Medicina Tradicional Chinesa

Medicina Tradicional Chinesa

5 questões base

A Medicina Tradicional Chinesa ou MTC refere-se a uma prática médica que acompanhou a cultura chinesa ao longo de milhares de anos de história.

A Medicina Tradicional Chinesa encontra-se na base de todas as outras medicinas orientais onde se inclui a Medicina Japonesa e a Medicina Coreana.

Apesar de terem diferenças, a base foi toda retirada da Medicina Chinesa.

Em que consiste a Medicina Tradicional Chinesa?

A Medicina Tradicional Chinesa consiste num conjunto de práticas de base teórica filosófica e fisiológica.

Fisiológica porque todo o seu raciocínio está feito de forma a estudar ou a entender a forma como os diferentes sintomas se relacionam.

Filosófica porque toda a leitura feita tem de obedecer a determinados princípios da filosofia e cultura chinesas.

Como se desenvolveu?

Esta forma de terapia tradicional começou como uma prática xamânica e os seus caracteres ainda contêm os radicais relacionados com essa prática.

Muitos dos seus conceitos atuais como mente (shen) ou vento (feng) tinham significados religiosos e esotéricos. Assim Shen representava espíritos e Vento (feng) era a base da demonologia chinesa.

Com o tempo os chineses abandonaram as crenças xamânicas mas mantiveram os seus conceitos.

Desta forma Shen passou a ser mente com função puramente psicológica (alguns autores ainda lhe chamam mente-espírito).

Da mesma maneira Vento (feng) deixou de ser um demónio e passou a ser um padrão, ou seja, uma forma de classificar sintomas.

É importante entender que a cultura chinesa não tem por hábito abandonar o conhecimento dos seus antepassados, sendo mais comum adaptar e desenvolver esse conhecimento.

A Medicina Tradicional Chinesa desenvolveu-se a partir de um imenso conjunto de experiências e observações clinicas.

A leitura cultural dessas observações ditou os parâmetros nos quais a medicina chinesa está moldada.

Como é feito o diagnóstico em medicina chinesa?

O diagnóstico é feito tendo em conta vários parâmetros como

1 – observação da queixa e do paciente (pele vermelha, observação do estado de espírito do paciente, observação da língua, etc…),

2 – palpação (pele, zona de dor com grande tensão, palpação do pulso, etc…),

3 – interrogatório (para ajudar a fazer a história clinica);

4 – cheiro\auscultação.

Ao conjunto de dados extraídos pelos chamados 4 métodos de diagnóstico (observação, palpação, interrogatório, auscultação) é feita uma análise baseada em determinados parâmetros culturais, que permite chegar ao diagnóstico.

Por exemplo, um paciente pode apresentar grande instabilidade emocional, vómitos agravados com irritabilidade e pulso tenso.

Associando os sintomas e sinais clínicos a medicina chinesa diagnostica um padrão de estagnação de qi do fígado que agride o estômago.

Os sintomas do paciente são classificados em duas categorias diferentes: sintomas gerais e sintomas de órgão.

É a existência destes sintomas e a relação causal entre eles que permitem ao terapeuta de Medicina Tradicional Chinesa fazer o diagnóstico.

Quais as suas terapêuticas?

As terapias mais usadas por esta forma de terapia consistem na acupuntura, fitoterapia onde se inclui a dietética, massagem e qi gong.

Acupuntura e Moxabustão

A acupuntura consiste numa série de práticas sendo a mais conhecida a inserção de agulhas filiformes na pele mas não só.

Em chinês acupuntura é representada pelo ideograma zhenjiu que significa agulha e fogo. Ou seja a prática de aquecer, moxibustão, faz parte da acupuntura.

Matéria Médica

Fitoterapia está relacionado com o uso de plantas com valor medicinal mas o nome não é o mais correto.

O termos mais correto seria matéria médica pois não são usadas somente plantas com valor medicinal mas também minerais e partes de animais.

Na literatura técnica é mais comum ler-se matéria médica enquanto na literatura mais leiga é comum ler-se fitoterapia pois este termo é mais conhecido das pessoas.

