Orientação da DGS para a pandemia do COVID-19

Recentemente foi publicada a orientação da DGS sobre as alterações necessárias para nos adaptarmos ao COVID-19. Nesse sentido, neste artigo procuro explicar quais são e a forma como me estou a adaptar às mesmas.

Certamente que para mim o problema tem sido onde estabelecer a fronteira entre tomar medidas coerentes e responsável ou tomar medidas excessivas baseadas no medo pois é minha opinião que a irracionalidade nunca ajudou ninguêm.

No mundo da acupuntura, onde no passado, as técnicas asséticas nem sempre são bem vindas, o COVID-19 poderá ser um fator de transição para a adoção de um conjunto de atitudes mais corretas por parte dos acupuntores.

Antes de tudo é preciso diferenciar que a prática da acupuntura e da osteopatia são práticas de risco baixo ao contrário do que acontece com outras áreas como a medicina dentária. Existem pequenas condicionantes, tanto na osteopatia quanto na acupuntura, que certamente, podem aumentar o risco mas, regra geral, são práticas de baixo risco pois não geram aerossois.

Em segundo lugar existem pequenas orientações da DGS que ajudam a diminuir ainda mais o risco na clinica de acupuntura.

O contacto direto e indireto

Primeiramente é importante ter consciência das formas de contacto do COVID-19 de forma a conseguir ter mais consciência dos reais perigos ou da melhor forma de proteção. As 2 formas de contacto são a direta via gotículas no ar e a via indireta através do toque em superficies contaminadas.

As gotículas no ar tornam-se mais propensas a infetar outras pessoas se o paciente tossir na sala e esta não se encontrar devidamente ventilada. Assim sendo se comunicarmos ao paciente que deve desmarcar a consulta caso apareçam sintomas agudos como tosse
e se ventilarmos corretamente o gabinete, então, a probabilidade torna-se minimo.

Por outro lado o contacto indireto é feito via toque em superficies contaminadas seguido do contacto com mucosas como boca ou nariz. Pequenas estratégias como diminuir o contacto do paciente com o máximo de superficies, desinfetar corretamente superficies em contacto permanente com o paciente (marquesa por exemplo) e proteger as mãos (luvas em alguns procedimentos) assim como a desinfeção regular ajudam a minimizar ainda mais este risco.

Inegavelmente, estas estratégias garantem uma proteção elevada num ambiente de risco minimo.

lado da cortina cortisona

Adaptação à orientação da DGS por causa do COVID-19

Antes de mais é de salientar que fica muito mais fácil para um pequeno gabinete como o meu, adaptar-se a estas medidas do que uma grande clinica. De maneira idêntica muitos colegas acupuntores e osteopatas que trabalhem nos mesmos moldes sentirão maior facilidade.

Apesar de existirem mais complicações em clinicas maiores também existe uma estrutura diferente capaz de atuar de forma mais complexa.

Atualmente a maioria das medidas mais importantes exigidas já eram realizadas por mim e o baixo número de trabalhadores (eu próprio) limita os problemas em definir o espaço que cada um pode frequentar, o tipo de tarefas de cada empregado, etc…

Eu já fazia marcações por telefone, já usava muitas medidas de assépsia preconizadas, já tinha o hábito de limpar e arejar o gabinete, etc

Mesmo assim existem pequenas adaptações: mais espaço entre consultas, mais comunicação com os pacientes na marcação de consultas, maior frequência na higienização do gabinete, mais proteções, etc…

O meu maior problema não tem sido criar condições de segurança para mim e para o meu paciente mas sim em tentar definir qual o tipo de investimento que devo fazer para não ter qualquer problema numa fiscalização. Uma viseira pode ser completamente inútil para o tipo de trabalho que faço mas se a presença da viseira sossegar algum inspetor mais preocupado?!…

Nesse sentido eu irei definir nas próximas linhas cuidados e procedimentos a ter antes, durante e após sendo que a maioria dos procedimentos após a consulta são um remake dos procedimentos antes da consulta.

Procedimentos antes da consulta

1 – Antes de mais é aconselhado marcar consultas pelo telefone e evitar marcações diretas na clinica.
Como eu já fazia as minhas marcações e só atendo por marcação este problema fica resolvido logo de imediato. Regra geral somente está no gabinete quem vem para tratamento.

Existem diferenças na comunicação do paciente: antes informava do preço, forma de pagamento, avisos da clinica relativamente às consultas, etc… Atualmente temos de inquirir sobre a presença de sintomas respiratórios agudos ou febre. Saber se esteve em contacto com alguêm infetado ou se esteve infetado e se sim se cumpriu os 14 dias de isolamento.

Na presença de alguns destes sintomas devemos evitar atender estes pacientes e reencaminhá-los para SNS24. Assim diminui-se ainda mais o perigo de contágio. No entanto, caso seja imperioso serem tratados, os pacientes devem ser reencaminhados para o final do dia quando a possibilidade de cruzamento com outros pacientes é menor.

