não conseguia explicar a razão pela qual o 6MC aliviava vómitos ou acalmava palpitações.

O sistema de meridianos consiste, basicamente, numa teoria criada por uma cultura que não conhecia os fundamentos do funcionamento neurofisiológico ou cardiovascular.

O sistema de meridianos oferecia várias vantagens:

1 – permite explicar os sintomas do paciente;

2 – permite seleccionar pontos de acupuntura com grande eficácia;

3 – permite prever reacções ao tratamento ou possíveis sensações que o paciente possa obter.

Por outro lado existe uma particularidade na cultura chinesa. Os chineses nunca abandonam teorias antigas por novas.

Teoria da gravitação universal, o Sol no centro, evolução, abandonar o éter nunca seria possível na China.

Este fenómeno é visível na sistema de vasos longitudinais onde fenómenos fisiológicos diferentes (vasos sanguíneos, nervos e regiões de dor referida) foram associados numa teoria que conciliasse o conhecimento antigo com o novo.

vesícula biliar nervo peroneal superficial

IMAGEM: a punção de pontos na perna está associado a sensações de descargas elétricas que foram associadas à existência de um tipo de canal especifico. Por isso esses canais correspondem ao percurso dos nervos periféricos e tratam dores que afetam essas estruturas.

O Chi Kung na tentativa fútil de servir como prova

Até agora observámos como a análise dos sintomas, sensações da punctura, da análise de pontos de acordo com efeitos clínicos semelhantes e da ignorância científica levaram à criação da teoria do sistemas de meridianos.

Culturalmente, existe ainda outro factor muito importante para o reconhecimento do sistema de meridianos como uma teoria objetiva e válida.

Muitos praticantes de chi kung referem sentir o Qi ao longo do percurso dos meridianos.

A questão que se coloca é saber se essas sensações obtidas a partir da prática do chi kung correspondem a sensações objetivas ou é um simples condicionamento psicológico.

Existem vários fatores que levam a crer que é somente condicionalismo psicológico sem qualquer relevância:

Em primeiro lugar os praticantes só sentem os pontos que lhes ensinaram.

Este facto está bem evidente na incapacidade que tem de sentir pontos extraordinários que nunca lhes foram ensinados.

Em segundo lugar, os praticantes de qi gong de diferentes escolas sentem os pontos em locais diferentes tal como ensinados pelas suas escolas;

Um exemplo prático está no percurso do meridiano da Vesícula Biliar na perna.

Algumas escolas defendem que, alguns pontos deste meridiano, passam no bordo posterior do peróneo e outras escolas defendem o contrário.

Os praticantes de chi kung, de cada escola, sentirão os pontos onde lhes foram ensinados.

Em terceiro lugar sabemos que o sistema de meridianos foi sofrendo alterações significativas ao longo dos séculos.

Isto não deveria ser possível se o sistema de meridianos fosse uma entidade biológica capaz de ser percepcionada pelo terapeuta.

Em quarto lugar temos as influências culturais na construção do sistema de meridianos e dos pontos de acupuntura que os constituem.

A base do pensamento chinês é o conceito de macrocosmos-microcosmos e todas as teorias, médicas ou não, tem e partir desta noção.

Desta feita existem 12 meridianos que correspondem aso 12 rios principais da China, pois, tal como como o rio, os vasos longitudinais ligam todas as partes do corpo.

O número de pontos de acupuntura regulares não ultrapassa o número de dias do ano, ou seja, os defensores do Chi Kung estão a sentir convenções sociais.

Finalmente, a explicação dada por terapeutas aficionados do Chi Kung incompatibiliza-se com os dados clínicos que sabemos terem sido usados na criação desta teoria.

vasos longitudinais vesícula membro inferior

Construir Meridianos de Acupuntura – Vesícula Biliar

Alguns leitores ainda não estão convencidos que os vasos longitudinais são um conjunto diferenciado de diferentes fenómenos fisiológicos agregados num conjunto de parâmetros culturais próprios.

Vamos usar o vaso longitudinal da vesícula biliar como exemplo e construir-lo a partir de uma série de observações diferentes.

Existem várias observações clinicas necessárias para se construir meridianos de acupuntura, nomeadamente da vesícula biliar:

1 – pontos gatilho;

2 – trajeto da dor;

3 – resposta ao estímulo da punção (sensação de choque elétrico, por exemplo);

4 – identificação de pontos locais e distais no alívio de sintomas.

Pontos gatilho

Existem alguns pontos gatilho relevantes para se ficar a conhecer o percurso do meridiano da vesícula biliar.

