pontos de acupuntura no ombro

Acupuntura e música: analogias e reflexões introdutórias na abstração do ensino da acupuntura clínica

Uma pessoa que olhe para uma partitura pela primeira vez, dificilmente, compreenderá o que lá se apresenta.

Mesmo que considere o seu objecto de admiração extremamente belo… quase como uma nova linguagem por descobrir.

Uma partitura é constituída por notas musicais e pela pauta. A pauta ou pentagrama consiste num conjunto de 5 linhas onde são inseridas as notas musicais.

Pode-se chamar pentagrama porque é constituída por 5 linhas. Sem o pentagrama torna-se muito difícil compreender um conjunto de notas musicais pois não se lhes conhece a altura, a duração ou o compasso.

Qualquer músico lhe dirá que sem conhecer estes 3 elementos (altura das notas musicais, duração ou compasso) muito dificilmente conseguirá tocar uma partitura decentemente.

Por nota musical compreende-se “o elemento mínimo de um som, formado por um único modo de vibração do ar.”

Existem algumas notas que todos nós conhecemos: dó, ré, mi, etc… São as diferentes combinações destas notas musicais no pentagrama que nos permite admirar milhares de artistas por todo o mundo desde Beethoven a Marylin Manson.

É a pauta que permite a uma nota ter alturas ou durações diferentes o que aumenta o número de combinações possíveis para produzir boa música.

As semelhanças

A acupuntura tradicional chinesa é muito semelhante à música, apesar de ter uma linguagem diferente.

Enquanto a música é composta por notas musicais e uma pauta para formar uma partitura a acupuntura é feita com pontos de acupuntura, uma pauta chamada combinação de pontos para formar um protocolo.

As diferenças 

No entanto existem algumas diferenças entre a acupuntura e música.

Em acupuntura a pauta, princípios de combinação de pontos, é invisível e não é pensada como sendo 5 linhas. É a disposição dos pontos de acupuntura que nos permite saber se essa pauta imaginária está correta ou não.

Outra diferença grande está no tipo de pauta. Na música a pauta tem de ser visível para se compreenderem as notas musicais, mas na acupuntura a pauta é invisível e percebe-se pela conjugação de pontos.

Como criar uma partitura em acupuntura

A classificação de pontos corresponde à categorizarão de uma série de pontos de acupuntura de acordo com sintomas que tratam.

A combinação de pontos refere-se a um conjunto de regras bem estabelecidas que nos ajudam a conjugar os pontos de forma a criar uma partitura clinica.

Uma pauta, em acupuntura, é definida por um conjunto e regras que são visíveis na forma como se combinam pontos de acupuntura. A pauta em si é invisível.

Como exemplo vamos usar o seguinte protocolo para tratar zumbidos por Estagnação de Qi do Fígado: 2VB, 21TA, 20VB, 34VB, 3F, 5TA.

Neste protocolo é possível observar todos os princípios de combinação expostos na imagem:

Pontos locais e sintomáticos 2VB, 21TA, 20VB
Pontos ditais Todos os outros
Pontos do mesmo meridiano 5TA-21TA; 2VB-20VB-34VB
Pontos de vasos com o mesmo nome TA (5, 21) -VB (2, 20, 34)
Pontos de vasos acoplados F (3) – VB (2, 20, 34)

O protocolo poderia compreender-se da seguinte forma:

2VB, 21TA: são locais e tratamento especificamente queixas do ouvido

20VB: proximal, usado para vários tipos de sintomas que afetam a cabeça (zumbidos, cefaleia, tonturas, cervicalgia, etc…)

34VB-3F – combinação base para estagnação de qi do fígado.

5TA: potencializa a ação dos pontos sintomáticos e dos pontos para a padrão clínico.

Analogias e reflexões sobre a base do pensamento asiático na construção dos protocolos de acupuntura

Eficácia vs beleza: a necessidade filosófica de beleza matemática

Existe uma característica importante para se compreender a forma como os chineses pensaram o raciocínio clínico em acupuntura.