A dietética é uma parte da matéria médica (fitoterapia) e consiste no uso de determinados produtos de origem animal ou vegetal na alimentação diária.

Técnicas Manuais e Tui Na

A massagem engloba tanto a massagem como manipulações, sendo uma área com um desenvolvimento grande na China.

No fundo consistem numa série de técnicas manuais que visam complementar os outros tratamentos de medicina chinesa.

Qi Gong ou Chi Kung

O qi gong de todos os tratamentos é o mais marginalizado nas universidades chinesas pois tanto pode ser visto como terapêutico como pode ser um simples desporto.

Não se ensina futebol nas universidades de medicina só porque faz bem à saúde.

O qi gong também está associado a práticas e crenças esotéricas que não tem muito espaço nos meios académicos.

A medicina chinesa é compatível com a medicina ocidental?

Regra geral sim, mas existem dois fatores importantes a ter em consideração como são as terapêuticas a usar e a qualidade dos profissionais.

Algumas terapêuticas como a acupuntura não se incompatibilizam com as práticas da medicina ocidental.

Pelo contrário, podem ser usadas para potencializar muitos tratamentos da medicina ocidental ou até para evitar alguns tratamentos mais agressivos (cirurgias em hérnias, por exemplo).

No entanto a fitoterapia já se pode incompatibilizar com a prescrição de medicamentos sendo necessário cuidado e responsabilidade a tomar ou a prescrever os fitoterápicos.

Infelizmente no ocidente a maioria das formações são muito fracas e existem muitas crenças esotéricas associadas às mesmas o que faz com que seja necessário cuidado com muitos profissionais que se vendem como especialistas em medicina chinesa.

A falta de regulamentação ajuda a manter uma situação mais ou menos caótica na área.

Tratar com medicina tradicional chinesa 9 doenças ou sintomas

Neste parte do artigo indico algumas doenças ou sintomas que respondem muito bem à acupunctura e fitoterapia e as quais os pacientes deviam tratar com medicina tradicional chinesa.

Não perca esta pequena lista de patologias e doenças a tratar com medicina chinesa.

Paralisia facial

Acupuntura elétrica deveria ser um dos tratamentos de eleição para a paralisia facial periférica.

Infelizmente não é um tratamento para todos os pacientes pois alguns tem fobia a agulhas.

No entanto a acupuntura elétrica melhora a resposta do paciente ao estímulo ativo dos músculos faciais fazendo com que os pacientes recuperem muito mais rapidamente.

De notar que o principal tratamento é o exercício físico e que existem alguns perigos associados ao uso d e técnicas invasivas na paralisia pelo que deve falar com o seu acupuntor.

Síndrome intestino irritável

Neste caso a acupuntura seria um tratamento complementar à fitoterapia chinesa pois apresenta resultados muito bons no tratamento da dor e no alivio de algumas queixas como diarreia.

As técnicas de harmonização autonómica, aplicadas pelos nossos terapeutas, tem apresentado resultados muito interessantes nos nossos doentes.

No entanto se quer ter resultados rápidos e duradoures precisa tomar fitoterapia.

A fitoterapia chinesa deveria ser um tratamento de eleição para pacientes com síndrome do intestino irritável.

Artroses

Tratamentos muito simples de acupuntura obtêm resultados excelentes no alívio da dor, na diminuição de processos inflamatórios e, em alguns casos, numa maior amplitude de movimento.

Esta técnica invasiva não cura as artroses mas oferece uma melhoria significativa na qualidade de vida aos pacientes.

mitos da acupuntura

Artrite reumatóide

Certamente que não responde tão bem à acupuntura como as artroses.

Na maioria dos casos vai ser necessária acupuntura elétrica e resultados clínicos sólidos exigem um acupunturista com bons conhecimentos e prática clinica.

Na presença de um acupuntor com estas caracteristicas é possível aliviar dor e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.

Fatores como idade, peso ou medicação podem ser condicionantes na resposta ao tratamento da artrite reumatóide.