Estes pontos gatilho estão localizados: trapézio, sub-occipitais, glúteo minimo, vasto lateral e no longo peroneal.

Os dois primeiros músculos são relevantes para se compreender o percurso do vaso da VB na cabeça enquanto os outros 3 são importantes para o membro inferior.

Um dos pontos gatilho no trapézio tem 2 características muito especificas:

1 – localiza-se na posição do ponto 21VB;

2 – provoca dor ao longo do percurso do meridiano da VB na cabeça passando pelo ponto 20VB.

Ou seja, pontos gatilho na área de pontos de acupuntura tendem a gerar padrões de dor idênticos ao percurso dos vasos a que esses pontos pertencem.

Isto não é uma coincidência engraçada, mas sim uma consequência dos chineses terem sido os primeiros a observar a existência de pontos gatilho e os terem introduzido no seu sistema de vasos longitudinais.

Outro ponto, o ponto 20VB costuma ter um ponto gatilho que provoca dor na região frontal a irradiar para baixo em direção ao longo.

A dor referida começa na região do 14VB e ambos os pontos são aconselhados para tratar dor nos olhos.

Se juntar as observações decorrentes destes dois pontos gatilho então é possível ter algo como o vaso longitudinal da VB na cabeça.

Obviamente que existem diferenças: os pontos gatilho não provocam nenhum percurso aos zigue zagues na cabeça e falamos na associação de pontos gatilho sub-occipitais e no trapézio.

Mas é inegável que a estrutura base do vaso é idêntica ao percurso da dor.

No membro inferior acontece exatamente a mesma coisa sendo neste segundo caso ainda mais declarada a relação do percurso do vaso longitudinal com o trajeto de dor do ponto gatilho.

No gluteo minímo, um músculo da coxa, podem surgir pontos gatilho que quando ativado desencadeiam episódios de dor no gluteo (nádegas) e ao longo de toda a face externa do membro inferior.

Tal como acontecia na cabeça, também e repete na coxa:

1 – o ponto 29VB corresponde a um ponto gatilho;

2 – este ponto gatilho tende a gerar zonas de dor referida correspondente ao percurso do vaso longitudinal.

Seguindo ao longo do vaso no membro inferior é possível encontrar outros pontos gatilho que são relevantes apesar de secundários:

1 – no vasto lateral (face lateral da coxa encontram-se imensos pontos gatilho locais que descrevem uma linha descendente na coxa);

2 – por baixo da cabeça do peróneo, no terço superior da perna, encontra-se um ponto gatilho que provoca dor no maléolo externo.

Ou seja ao longo daquele trajeto encontramos outros pontos que fortalecem o seu percurso.

Juntando todos estes pontos temos algo extremamente parecido com o percurso do vaso longitudinal da VB no membro inferior.

Resposta ao estímulo da punção

Como referimos antes, é muito comum quando se insere uma agulha de acupuntura nos membros o paciente referir uma sensação de choque elétrico.

Regra geral, esta sensação de choque elétrico deve-se à punção do nervo.

Não é de admirar, portanto que, nos membros, o percurso do sistema de vasos longitudinais seja virtualmente idêntico ao percurso do sistema nervoso.

Na vesícula biliar nota-se uma concordância grande entre o percurso do vaso longitudinal e o percurso do nervo peroneal superficial.

O ponto 41VB, por exemplo, localizado no pé é dos melhores pontos para se conseguir estimular diretamente uma das principais ramificações do nervo peroneal superficial.

construir vasos longitudinais vesicula biliar

 

IMAGEM: na imagem acima é possível ver como diferentes fenómenos fisiológicos contribuíram para a construção de um modelo que preconiza a existência de um canal não observável.

Na primeira imagem vem o ponto gatilho (estrela) na região do 29VB e a zona de dor referida que está claramente associada ao percurso desse canal.

Na 2ª imagem temos uma sobreposição do percurso desse canal com o nervo local.

Juntando estes fenómenos anátomo-fisiológicos ficamos com um meridiano.

Pontos distais no alívio de sintomas

Na imagem acima é possível observar que o número de pontos de acupuntura é superior no percurso associado a um nervo do que no percurso que não está associado ao nervo.

Os chineses perceberam que muitos destes pontos das extremidades funcionam como pontos distais para tratar sintomas viscerais (ler à frente reflexões neurofisiológicas sobre patologia dos meridianos!).

Desta forma começaram a catalogar alguns desses pontos distais com pontos locais como pertencentes ao mesmo meridiano o que será dizer que tem um tronco comum de indicações clínicas.