2 – Desaconselhar a presença de acompanhante a não ser que seja necessário (menores de idade, pacientes com limitações).

3 – Informar sobre a necessidade de trazer a própria máscara ou ter uma máscara cirurgica disponível para o paciente.

orientação da DGS covid-19

Durante a consulta

1 – Limitar ao máximo a necessidade do paciente tocar em portas, maçanetas ou outras estruturas. Desinfetar e proteger as maçanetas mais manipuladas podem ser algumas das estratégias de segurança.

2 – A osteopatia apresenta 2 técnicas que podem aumentar o risco sendo elas algumas técnicas neurodinâmicas aplicadas aos pares cranianos em que é necessário colocar a mão dentro da boca do paciente e técnicas de reckoiling e libertação diafragmática em que o paciente tem de fazer inspirações e expiração mais vigorosas.

As neurodinâmicas devem ser feitas sempre de luvas. Existe um contacto muito controlado com as mucosas do pacientes em algumas neurodinâmicas (ouvido e boca) e o terapeuta está sempre protegido. Como a seguir às neurodinâmicas costumo fazer acupuntura o que faço é trocard e luvas entre procedimentos para garantir que a saliva do paciente não entra em contacto com nenhuma superficie de trabalho. Não existe perigo de produção de aerossois nesta técnica.

Depois temos técnicas de reckoiling e outras que podem exigir ao paciente fazer inspirações e expirações forçadas. Nesse caso peço ao paciente que use a sua máscara durante o procedimento. Não impede a aplicação da técnica e controla o impacto dispersor de expirações mais fortes.

3 – A acupuntura não vai exigie muitos cuidados adicionais a quem já praticava bons cuidados de assépsia. A orientação da DGS recomenda que em intervenções mais perigosas se usem 2 pares de luvas. Pode pensar-se nisso durante a acupuntura mas face ao baixo risco e à segurança do procedimento e pequenos efeitos secundários muito controlados e limitados não vejo necessidade de cuidados adicionais.

A acupuntura deve ser feita de luvas, a pele deve ser desinfetada, a remoção de agulhas deve ser feita com algodão; dar tempo para ver se não sangra e caso exista algum pequeno sangramento pressionar localmente durante 1 minuto.

Após a consulta

1 – Facilitar formas de pagamento sem contacto. Na clinica usamos MBWay ou dinheiro.

2 – Desinfetar o gabinete dando mais atenção às superficies de contacto permanente com o paciente.

3 – Deixar respirar: muito importante. Um estudo no Japão mostrou que poucos minutos com a janela aberta eliminava por completo gotículas contaminadas do ar. A orientação da DGS chama a atenção para este ponto várias vezes e é, sem dúvida, muito relevante.

Equipamentos de proteção individual

Antes do covid eu usava uma túnica, pois adapta-se melhor ao trabalho osteopático e os procedimentos invasivos eram feitos com luvas.

Atualmente a orientação da DGS por causa do COVID-19 pede, exige ou aconselha fortemente (ainda não se percebeu) o uso de touca, máscara, óculos ou viseira, avental e proteção de sapatos.

Fica dificil perceber a fronteira entre uma prática segura ou um excesso de zelo baseado no medo face à percepção de baixo risco existente nestas áreas.

De qualquer forma, mesmo achando necessários ou exagerados algumas orientações, é preferível usá-los a sofrer uma fiscalização e dar espaço para conflitos com entidades reguladoras.

Eu já adquiri esses equipamentos de proteção individual e espero usá-los da seguinte forma:

Máscara dentro da clinica, em especial, no contacto mais próximo com o paciente.

Viseira e touca em alturas de maior proximidade com o paciente. No entanto parece-me que os óculos seriam preferíveis para trabalho de maior proximidade como a osteopatia.

Túnica de manga curta protegida por avental – braços desprotegidos que serão desinfetados após cada contacto

Proteção de sapatos para andar na clinica.

E sem esquecer o creme para as mãos porque desinfetar constantmente as mãos para quem tem a pele seca torna-se um martírio.

A única coisa que alterei foi a forma de proteção da marquesa. Se antes usava 2 protetores, atualmente uso só um na maioria dos pacientes. Desta forma foco os cuidados em material que é eliminado entre cada consulta e procedimentos que falicitam a desinfeção da marquesa ao mesmo tempo que poupo recursos financeiros para outros equipamentos.

novos acupuntores

Orientação da DGS sobre COVID-19: pensamentos finais

Estes são alguns pensamentos baseados na orientação da DGS sobre o COVID-19.

Em suma parece-me que a orientação da DGS para nos protegermos do COVID-19 está muito bem pensada e ponderada.

Os pontos mais importantes para mim são uma linguagem clara com o paciente a explicar os procedimentos; arejar o gabinete em todas as consultas; desinfetar superficies que tem maior contacto com o paciente e algumas técnicas de EPI em determinada circunstâncias.

E para o leitor, considera a orientação da DGS bem feita e adaptada às circunstâncias atuais? O que adaptou na sua prática clinica?