Existe uma necessidade filosófica de beleza matemática nas teorias e procedimentos que criam.

Por exemplo, para tratar dor muscular o uso de pontos locais, na maioria das vezes, é suficiente.

Um protocolo para ser eficaz não precisa ser bonito. A acupunctura não precisa ser bem feita para ser bem sucedida. A sua eficácia não depende da sua beleza.

Mas a beleza tem de fazer parte do mesmo!

Resumidamente pode-se dizer que a beleza de um protocolo de acupuntura encontra-se na sistematização do raciocínio da MTC e na capacidade do próprio protocolo mostrar as regras através das quais foi escrito assim como a sua capacidade de nos informar acerca do caso clínico e dos procedimentos seguidos pelo terapeuta ao longo de toda a consulta.

Lombalgia por vazio de yang do rim: 4VG, 3R, 9BP, 3F, 4IG+ashi

O protocolo apresentado era constituído por 2 partes: uma parte com pontos locais para tratar a dor (pontos ashi) e outra com pontos vocacionados para tratar o padrão clínico (vazio de yang do rim).

Nos pontos usados para tratar o vazio de yang do rim encontrava-se: 4VG/mingmen, 3R/taixi, 9BP/yinlingquan, 3F/taichong, 4IG/hegu.

Olhando unicamente para o protocolo de pontos ashi + 4VG/mingmen + 3R/taixi + 9BP/yinlingquan + 4IG/hegu + 3F/taichong nunca diria que o padrão clínico seria vazio de yang do rim, uma vez que o ponto 9BP/yinlingquan é usado para tratar padrões de humidade e a combinação de pontos 4IG/hegu e 3F/taichong são usados em padrões de estagnação de qi.

O protocolo está claramente errado e viola os princípios terapêuticos a que deveria obedecer.

Mas como tem os pontos ashi para a dor, muito provavelmente, o paciente irá sentir alívio das suas queixas.

O protocolo está errado, é desprovido de qualquer conceito estético mas é eficaz.

Uma cefaleia que é uma dor de cabeça

Há uns anos calhou-me analisar um protocolo, que um aluno tinha feito, para tratar cefaleia.

Apesar da queixa ser dor de cabeça, e o protocolo ter um total de 24 pontos, não existia um único ponto na cabeça.

A quantidade de pontos escolhida tinha englobado pontos de acupuntura que realmente tratavam dor de cabeça. Mas também tinha uma data de pontos sem qualquer relevância.

O protocolo era desprovido de qualquer beleza matemática.

Não se compreendia em que região era a dor de cabeça, ou se afectava a cabeça toda, não se compreendia o padrão clínico o que significava não se conhecer os seus possíveis factores/sintomas causais ou as características da dor, nem se compreendia que princípios terapêuticos secundários poderiam querer ser usados.

Na realidade, olhando para o protocolo nem se percebia que o paciente tinha cefaleia.

Quando é que o protocolo começa a tornar-se ineficaz?

Algo verdadeiramente irónico é que um protocolo de acupuntura bem feito não é necessariamente eficaz.

Em pacientes que não respondam à acupuntura, um protocolo bem feito não vai obter nenhum resultado mas noutros pacientes um protocolo de acupunctura mal feito pode obter resultados clínicos benéficos.

O que pode então ser condicionante para a eficácia do protocolo?

Será que as respostas para a eficácia de um protocolo de acupuntura reside no seu número de pontos ou na forma como vai ser construído?

Estas e outras questões surgem no decorrer das nossas interrogações.

Em primeiro lugar o número de pontos usados num protocolo não precisa passar os 13 ou 14, salvo raras excepções. Muitas vezes nem chega a valores tão altos.

Quando se lê um protocolo quer-se perceber 2 coisas essenciais:

1 – qual a queixa principal (ou seja, o sintoma que mais se manifesta);

2 – qual o padrão clínico (ou seja, os sintomas que provocam a queixa principal ou que a acompanham).