Assim pontos na perna como o 34VB ou 41VB foram associados com outros no tronco como 24VB para tratar dor no hipocôndrio.

Reflexões finais sobre a vesícula biliar

Obviamente que no sistema de meridianos estão bem delineadas as influências culturais.

Ou seja, o meridiano da vesícula biliar não precisa ter 44 pontos, nem aquele percurso especifico.

Se a todos nós fossem dadas as mesmas observações e a mesma dose de ignorância científica então todos definíriamos sistemas de vasos diferentes.

Nuns casos os vasos teriam os nomes de órgãos enquanto noutros não.

Para algumas pessoas seria necessário existir 12 vasos longitudinais regulares enquanto para outras tinham de ser 20.

É virtualmente impossível referir como ficariam os sistema de vasos de cada um mas é inegável que apesar das nuances culturais existem bases clinicas observacionais que os chineses usaram ao construir o sistema de meridianos.

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Sistema nervoso e sistema de meridianos

Em algumas discussões encontro acupuntores muito reticentes quanto à ligação do sistema nervoso e sistema de meridianos.

É difícil para muitas pessoas aceitar que o sistema de meridianos seja uma construção social baseada em algumas evidências a partir do sistema nervoso e outras particularidades fisiológicas.

No entanto, a quantidade de provas a favor desta ligação é esmagadora:

O percurso dos vasos nos membros é idêntico ao percurso dos nervos periféricos

De forma resumida apresento todas as ligações entre o sistema de meridianos e o sistema nervoso:

Vasos longitudinais yin do braço – shŏu sān yīn jīng

1 – coração – nervo cubital;

2 – pericárdio – nervo mediano;

3 – Pulmão – ramificação do nervo radial; dermátomo do nervo músculo-cutâneo

Vasos longitudinais yang do braço – shŏu sān yáng jīng

Intestino Delgado – nervo cubital. Menos relevante tem poucos pontos associados ao nervo sendo estes pontos os mais importantes. Por exemplo o 3ID.

Intestino grosso – ramificação do nervo radial.

Triplo Aquecedor – nervo radial.

Vasos longitudinais yin da perna – zú sān yīn jīng

Fígado – nervo perenal profundo no pé, nervo safeno na perna.

Baço – nervo safeno no pé e perna.

Rim – nervo tibial.

Vasos longitudinais yang da perna – zú sān yáng jīng

Bexiga – nervo ciático na coxa e sural na perna.

Estômago – nervo femural na coxa e peroneal profundo na perna.

Vesícula Biliar – nervo peroneal superficial na perna.

sistema de meridianos yin da perna ficado baço rim

Os pontos de acupuntura mais importantes estão localizados nos principais ramos do sistema nervoso periférico

Exemplos não faltam: 4IG, 7C, 6MC, 36E, 34VB, 40B, 30VB, etc…

De tal forma que em alguns estudos pretende provar-se a existência de pontos de acupuntura como se fossem pontos em regiões de junções neuro-musculares.

Estima-se que 70% dos principais pontos de acupuntura se encontrem por cima dos principais troncos nervosos.

de qi 

A sensação de qi é muito mais fácil obter-se nas zonas dos meridianos cujo percurso corresponde aos sistema nervoso e a própria sensação que provoca é típica do estímulo de nervos periféricos.

Os pontos de acupuntura tendem a acumular-se nas regiões onde é mais fácil puncionar o nervo

O vaso longitudinal do coração começa na axila termina no dedo anelar e é constituído por 10 pontos.

No entanto 4 pontos do meridiano encontram-se na região do pulso, exatamente onde é mais fácil punturar o nervo cubital.

Não é estranho que 40% dos pontos de um meridianos e encontrem em menos de 5% do seu percurso?

Este fenómeno é universal.

No membro superior a quantidade e relevância dos pontos é maior no antebraço que no braço pois é no antebraço que existem as maiores ligações com trajetos nervosos. 

Também é mais comum os pontos nas extremidades que se associam com sistema nervoso terem funções distais e os pontos no braço e ombro terem ações essencialmente locais (musculares).

Na coxa interna também temos outro exemplo flagrante.

Apesar da face interna da coxa ter dois meridianos de acupuntura importantes (fígado e rim) ela é extremamente pobre em pontos.

Os poucos pontos localizados lá tem uma importância marginal enquanto pontos locais e nada mais. Um dos vasos longitudinais, Rim, nem sequer tem pontos locais.