A fitoterapia pode ser usada juntamente com a acupuntura sendo que obtêm resultados muito bons no alivio da dor e na melhoria da qualidade de vida.

Nos pacientes com Artrite Reumatóide a prescrição da fitoterapia deve ser feita com cuidado pois alguns pacientes são muito medicados.

Se tiver alguma dúvida pode contactar os nossos terapeutas.

Sinusite

O principal tratamento para o alívio da sinusite, em medicina chinesa, é a fitoterapia.

A acupuntura na sinuiste tem grande utilidade auxiliando no alívio de sintomas como congestão nasal e em particular no alívio da dor provocada pela sinusite.

Ciática

As ciatalgias respondem muito bem aos tratamentos de acupuntura, especialmente acupuntura elétrica ou eletrólise percutânea.

As várias etiologias da dor ciática como hérnia, estenose da canal, síndrome do piramidal, inflamação do nervo, respondem positivamente a técnicas mais avançadas de eletroneuromodelação periférica.

A fitoterapia é um complemento excelente no alívio da dor ciática mas neste caso a fitoterapia é dirigida para o padrão clinico que provoca a dor (estase de sangue, humidade-frio, humidade-calor, etc…).

Cervico-braquialgia

As cervicobraquialgias caracterizam-se por dor, dormência e alteração de movimento no membro superior e pescoço.

Tal como nas ciatalgias tratar com medicina chinesa as cervico-braquialgias é aposta ganha especialmente com acupuntura.

Técnicas invasivas secas tem resultados excelentes no alívio de dor, dormência e alteração de mobilidade nas cervico-braquialgias.

Tal como nas ciatalgias a fitoterapia é um complemento excelente aos tratamentos das técnicas invasivas.
crenças inúteis na acupuntura moderna

Insónia

Diferentes causas da insónia poderão condicionar a resposta aos tratamentos de medicina chinesa.

No entanto tratar com medicina chinesa a insónia é uma aposta quase ganha sendo que tanto a acupuntura como a fitoterapia obtêm resultados muito satisfatórios no alívio de alterações do padrão de sono normal.

Técnicas invasivas de harmonização autonómica tem resultados muito satisfatórios no alívio da insónia.

Depressão leve e moderada

Depressão major não responde a tratamentos de acupuntura.

No entanto existem estudos a indicar respostas muito boas em pacientes com depressão leve a moderada.

Desafios da Medicina Tradicional Chinesa no Ocidente

Existem vários desafios na medicina tradicional chinesa no ocidente.

Estes desafios na medicina tradicional chinesa são provocados por interesses financeiros, lobbies, crenças religiosas, entre outros.

Os desafios na medicina tradicional chinesa são tanto externos (outros profissionais de saúde, falta de regulamentação) como internos (uma classe profissional com muito fraca qualidade técnica e científica, ausência de criatividade e inovação, etc…) sendo estes últimos os maiores desafios.

Os carreiristas

Neste caso a grande referencia será a Ordem dos médicos.

A sua critica constante à presença de elementos filosóficos na medicina chinesa é correta e muito bem colocada, pois muitas vezes esses elementos filosóficos são desfasados de prática clinica.

As suas denúncias dos misticismos infantis e falta de conhecimento científico da maioria dos especialistas de medicina chinesa também é correta.

O problema das críticas da Ordem dos médicos é que são feitas unicamente à luz da sua noção de hierarquia social.

Ou seja não existe, na realidade, uma postura científica e isenta de interesses relacionados com classes sociais.

A questão final não é se a acupunctura é científica mas sim quem a pode exercer e em que condições.

Da mesma forma que a Ordem dos Médicos critica a medicina tradicional chinesa pelas suas componente filosóficas apoia a Sociedade Portuguesa de Acupuntura Médica que baseia parte do seu tratamento nos mesmos fundamentos filosóficos.

Os energéticos

O maior desafio e, pelo menos em Portugal, uma das principais razões pelas quais ainda não se encontra regulamentada a acupuntura.

Nesta classe estão incluídos basicamente todas as instituições de ensino de medicina tradicional chinesa em Portugal.