Isto significa que o essencial não é somente a quantidade de pontos presentes num protocolo, ou a sua eficácia, mas sim a quantidade de informação que o seu conjunto nos passa.

Este é um ponto extremamente importante e que passa despercebido a muitos acupunctores. Um protocolo de acupuntura não tem somente de ser eficaz. Ele tem de passar informação fidedigna acerca dos sintomas do paciente.

Aumentando em demasia o número de pontos de um protocolo acontecem 2 coisas:

1 – aumenta-se a probabilidade de ser eficaz não percebendo nada do assunto;

2 – o protocolo perde capacidade de passar a informação que deveria passar.

Quando eu leio um protocolo com, por exemplo, 24 pontos sei à partida que a pessoa que o criou pouco sabe de acupunctura. Nem precisa.

Basta memorizar a posição de 24 pontos dos mais usados e aplicá-los indiscriminadamente.

Esses pontos estão distribuídos pelo corpo todo e tem inúmeras aplicações clínicas. O terapeuta vai ter sempre algum sucesso.

Na realidade basta funcionar indiscriminadamente alguns nervos periféricos e começa logo a obter-se efeitos clínicos.

A mestria em acupuntura tradicional chinesa advém, não do sucesso em fazer um tratamento eficaz, mas na criação de um protocolo imbuído de beleza matemática que seja clinicamente eficaz.

Essa beleza traduz-se na facilidade de perceber a finalidade clinica do protocolo. 

A importância da combinação de pontos

Em segundo lugar temos a forma como o protocolo é construído. Este é outro factor que pode afectar a eficácia de um protocolo.

Neste caso, falamos da importância dos princípios orientadores, presentes na combinação de pontos.

Apesar de poder afectar a eficácia de um protocolo a ausência destas linhas orientadoras irão afectar principalmente a capacidade do protocolo passar informação acerca dos princípios terapêuticos que lhe deram origem.

Os princípios terapêuticos são princípios definidos em medicina tradicional chinesa que nos permitem definir linhas de orientação terapêuticas após a conclusão do diagnóstico.

Por exemplo se temos um vazio de yin caracterizado por muitos suores nocturnos os nossos princípios terapêuticos seriam:

1 –  nutrir o yin

2 – contrair o yin (parar os suores nocturnos).

Num vazio de yin com sudação nocturna abundante e muitos sintomas de secura poderiam criar-se os seguintes princípios terapêuticos:

1 – nutrir o yin;

2 – contrair o yin

3 – nutrir líquidos orgânicos (jin ye).

Estes princípios devem ser percebidos no protocolo de acupuntura. As linhas orientadoras do princípio de combinação de pontos é o que nos permite criar um protocolo com este tipo de informação.

O protocolo das energias perversas

Este protocolo é constituído por meia dúzia de pontos nas costas (pertencem ao ramo interno e externo do meridiano da Bexiga. Existem algumas variações desta tão fabulosa técnica!).

Esta invenção, típica de ocidentais com pouco conhecimento de cultura chinesa, pretende ser usado no tratamento de ansiedade ou outros problemas mentais.

E, quando virou moda, tal como a acupuntura abdominal ou os 4 portões, era realmente fantástico.

Quando se analisa o protocolo na perspetiva lógica da medicina chinesa percebe-se porque é que foi criado por um ocidental.

Façamos então duas perguntas:

olhando para meia dúzia de pontos nas costas o que é que nos conseguem dizer acerca do paciente? Que tem problemas mentais ou tem dor de costas?

Bem vendo tantos pontos nas costas poderei assumir que são pontos locais e estão a tratar um problema nas costas.

Olhando para esses pontos de acupuntura nas costas o que poderei dizer sobre os sintomas causais do sintoma principal ou dos sintomas acompanhantes? Nada. Absolutamente nada.

Porque quando se diz que o protocolo dá informação sobres sintomas causais ou acompanhantes significa que se está a tentar tratar esses sintomas causais ou acompanhantes.