O meridiano do rim tem 27 pontos no total sendo que os 10 primeiros se encontram na perna e os restantes 17 no tronco.

Porquê a completa ausência de pontos na face interna da coxa?

O fígado tem 2 ou 3 pontos locais, num total de 14 pontos, sendo que não têm qualquer tipo de relevância.

A inervação da face interna da coxa é feita pelo nervo obturador, um nervo relativamente pequeno e difícil de punturar.

Seria muito difícil aos chineses obterem o mesmo tipo de resposta à puntura (choque elétrico por exemplo) ou resultados clínicos distais sem conseguirem punturar o nervo.

E é por esta razão que se observa uma grande pobreza em termos de pontos de acupuntura na face interna da coxa.

Dúvidas sobre tratamentos de acupuntura

IMAGEM: ponto 4IG e na face interior do braço o ponto 7C. São 2 dos pontos mais importantes e ficam sobre troncos nervosos relevantes. 4IG estimula o nervo radial e o 7C estimula o nervo cubital.

Quando as indicações clínicas ultrapassam a teoria do sistema de meridianos

Este é um exemplo flagrante da ligação entre sistema nervoso e indicações clinicas dos pontos de acupuntura.

Uma indicação clinica importante do 5C são queixas relativas aos 5 dedos, no entanto o vaso do coração segue somente pelo dedo mindinho.

A indicação do ponto compreende-se pelas diferentes ramificações para os músculos palmares do nervo cubital.

Outra está relacionada com a importância do ponto 30VB para tratar problemas no membro inferior.

Não há mais nenhum ponto que seja tão considerado e aconselhado para os mais variados sintomas do membro inferior.

Seria de esperar que fosse um ponto importante para tratar dor ao longo do vaso da vesícula Biliar mas a sua margem de ação abrange quase todo o membro inferior.

Isto deve-se ao facto de ser dos principais pontos para estímular o nervo ciático na região glutea.

As diversas ramificações do nervo ciático explicam a importância deste ponto.

Os vasos acoplados e a ligação com o sistema nervoso

fácil reconhecer que, nas extremidades, estes vasos acoplados são diferentes ramificações do mesmo nervo:

1 – coração/intestino delgado – nervo cubital;

2 – pulmão/intestino Grosso – nervo radial;

3 – Bexiga/Rim – sural/tibial;

4 – Fígado/Vesícula Biliar – nervo peroneal superficial.

Os vasos longitudinais do fígado e baço na perna

Estes 2 vasos longitudinais misturam-se na perna de forma anómala, o que é um facto estranho.

Em nenhuma parte do corpo dois meridianos se entrecruzam tanto como acontece com estes dois meridianos na perna.

Na realidade eles acabam por violar, numa perspectiva topográfica a noção de vasos longitudinais acoplados.

Por definição o baço é acoplado ao estômago e estes dois meridianos devem estar muito próximos tal como acontece na coxa.

Mas na perna é o fígado, durante parte do seu percurso a sobrepôr-se ao baço e a ficar mais próximo do estômago.

Poderia argumentar-se que é normal esta sobreposição pois temos 3 meridianos num espaço geográfico muito reduzido. E é verdade.

Mas então qual a razão que leva o meridiano do rim a afastar-se dos outros dois?

A resposta é simples: o meridiano do rim está associado ao percurso do nervo tibial enquanto os meridianos do baço e fígado estão associados ao percurso do nervo safeno.

Eles misturam-se mais porque temos dois meridianos para um único nervo.

Neste caso pode-se dizer que a necessidade dos chineses de adaptar as observações clinicas aos seus conceitos culturais de micro-macrocosmos lhes deu mais olhos que barriga.

Nervo peroneal superficial e a disputa de escolas

Para quem estuda acupuntura nota que existe uma zona do corpo que gera mais conflitos entre escolas no que concerne à localização de pontos.

Falamos da face externa da perna onde corre o meridiano da vesícula.

Em mais lugar nenhum do corpo encontramos tanta dissidência relativamente à localização de pontos de acupuntura.

Porquê?

Se os pontos se encontram por cima do sistema nervoso e se este é idêntico em todas as pessoas então deveria observar-se o mesmo tipo de estímulo e não deveria existir tanta polémica.

De notar que a polémica nem sequer se refere à localização longitudinal dos pontos mas sim à sua latitude.

Para algumas escolas determinados pontos encontram-se na face anterior do peróneo enquanto para outras os mesmos pontos se encontram na face posterior.

Porquê toda esta disparidade?

Na face externa da perna corre o nervo peroneal superficial e existem variações entre pessoas sobre a localização deste nervo.

