trilogia clinica

Trilogia clinica: prática, raciocínio e investigação

Um aspeto importante a abordar no dia a dia tem a ver com estes 3 aspetos de trilogia clinica:

1 – A minha experiência pessoal na prática clinica diária;

2 – Raciocínio clínico usado no tratamento dos pacientes;

3 – A relevância dos estudos científicos para a definição das minhas guidelines terapêuticas.

Como definir fronteiras nesta trilogia clinica?

Dos 3 qual o aspecto mais e o menos relevante?

Como criar uma prática que consiga satisfazer os 3 requisitos e ao mesmo tempo garantir ao paciente o melhor tratamento possível?

terapeutas a fazer acupuntura

Trilogia clinica: a importância da experiência pessoal

Muitas vezes quando critico algumas formas de pensar a acupuntura (acupuntura esotérica, acupuntura quântica, etc…) porque não tem raciocínio clínico válido e muito menos estudos científicos a comprovar as suas alegações (pelo contrário) muitos acupuntores garantem-me que tem resultados e a sua experiência pessoal é bastante positiva.

“Não interessa a forma como chegas lá… interessa que chegas lá!”.

Mas tratar uma dor no ombro baseado em conceitos energéticos ou em crenças astrológicas não é a mesma coisa que tratar dor no ombro fundamentando a abordagem nas particularidades anatómicas de cada paciente, no estudo da biomecânica, na compreensão dos mecanismos de dor ou no reconhecimento de padrões de dor que pode ser internos ou externos ao próprio ombro, entre outros…

Podemos sustentar uma prática clínica completamente desprovida do mais elementar senso comum clínico e com evidências científicas contra com base na “nossa prática clínica”?

técnicas manuais de osteopatia

Trilogia clínica: a relevância do raciocínio clinico

Na minha opinião o raciocínio clínico é o que distingue a excelência na clinica do dia a dia.

É a capacidade de ler os sintomas, integrá-los numa teoria explicativa coerente, conseguir discernir as melhores ferramentas terapêuticas a aplicar, saber integrá-las em guidelines coerentes e aplicá-las o mais rápido e eficientemente possível.

Se por um lado acredito que a prática clínica deve estar subordinada ao raciocínio (não interessam somente resultados mas sim resultados que podem ser explicados racionalmente e cujos procedimentos para os atingir possam ser descritos de forma lógica e coerente), por outro lado noto que existe um choque com a relevância dos estudos científicos.

O raciocínio clínico não pressupõe somente a capacidade de diagnosticar mas também de seguir lógicas que permitam tratar o paciente.

E quando essas lógicas nunca foram testadas cientificamente?

E quando essas lógicas fogem daquilo que está definido como certo?

E quando o tratamento convencional não funciona?

Podemos usar o raciocínio de forma a definir variações do tratamento mainstream ou novas intervenções?

Trilogia clínica: a importância dos estudos científicos

Muitas correntes na Medicina Ocidental consideram que só se devem aplicar tratamentos comprovados cientificamente.

Mas será que essa prática é exequível?

Há quem advogue que se isso fosse feito metade dos tratamentos médicos convencionais deixavam de poder ser aplicados.

Este artigo não se pretende focar nos problemas existentes em estudos científicos ou na corrupção existente (indústria farmacêutica, and so on.) mas sim no choque que por vezes pode acontecer entre aplicar um tratamento “by the book” e saber pensar fora da caixa e aplicar algo mais “experimental”.

Este choque existe porque não existem tratamentos cientificamente comprovados que sejam 100% eficazes.

E na presença deste choque como se pode seguir uma via benéfica para o paciente e moralmente aceite pela comunidade dos profissionais de saúde?

Respostas da prática do dia a dia

O meu trabalho

Olhando para as minhas metodologias de trabalho posso notar vários pontos relevantes:

1 – Existe muita investigação científica que é relevante (estudos de fitoquímicos radioprotetores, estudo dos efeitos de acupuntura elétrica no nucleo acubens, etc…) para definir guidelines terapêuticas sempre fundamentadas em raciocínio clínico.

2 – Toda a minha prática é assente nestes princípios mas no final nenhuma das minhas guidelines alguma vez foi pesquisada cientificamente.

De uma forma cientificamente literalista, nada do que faço está comprovado cientificamente.

Será por isso o meu método de trabalho uma fraude?

Posso alegar que a minha prática clinica é positiva como fazem muitos acupuntores para defenderem astrologias e pensamentos mágicos ou este argumento só tem lógica se fundamentado em argumentos coerentes e cientificamente comprováveis?

Pode a necessidade dos pacientes tratarem as suas queixas e usufruírem de boa qualidade de vida justificar alternativas não convencionais com base no argumento que o bem estar humano está acima de tudo?

Ou este argumento não é válido pela facilidade com que, terapeutas mal intencionados, podem comprometer a saúde humana?

Meralgia parestésica: inovação clínica do dia a dia

Há uns anos, uma paciente com meralgia parestésica, contactou-me para saber se eu conseguia tratar dor na perna. “Dor na perna, estou habituado a tratar” pensei.