Direcção e informação: como analisar um protocolo de acupuntura

Os meus artigos sobre Eficácia e Beleza parecem ter afectado um leitor do blogue que o comentou no MTCfórum (estes artigos foram escritos antes de 2010 e na altura existia um forum online onde profissionais e alunos se encontravam para trocar ideias).

Muito particularmente a afirmação que um protocolo de acupunctura com 24 pontos era um protocolo incompetente, como eu penso que seja na maioria das vezes.

Apesar de não terem sido apresentados argumentos para fazer uma discussão mais técnica foram feitas algumas afirmações que indicaram uma má compreensão ou do artigo ou da acupuntura tal como é compreendida na Medicina Tradicional Chinesa (MTC).

Foram feitas duas afirmações que gostaria de usar como introdução a este capítulo, no qual tentarei explicar com mais exemplos clínicos o que escrevi nos artigos anteriores.

As afirmações em causa foram:

1ª afirmação

“O raciocínio correcto é partir de um conjunto de sintomas, chegar a um diagnóstico e prescrever um tratamento.[i]

2ª afirmação

“Nas tuas aulas lá sabes o que ensinas e o que pedes aos teus alunos (tipo essa inversão do ónus do protocolo em que dás um conjunto de pontos no qual é suposto ler-se um padrão clínico ou seja lá o que for), mas isso não bitola para coisa nenhuma excepto para o que tu quiseres.[ii]

Direcção e informação: a importância dos princípios terapêuticos

A 1ª afirmação não está correcta a 100% porque se encontra incompleta. Efectivamente o tratamento não se prescreve com base no diagnóstico feito (como é dado a entender) mas sim nos princípios terapêuticos.

Os princípios terapêuticos têm origem no diagnóstico (e sim, isto são coisas muito diferentes!). Eu passo a explicar melhor.

A prescrição de um tratamento está sempre dependente de uma série de questões que surgem na fase de definição dos princípios terapêuticos. Questões como:

O que pretendo tratar?

Qual é a minha prioridade?

Vou usar diferentes princípios para diferentes terapêuticas? Etc…

Vamos supor que um paciente apresenta diarreia devido a vazio de qi do baço e dor no ombro ocasional devido a invasão de vento-frio.

No diagnóstico inicial eu posso observar a existência destas duas queixas e dos padrões correspondentes.

No entanto nos princípios terapêuticos posso somente definir o tratamento para a diarreia e o seu padrão clínico correspondente, o vazio de qi do baço.

Neste caso o tratamento prescrito é diferente do diagnóstico feito.

Quando pensamos na diferenciação inicial dos princípios terapêuticos temos bons exemplos de como o tratamento não é prescrito de acordo com o diagnóstico mas sim de acordo com os princípios terapêuticos.

Manifestação e causa

O aluno começa por aprender a diferenciar a manifestação da causa.

Aprende também que existem 3 formas de lidar com estes sintomas: tratar somente a causa, tratar somente a manifestação ou tratar as duas simultaneamente. A terceira é a mais comum.

No entanto existem casos onde tratar a manifestação é mais importante que a causa. Nestes casos o tratamento vai ser diferente do diagnóstico.

Por esta altura é importante que o leitor tenha em atenção uma coisa: o tratamento é definido pelos princípios terapêuticos.

Regras lógicas subjacentes

Analisando a presença de determinados sintomas e compreendendo a relação que formam uns com os outros é possível chegar a um diagnóstico.

Existem regras para se estudar os sintomas e a sua relação que nos ajudam a definir o diagnóstico.

E os sintomas são classificados de acordo com outro conjunto de regras. E existem regras bem definidas de forma a prescrever as diferentes terapêuticas.

Uma fórmula de matéria médica tem drogas imperadoras, ministras, etc… que tem funções específicas que vão dar informação acerca da sua utilidade.

O protocolo de acupuntura é feito recorrendo aos princípios de combinação de pontos (pontos locais, pontos de acordo com o mesmo meridiano, etc…).

No fundo é o cumprimento destas regras que definem a beleza do protocolo de acupuntura.

São elas que definem a objectividade clínica do paciente e justificam o protocolo nos princípios terapêuticos formulados após o diagnóstico.