Nalgumas pessoas, o nervo segue mais anterior ao peróneo e noutras mais posterior.

Portanto existem observações conflituantes ao longo da história sobre a puntura nestas zonas.

Como essas observações foram relevantes para se construir a teoria dos meridianos surgiu ao longos dos anos crenças diferentes acerca do percurso do meridiano.

Reflexões finais sobre a influência do sistema nervoso na construção do sistema de meridianos

O último exemplo usado pode não ser a prova incontestável que muitos prefeririam pois pode ser só uma curiosidade.

Uma coincidência estranha que o local do corpo onde existe maior variação na apresentação de um nervo seja também aquela que gera maiores guerras na localização de pontos.

No entanto todos aqueles factos juntos dificilmente podem deixar alguma dúvida. Todos os caminhos vão dar à mesma porta: o sistema nervoso.

Os meridianos enquanto construções sociais, apresentam características que:

1 – são derivadas de características do sistema nervoso;

2 – apresentam problemas que são derivados de variações observadas na anatomia humana.

E uma vez que ficou bem estabelecido a relação entre o sistema de meridianos e o sistema nervoso talvez seja altura de começar a olhar para a patologia de meridianos com novos olhos.

Considerações neurofisiológicas sobre patologia de meridianos

Atendendo a que os vasos longitudinais são formas de classificar pontos com indicações clinicas semelhantes não é de estranhar que cada meridiano tenha um conjunto de sintomas físicos e psicológicos associados.

A esse conjunto de sintomas chama-se patologia de meridianos.

Nas indicações clinicas referentes a sintomas físicos, ao longo do percurso do vaso longitudinal, existem indicações clinicas locais e distais, segmentares somáticas e viscerais.

Atendendo a tudo o que já foi escrito relativo às fontes clinicas usadas na construção deste sistema de meridianos nomeadamente:

1 – relação com sistema nervoso;

2 – uso de pontos distais e sintomáticos;

3 – uso de pontos locais e integração num modelo com pontos distais;

Não é de estranhar que existam ligação somado-viscerais entre os sintomas e os vasos longitudinais.

Os sintomas somáticos e viscerais descritos na patologia dos meridianos costumam estar associados com o percurso dos mesmos.

Nestes notam-se 2 situações:

1 – existem parte das indicações clinicas que claramente correspondem a um estímulo viscero-segmentar ou somato-segmentar;

2 – conjunto de indicações que não corresponde a estas indicações mas estão dependentes da ativação e sistema centrais.

meridiano bexiga pontos de acupuntura na perna

Efeitos segmentares viscerais

Comparando a inervação dos nervos associados aos meridianos e a corresponde função clínica dos pontos facilmente se percebe que as principais indicações clínicas são, na vasta maioria dos casos, associadas a estímulos segmentares viscerais ou somáticos.

Tomemos o vaso longitudinal do rim como exemplo:

as indicações clinicas gerais deste meridiano vão desde dor local, sintomas urinários, intestinais ou pulmonares.

O vaso longitudinal do rim na perna corresponde ao nervo tibial o que explica algumas das suas funções viscerais (sintomas urinários e intestinais) mas não explica outras indicações (pulmonares).

No entanto o que notamos é que o meridiano do rim é dos principais para tratar sintomas urinários e o meridiano do pulmão é o principal para tratar problemas pulmonares.

Ou seja quando as funções se tornam secundárias, na maioria das vezes, não correspondem aos estímulos viscero-segmentares e quando são principais correspondem aos estímulos viscero-segmentares.

Estes dados são verdade para a maioria dos sintomas viscerais descritos na patologia dos meridianos.

Por outro lado, na maioria da vezes em que se associam estes vasos longitudinais a análise semiológica mostra a existência de sintomas pulmonares associados a sintomas intestinais ou urinários, logo os pontos do rim conseguem compreender-se melhor pelos estímulos víscero-segmentares.

Um ponto importante seria compreender a forma como a combinação de pontos está construída com moldes culturais mas tendo base clínica permite associar diferentes mecanismos fisiológicos de uma forma que não é de todo visível nos exemplos dados acima.

Efeitos centrais para problemas psicológicos

As indicações clinicas de foro psicológico como ansiedade, insónia ou stress não estão tão dependentes do percurso do meridiano.

Na realidade todos os meridianos possuem pontos para tratar sintomas de foro psicológico (ansiedade, psicose, insónia, etc…)

Os pontos mais importantes para tratar estes sintomas estão associados a regiões onde o percurso do vaso longitudinal corresponde com o percurso dos principais trajetos nervosos e onde é mais fácil puncionar o nervo.