Todo o Ocidente enferma deste tipo de manipulações dos conceitos base da medicina tradicional chinesa.

A medicina chinesa é vista como uma medicina “energética” e O Qi traduz-se como “energia” e qualquer paciente que surja na clínica sofre de síndromes “energéticos”.

É o mundo das energias desconhecidas para os cientistas, para a medicina tradicional chinesa e para os preponentes das mesmas.

O mundo onde:

1 – na acupuntura não se usam luvas para poder passar a energia pelos dedos;

2 – não se desinfeta a pele para não afetar o fluxo de energia no corpo;

3 – faz-se chi kung quando se toca em material contaminado para eliminar energias patológicas;

4 – prescrevem-se fitoterápicos sem qualquer tipo de problema porque estes atuam a nível energético enquanto os medicamentos atuam a nível químico;

5 – qualquer reação alérgica às agulhas é encarada como o corpo a eliminar energias perversas.

Enquanto isso não há um único livro técnico de medicina chinesa publicado pelas principais universidades chinesas que defenda tal coisa.

As obras de tradutores, especialistas de medicina tradicional chinesa (chineses) e sinólogos todos apontam para o erro de tais traduções mas mais de 90% dos acupuntores ocidentais fala constantemente em “energias”.

Os tradicionalistas

Devemos olhar para a medicina chinesa como um ponto de partida ou de chegada?

Os vasos longitudinais descritos na Medicina tradicional chinesa, e conhecidos no ocidente como meridianos, é uma ideia que deve ser constantemente propagada ou uma base de trabalho inicial sem futuro aparente?

Os tradicionalistas correspondem a uma pequena minoria de especialistas que se dedicam exclusivamente à medicina tradicional chinesa.

Conhecem os seus termos técnicos, não concordam com as sistemáticas manipulações “energéticas” dos conceitos e teorias da medicina chinesa mas olham para a mesma como algo acabado.

Algo que não precisa de grandes remodelações, que deve ser ensinado, seguido mas não questionado.

Qualquer ideia nova terá de ser proveniente de algum livro muito velho a que se possa chamar clássico.

Os clássicos da medicina chinesa são vistos como referências ao nível dos melhores artigos e obras científicas com a vantagem que nunca desactualizam.

Não concordam com os “energéticos” mas, tal como estes, são contra uma ação demasiadamente intrusiva da ciência.

Raciocínio lógico baseado em anatomo-fisiologia humana não é apreciado nem se procura desenvolver caso não esteja adaptado a uma determinada linguagem filosófica e restrito a um background cultural.

Os não alinhados

Esta classe inclui tanto especialistas de medicina chinesa, cientistas, médicos, fisioterapeutas e outros profissionais de saúde.

Tal como os dois primeiros não representam necessariamente um grupo de classes profissionais ou instituições com uma ideologia muito própria.

Encontram-se nos mais diversos espectros da sociedade humana e que pode incluir:

1 – o fisioterapeuta que usa acupuntura para aliviar espasmos musculares em atletas;

2 – um acupuntor que não prescreve determinado fitoterápico num paciente altamente medicado;

3 – bioquímico que estuda a farmacologia chinesa na procura de novos fitoquímicos com potencial biomédico.

Para alguns a medicina chinesa é vista como um ponto de partida interessante mas extremamente incompleto e corrompido por linguagem filosófica e preceitos culturais que muitas vezes não servem uma análise clínica objetiva.

Desta forma fazem acupuntura sem usar necessariamente meridianos ou usam estes conceitos dentro de princípios científicos sólidos (miologia funcional, sistema nervoso, trilhos anatómicos, cadeias de busquets, etc…).

Distanciam-se dos “energéticos” pois reconhecem imediatamente a assustadora ignorância científica e a total incompreensão da cultura e medicina chinesa (para alguns este segundo aspeto nem sequer é relevante).

Muitos poderão enquadrar-se facilmente na classe dos carreiristas (acupuntura médica, fisioterapia invasiva, classe própria de acupuntores, etc…) enquanto outros não se enquadrariam nunca nesta classe, nem sequer encontrariam lógica para se enquadrarem nesta categoria.