Mas na realidade nunca tinha tratado um caso de meralgia parestésica.

Nunca se ensinou nas escolas a tratar meralgia parestésica e a maioria dos profissionais de saúde (osteopatas, fisioterapeutas, enfermeiros, médicos, etc…) não sabem o que é meralgia parestésica.

Os tratamentos de fisioterapia foram ineficazes e cirurgia estava fora de questão para a paciente.

Deveria tratar aquela paciente ou não? Na altura decidi tratá-la.

Sei quais são os sintomas, sei qual a possível causa e a forma de intervir nos diferentes tecidos para amenizar as dores.

Eu não posso afirmar que curo a meralgia parestésica, mas acabei por desenvolver guidelines terapêuticas bastante eficazes no alívio das queixas dos pacientes.

E com o tempo acabei por receber outros pacientes e fortalecer a minha prática clinica na aplicação dessas guidelines.

A meralgia parestésica ensina-nos que muitas vezes o que está cientificamente instituído não é suficiente ou aceitável para os pacientes e que novas abordagens são necessárias.

Mas dificilmente essas abordagens poderão passar pelo crivo científico e só depois aplicadas na clinica.

Na maioria das vezes surgem da necessidade diária de atuar rapidamente para alívio do paciente.

tratar paralisia facial com acupuntura

Paralisia facial: a importância da experiência clínica

Eu costumo ter bastante sucesso a tratar paralisia facial. Na maioria dos casos o tratamento é rápido e eficaz.

A base do meu tratamento para a paralisia facial é a acupuntura elétrica como não será de admirar.

Ocasionalmente aparecem pacientes com paralisia facial que não respondem ao estímulo da acupuntura elétrica. Mau sinal, pois a resposta ao estímulo é sinal de bom prognóstico.

Recentemente tive um desses pacientes em que não existia contração visível ao estimulo das agulhas.

Tive a ideia de alterar alguns procedimentos de acupuntura elétrica e num desses procedimentos consegui obter contração visível de alguns músculos.

Continuei com esse trabalho até o paciente conseguir responder aos estímulos mais convencionais e o músculo começar a responder á contração ativa.

Em suma, não existem tratamentos infalíveis.

Existe sempre algum paciente com uma qualquer particularidade que não responde aos tratamentos.

É a experiência e a inovação que nos permite tentar arranjar novas formas de o tratar e é essa experiência que aumenta o nosso conhecimento e fundamenta a prática clínica.

Tendinose supra-espinhoso: quando o instituído falha

Se eu tratasse as tendinites do supra-espinhoso de acordo com o diagnóstico médico e com os tratamentos cientificamente instituídos provavelmente iria ter tanto sucesso quanto muitos serviços de fisioterapia.

Pela minha experiência a maioria dos tratamentos para tendinose do supra-espinhoso falham porque se esquecem de olhar para o ombro através da complexidade das suas inúmeras articulações, vetores de força e particularidades anatómicas.

Eu nunca trato uma tendinose do supra-espinhoso sem fazer um estudo exaustivo do mesmo.

E não raras vezes, o supra-espinhoso é um músculo secundário a tratar ou não pode ser tratado isoladamente de outros músculos que supostamente não tem afeção nenhuma.

Tratamentos instituídos e cientificamente comprovados são bons para dar uma direção e permitir práticas profissionais facilmente justificadas e credíveis.

Mas muitas vezes falham no reconhecimento que cada paciente tem um conjunto infindável de particularidades que condicionam a aplicação desses mesmos tratamentos.

incontinência urinária bexiga hiperativa

Conclusão sobre trilogia clínica na clinica

Muitos tratamentos de fisioterapia são ineficazes não porque a fisioterapia não presta, não porque o fisioterapeuta não se entrega à sua profissão, mas porque está limitado a aplicar tratamentos muito específicos.

Porque não há margem de manobra para inovar ou adicionar novos conhecimentos decorrentes da sua experiência profissional.

Porque o raciocínio clinico está sugjugado àquilo que se considera cientificamente comprovado.

Por vezes o instituído cientificamente não é satisfatório. No entanto a prova científica é essencial para o sucesso de um tratamento. Ora para a sua aceitação geral, ora para a sua aplicação comunitária.

A ligação com outras profissões de saúde, o incentivo à produção científica é essencial para que toda a inovação e experiência clínica possa ser transformada em estudos credíveis que realmente validem ou não novas intervenções.

Apesar da importância do raciocínio clínico e das inúmeras experiências diárias que nos obrigam a pensar fora da caixa é o estudo científico que vai poder dar certeza à nossa prática clínica.

É este loop entre inovação decorrente de raciocínio clínico e prova científica que faz evoluir a nossa experiência pessoal.

É esta trilogia clínica que cada um de nós trás para o mundo todos os dias que faz evoluir profissões de saúde como osteopatia, acupuntura ou fisioterapia.

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