Estas diferenças indicam que os efeitos da acupuntura para problemas psicológicos estão relacionadas com um mecanismo central idêntico para todos os pontos e vasos longitudinais desencadeado pelo estímulo percutâneo nervoso.

Ao contrário das queixas somáticas ou viscerais não está dependente de vias segmentares.

O facto de ser uma mecanismo central indica que provavelmente toda a retórica associada à combinação e classificação de pontos é inútil. Basta estimular nervos periféricos.

satisfação profissional autonomia

Efeitos segmentares somáticos

Inicialmente os estímulos somáticos podem representar um desafio maior uma vez que quando pensamos numa abordagem em termos de sistema nervoso está subjacente uma abordagem que parte do centro para a periferia e quando pensamos em termos de meridianos está subjacente uma abordagem centro-periferia e periferia-centro.

Por exemplo as ações do ponto 60B na cervicalgia ou enquanto ponto análgico geral não se podem explicar via percurso do nervo porque não existe nenhum nervo que ligue a região do maléolo externo (no pé) à cervical.

Neste tipo de casos os protocolos tradicionais parecem usar os mecanismos neurofisiológicos da seguinte forma:

1 – pontos locais (mais importantes) que promovem alterações locais em termos de percepção de dor, alterações de vascularização e temperatura, relaxamento muscular, etc…;

2 – pontos distais que na maioria das vezes se encontram nos principais trajetos nervosos promovendo a libertação de endorfinas e outros mecanismos centrais decorrentes do estímulo dos nervos periféricos (potenciando a ação dos pontos locais).

Quando pensamos na teoria dos meridianos pensada em termos de estímulo somático centro-periferia nota-se que existe uma diferença com o sistema nervoso.

Isto limita a abordagem clinica da teoria dos meridianos no tratamento de queixas neurofisiológicas.

Apesar desta limitação, é evidente a importância dos estímulos somático-segmentares nas indicações clínicas dos pontos e na construção da teoria dos vasos longitudinais.

Contra-argumentar estas ideias

Existem pontos cujas indicações clinicas não se encaixam nesta tese. Por exemplo:

1 – pontos shu das costas para sintomas específicos como o 18B para problemas oculares;

2 – pontos extraordinários no braço para tratar hemorróides.

Nestes casos não falamos nem de estímulos segmentares viscerais ou somáticos e também não existe nenhum mecanismo central que explique estas ações.

No entanto, existem pormenores associados a estes pontos:

1 – em alguns casos violam a própria teoria tradicional. Por exemplo o ponto extra no braço para tratar hemorróides não é acompanhado por mais nenhum ponto local. 

Está completamente desfasado e é um ponto secundário.

2 – alguns pontos tem mais como funções oferecer informação acerca do protocolo do que um efeito clinico mensurável como acontece com muitas indicações clínicas de pontos seu das costas.

Na maioria das vezes estes pontos não são os principais e tem um valor mais informativo e lógico do que clínico. 

anatomia braço

Consequências desta tese

Se os efeitos da acupuntura a nível psicológico estão dependentes de mecanismos neurofisiológicos decorrentes do estímulo do nervo qual a lógica de estudar tantos acupontos diferenciados?

Seria mais simples recorrer a técnicas simples de neuromodelação periférica estimulando diferentes nervos do que aprender centenas de pontos com milhares de combinações possíveis.

O estímulo segmento-visceral implica que conhecer as diferentes ramificações segmentares do sistema nervoso permite prescindir da maioria das teorias de acupuntura chinesa e dos pontos tal como são usados hoje em dia.

Em vez de um sistema de meridianos mais complexo seria mais útil saber associar efeitos locais segmentares vs distais centrais e ter um conhecimento mais aprofundado do percurso dos nervos, miótomos e dermátomos associados.

Limitações músculo-esqueléticas do raciocínio tradicional

Para conhecer as verdadeiras limitações dos vasos longitudinais no tratamento de problemas músculo-esqueléticos precisamos relembrar vários factos:

1 – o sistema de meridianos não foi feito a pensar no sistema nervoso, apesar deste ser essencial na construção dos vasos;

2 – tradicionalmente os chineses nunca se preocuparam com músculos e nervos, biomecânica ou algo semelhante;

3 – muitas das necessidades clinicas associadas à construção dos vasos longitudinais prendia-se com dores viscerais;

4 – a cultura chinesa tem características próprias que a impossibilitaram e romper com paradigmas antigos e criar novos.