O futuro

Quando falamos da prática da medicina tradicional chinesa falamos de uma prática clínica que se enquadra nas atuais profissões de saúde.

Como profissionais de saúde devíamos ter a consciência da importância de duas bases fundamentais: ciência e bom senso.

Os energéticos não tem nenhuma e os tradicionalistas não dão importância devida à primeira (o que leva a faltas na segunda).

Qualquer profissão de saúde no século XXI terá de ter obrigatoriamente uma forte base científica e isto é mais verdade a cada dia que passa.

Se tratamos o corpo com acupuntura então a base do nosso raciocínio deveria ser a anatomo-fisiologia desse corpo e não uma qualquer noção de energias imaginárias ou abstrações semiológicas muitas vezes desfasadas da realidade.

O futuro da medicina tradicional chinesa não se encontra na total incompreensão dos conceitos de medicina chinesa e não encontra refúgio no santuário de um qualquer clássico.

A acupuntura tem validade na medida que a sua ferramenta mais usual (a agulha de acupuntura) pode ser usada em tratamentos mais eficazes baseados em anatomia humana.

A farmacologia chinesa não tem futuro a tratar vazios de yin ou estases de sangue mas sim na compreensão da sua estrutura química e na forma como afeta diversas vias de sinalização celular ou mecanismos de biologia molecular.

A medicina tradicional chinesa, neste momento, oferece grandes contributos para uma medicina do futuro através do estudo da sua extensa farmacopeia tradicional como demonstrou o recente prémio Nobel da Medicina.

Mas este prémio Nobel não foi possível porque se seguiram cegamente clássicos com centenas de anos ou se deu um abraço a uma árvore para absorver a energia da natureza.

O prémio Nobel da Medicina foi uma consequência direta de se pensar a medicina chinesa como um ponto de partida seguida da aplicação dos melhores métodos de trabalho científico.

Diferenças entre a medicina tradicional chinesa e a medicina chinesa ocidental

Nas linhas atrás deixo a ideia que existem perspetiva muito diferentes da medicina tradicional chinesa no Ocidente, especialmente entre os tradicionalistas e os carreirista.

Nas próximas linhas vou demonstrar as diferenças existentes entre a medicina tradicional chinesa e aquilo que os ocidentais consideram que é a medicina chinesa. A esta versão vou chamar medicina chinesa ocidental.

Ocidentais são mais tradicionalistas

Uma das caracteristicas que os chineses referem, e que já foram várias vezes mencionadas em artigos anteriores, é que os ocidentais são mais tradicionalistas que os chineses, pois os chineses vêm a medicina chinesa como algo em constante evolução.

A maioria das teorias antigas é adaptada a pontos de vista mais contemporâneos (dentro dos paradigmas de pensamento asiático obviamente), são aplicadas novas teorias ou procura descrever-se teorias antigas em linguagem contemporânea.

A revisão política que Mao Tsé Tung ordenou da Medicina Chinesa, a adaptação de conceitos para o contacto com o Ocidente, ou as reformas (e constantes adaptações) de paradigma japonesas com o surgimento de formas de acupuntura contemporânea exemplificam bem o que quero dizer.

Mas os ocidentais só querem saber de clássicos e conceitos sem qualquer atualidade cultural ou clínica.

Os chineses tem o hábito de pegar na sua cultura e fazer uma interpretação da mesma com os conhecimentos atuais, enquanto os acupuntores ocidentais desprezam os conhecimentos atuais e procuram unicamente os conhecimentos mais tradicionalistas possíveis.

Um exemplo claro são as críticas disfarçadas feitas à forma analítica de pensar os protocolos de acupuntura nas universidades chinesas face à aceitação acrítica de afirmações feitas por um qualquer guru que segure a bandeira da “tradição”.

Exemplos ocidentais com várias escolas da Califórnia (Miriam Lee tornou-se famosa) ou europeias (Van Ghi) exemplificam bem esta filosofia.

Os ocidentais não sabem traduzir ou interpretar

Os ocidentais tem de passar por cima de vários obstáculos para compreender a medicina tradicional chinesa.