Isto implica que:

1 – os meridianos tem uma aplicação clínica periferia-centro mas os problemas músculo esqueléticos tratam-se melhor com uma abordagem centro-periferia.

2 – o raciocínio clínico tradicional tem dificuldade em sair de vasos longitudinais.

Neuromodelação periférica e acupuntura tradicional

Isto gera 2 correntes de pensamento diferenciadas:

1 – neuromodelação periférica: técnica de acupuntura contemporânea que não recorre a teorias tradicionais e se foca na neurofisiologia humana.

2 – acupuntura tradicional: focada no conhecimento das teorias da medicina chinesa e uso dos vasos longitudinais para compreender processos patológicos neurofisiológicos.

A diferença entre estas 2 variantes não é tão demagógica como alguns gostariam de pensar e dos vários exemplos clínicos possíveis gostaria de salientar um.

Dormência entre o 1º e 2º dedo do pé

A dormência ou sensação de queimadura entre o 1º (dedo grande) e 2º dedos do pé é uma das sensações que qualquer pessoa pode vir a ter.

Em termos de análise tradicional, esta é a área do vaso longitudinal do fígado. Para tratar sintomas desta área poderia usar:

1 – pontos locais: 2F, 3F

2 – pontos distais do mesmo vaso ou de vasos acoplados: 34VB.

3 – pontos próximas que possam potencializar a ação dos locais como o 6BP que é o ponto de reunião dos 3 yin da perna.

Nesta fase muitos acupuntores ocidentais vão começar a pensar em “síndromes energéticos” e “regular as energias” e começarão a pensar em pontos no tronco (pensamento periferia-centro lembram-se?!).

Pontos como 14F, 18B, 24VB vão começar a chamar a atenção.

No final temos protocolos do género: 2F, 3F, 6BP, 34VB, 14F, 18B.

Qual o problema deste protocolo?

A zona afetada corresponde ao percurso do meridiano do fígado que segue ao longo da face interna da perna.

No entanto o nervo responsável pela enervação cutânea daquela região é o nervo peroneal profundo… o mesmo que descreve o percurso do vaso do estômago na perna.

Por seu lado este nervo é uma ramificação do nervo ciático, ou seja, e pensando numa unicamente em termos neurofisiológicos, precisamos de uma abordagem centro-periferia.

Neste caso começaria nas raizes nervosas junto da coluna, seguiria pelo nervo ciático, passando pelo nervo peroneal profundo até chegar à zona de enervação cutânea afetada.

Traduzindo isto num protocolo de acupuntura tradicional ficaria: jiaji, 30VB, 38B, 36E, 40E, 3F.

Outro problema é que pela abordagem tradicional o acupuntor nunca saberia em que regiões fazer estímulo profundo ou estímulo superficial para estímulo do dermátomo correspondente.

Mas pela abordagem neurofisiológica essa diferença é evidente.

O desejo da sabedoria antiga: entre inovações e analogias

Ultimamente fala-se muito da associação entre fascia e vasos longitudinais.

Poderá a fascia ser a base anatómica do sistema de vasos longitudinais desenvolvido pelos chineses ao longo de milhares de anos?

Poderá a acupuntura chinesa conhecer um novo revivalismo com o estudo da fascia humana e a sua relevância clinica?

Existe um desejo constante de descobrirmos algo novo sobre o corpo que comprove a sabedoria dos nossos antepassados.

Quando olhamos para a história vemos que todas as décadas surgem novas modas, novos conhecimentos e que todos eles supostamente se adaptam ao sistema de meridianos.

Se assim é porque deixaram de ser relevantes?

O que diferencia a fascia para a acupuntura chinesa de outras estruturas anatómicas como o sistema nervoso?

Isótopos radioativos e sistema nervoso

Nos anos 80 estava na moda usar-se a medicina nuclear para tentar provar a existência do sistema de meridianos.

Apesar da ligação mais que evidente entre sistema nervoso e sistema de meridianos não existe nenhuma estrutura anatómica que corresponda na totalidade aos vasos longitudinais.

Então começou a injectar-se tecnécio em pontos de acupuntura para se tentar mapear o percurso dos vasos longitudinais.

E numa fase inicial começou a notar-se uma correspondência grande entre os estudos, os gráficos topográficos de acupuntura e… o sistema nervoso.

A ligação entre sistema de meridianos e sistema nervoso era cada vez maior.

topografia pontos de acupuntura

Acupuntura e pontos gatilho

Nos anos 70 começou a falar-se da associação de pontos gatilho e acupuntura através dos trabalhos de Simon e Travells.