E por muito bem intencionados que sejam, muitas vezes essas armadilhas condicionam muito os conhecimentos adquiridos. Exemplos não faltam:

1 – as traduções erradas de conceitos chineses são prática comum;

2 – a interpretação de textos é feita de acordo com essas traduções erradas e sobre um prisma vitalista que é estranho ao paradigma cultural chinês.

Ou seja, os ocidentais aprendem aquilo que os chineses nunca ensinaram.

Por exemplos, não é possível encontrar uma obra técnica chinesa que traduza o Qi enquanto “energia” e as poucas obras técnicas que falam sobre a tradução desse termo referem que essa tradução é errada.

No entanto, na medicina chinesa ocidental um ideograma descontextualizado como o Qi passa a ter um significado concreto de “energia”.

Existe um loop negativo entre traduções erradas que geram interpretações erradas que por seu lado geram mais erros de tradução. Erros que se alimentam a si próprios.

As traduções erradas de Soulié de Morant são o exemplo mais claro.

Primeiramente traduziu o conceito chinês de vasos longitudinais como meridianos mantendo o conceito quase original nos vasos maravilhosos. Por isso hoje se diz “meridiano do rim” e “vaso de concepção”.

Associando esta má tradução com a tradução errada de qi por energia e surgem os conceitos de meridianos como “canais energéticos”.

Esta má interpretação vai condicionar as futuras traduções de literatura chinesa alimentando-se a si próprias… ao longo de todo o século XX.

Os ocidentais não tem perfil clínico

Muitos gurus e grandes mestres de medicina tradicional chinesa ocidental poderiam ser facilmente classificados como pseudo-filósofos sem perfil clínico.

O background cultural vitalista, a falta de uma leitura objetiva e assertiva da cultura chinesa, o foco no tradicional e esotérico faz com que sejam muitas vezes profissionais que se focam demasiado em leituras condicionadas de muitos clássicos e obras técnicas de medicina chinesa, onde as divagações filosóficas servem para esconder a incapacidade de raciocínio clínico.

Isto observa-se

1 – na incapacidade de muitos acupuntores ocidentais construirem protocolos de acupuntura chinesa lógicos;

2 – a dificuldade em integrarem a acupuntura em abordagens biomecânicas e neurofisiológicas (como fazem osteopatas, fisioterapeutas e médicos);

3 – a incapacidade de reconhecerem os limites clínicos da aplicação de determinadas técnicas vendendo a medicina tradicional chinesa como uma fórmula mágica para todo o tipo de problemas;

4 – a aceitação acrítica de frases feitas e verdades absolutas como “os outros tratam sintomas, nós tratamos as causas”.

A comparação entre abordagens inovadoras feitas por outros profissionais de saúde (punção seca segmentar, EPI, acupuntura neurofuncional, etc…) com a monotonia seguidista constante dos livros de acupuntura chinesa escritos por ocidentais, que são cópias uns dos outros, é um claro indicativo da ausência de perfil clínico da maioria dos acupuntores ocidentais.

A trilogia da medicina tradicional chinesa ocidental

O desejo de conhecimentos tradicionalistas, os constantes loops de más traduções e interpretações ainda mais erradas aliadas a personagens sem qualquer perfil clínico fazem com que uma grande maioria dos acupuntores ocidentais vivam numa redoma de crenças e conhecimentos que não são partilhados por mais ninguêm.

Nem pelos profissionais de saúde com quem deviam trabalhar e muito menos pelos chineses (ou outros asiáticos) de cuja verdade se dizem portadores.

A prova mais cabal é a comparação entre a literatura técnica escrita por chineses e ocidentais.

Como já provei noutros artigos:

1 – os livros técnicos escritos por ocidentais tem muito mais palha;

2 – tem mais referências a citações de clássicos;

3 – dão muito mais importância a conceitos que não são usados ou falados nas obras técnicas escritas por chineses (hun e Po);

4 – tem abundância de conceitos sem nexo na cultura e medicina chinesa como “energias” ou “síndromes energéticos”.

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