No final dos anos 90 e principio de 2000 surgiram cursos e artigos a associar a acupuntura chinesa com pontos gatilho.

Era comum descobrirem-se pontos gatilho que correspondiam à localização de pontos de acupuntura tradicional e mais importante… o seu trajeto de dor referida correspondia ao percurso do meridiano.

Estas observações colmatavam muitas das falhas existentes entre o sistema nervoso e a teoria dos vasos longitudinais.

Essas associações acabaram com duas correntes:

1 – uma mais cientifica que culminou com o tratamento dos pontos gatilho com a nova denominação da moda “punção seca” a substituir a acupuntura (credibilidade pela demagogia);

2 – outra mais tradicionalista onde os pontos gatilho eram tratados como pontos ashi (mais uma forma de credibilidade pela demagogia) na acupuntura tradicional chinesa.

Acupuntura e fascia

Agora é a vez da fascia.

De um momento para o outro parece que as associações encontradas entre o sistema de meridianos e sistema nervoso já não tem relevância.

O vaso do rim é o percurso do nervo tibial mas de alguma forma essa simples associação visual saiu de moda.

O 21VB está localizado na área de um ponto gatilho cujo percurso de dor na cabeça corresponde ao percurso da vesícula biliar na cabeça. Mas de alguma forma isso perdeu relevância.

Descobrimos que afinal os meridianos tem uma base anatómica e essa base é a fascia.

Entrevistas com fisioterapeutas importantes como Luiggi Stecco, criador do método Fascial Manipulation falam abertamente da associação da fascia com os vasos longitudinais da acupuntura chinesa.

E existem associações muito interessantes entre linhas fasciais do membro superior e os respetivos meridianos.

O que falha então nesta associação?

As analogias anatómicas com a fascia sofrem dos mesmos problemas que sofriam as comparações com o sistema nervoso e os pontos gatilho.

Existem algumas correspondências à primeira vista que não conseguem esconder as múltiplas desigualdades numa observação mais cuidada e nenhuma delas consegue adequar-se a 100% ao percurso dos vasos longitudinais.

pontos de acupuntura no ombro

A fascia e o sistema nervoso

A fascia apresenta vantagens comparativas com o sistema nervoso pois a semelhança do seu percurso não está limitada a uma parte dos membros. Essa é uma grande vantagem anatómica.

Mas a fascia está rodeada de incertezas que o sistema nervoso não tem pois o percurso do sistema nervoso é bem conhecido mas as principais rotas fasciais são muito discutidas.

A vantagem longitudinal que a fascia apresenta nas comparações com o sistema de meridianos perde-as na incerteza do seu percurso ou da sua descrição e é muita incerteza.

Muita diferença para se afirmar tão categoricamente que é a base anatómica do sistema de meridianos.

Entre influências clinicas e subversões culturais

Os meridjanos receberam várias influencias clinicas mas todas elas foram enquadradas em teorias definidas por moldes culturais muito especificos.

As primeiras descrições de pontos gatilho encontram-se na literatura chinesa mas nao há nenhuma teorização dos fenómenos fora do contexto dos meridianos.

Existem observações clinicas na construção da teoria dos meridianos e por issos e compreende que nas mesmas teorias se consigam encontram paralelismos com sistema nervoso, pontos gatilho ou fascia.

Mas a teoria dos meridianos é, em última análise uma construção social definida por modles filosófico e não anatomo-fisiológicos.

Os 12 meridianos de acupuntura correspondem aos 12 principais rios… ou seja os vasos longitudinais representam os principais percursos do corpo humano que serve de analogia para o império chinês.

O número de dias do ano foi usado para definir o número de pontos de acupuntura que pertencem ao sistema de meridianos.

Por outras palavras as múltiplas observações clínicas usadas para construir o sistema de vasos longitudinais foram sujeitas a uma interpretação filosófica desfasada da realidade clinica.

A maior subversão cultural está ainda na leitura ocidental desses vasos longitudinais que passaram a ser erradamente conhecidos como meridianos que transportam uma qualquer espécie de “energia” totalmente desconhecida pelos chineses.

O conceito de vaso está ligado a uma das primeiras estruturas anatómicas usadas para construir o sistema de meridianos… os vasos sanguíneos.

O desconhecimento da cultura e história chinesa continua a fazer-nos perder tempo com analogias simplistas e em última instância erradas.

Os ocidentais tentam a todo o custo associar uma qualquer inovação a um conhecimento milenar.

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