É exactamente este conjunto de regras bem definidas, para a construção de protocolos, que inviabilizam completamente a segunda afirmação.

Efectivamente se essas regras existem e nos ajudam a construir um protocolo então elas são visíveis nesse protocolo.

A partir do momento que são percebidas, é possível fazer o percurso inverso perdendo lógica a afirmação “tipo essa inversão do ónus do protocolo em que dás um conjunto de pontos no qual é suposto ler-se um padrão clínico ou seja lá o que for[i]”.

Efectivamente é algo semelhante a isto que se passa.

Tal como em qualquer processo lógico, pelo menos em termos médicos, existem sempre duas direcções. Seguir por qualquer uma destas direcções (sintomas-protocolo ou protocolo-sintomas) é possível devido à existência das regras já faladas.

Sem essas normas não existe medicina chinesa. Sem essas normas a, a medicina chinesa perde toda a lógica. Deixa de fazer sentido.

Obviamente que a informação dos sintomas do paciente a partir do protocolo de acupuntura é sempre limitada porque este foi feito com base nos princípios terapêuticos e não no diagnóstico.

Portanto existe sempre alguma perda de informação quando se faz o caminho inverso.

Essa perda de informação deve-se a dois aspectos fundamentais:

1 – o protocolo é definido pelos princípios terapêuticos e nunca pelo diagnóstico

2 – alguns pontos podem tratar mais do que um sintoma ou do que um padrão clínico

Exemplo 1 – 25E, 25B, 37E

A combinação 25E, 25B e 37E pretende tratar que sintoma especifico?.

Este conjunto de pontos pretende tratar os sintomas de uma víscera, neste caso o Intestino Grosso.

Qualquer sintoma desta víscera pode ser tratado por estes pontos como é exemplo a diarreia, a obstipação ou a dor no baixo abdómen, por exemplo.

Portanto neste caso nunca sei qual é o sintoma que originou o protocolo. Conheço, contudo, os possíveis sintomas.

Sei de certeza absoluta que existe algum daqueles sintomas já referidos, sem saber exatamente qual é!

Exemplo 2 – 5TA, 41VB

A combinação de pontos 5TA/waiguan e 41VB/zulinqi pode ser usada para tratar padrões de estagnação de qi, padrões de humidade-calor ou pode simplesmente ser usada como protocolo base (sintomático) independentemente do padrão clínico.

Em algumas combinações é perfeitamente possível que exista sempre uma perda de certeza.

No entanto a informação base necessária está toda lá. Vamos continuar com estes 2 pontos e estabelecer um caso clínico como exemplo mais aprofundado.

Uma paciente apresenta corrimento vaginal/leucorreia devido a humidade-calor (corrimento espesso, pegajoso e amarelo com provável cheiro fétido).

Para o tratar definimos dois princípios terapêuticos sendo eles:

A) tratar a manifestação e a causa e

B) eliminar humidade-calor.

A partir destes princípios decidimos recorrer ao protocolo feito por Jeremy Ross[i] e composto pelos pontos 4VC/guanyuan, 26VB/daimai (estes dois pontos encontram-se abaixo do umbigo e acima da sinfíse púbica), 5TA/waiguan (encontra-se no antebraço), 41VB/zulinqi (encontra-se no pé),.

Para fazer este protocolo recorreu-se a pontos de acupuntura locais (4VC/guanyuan e 26VB/daimai) que denunciam a localização da queixa e pontos distais (5TA/waiguan e 41VB/zulinqi) que podem ajudar a tratar a queixa principal ou o padrão clínico.

Seguindo a lógica do terceiro exemplo nota-se que só os pontos locais e distais não nos dizem qual é a queixa. Dizem que ela está localizada no baixo ventre (abaixo do umbigo e acima da sinfíse púbica) mas pode ser imensa coisa diferente: problemas de corrimento vaginal, problemas menstruais, problemas sexuais, dor intestinal, diarreia, etc…

No entanto existem pontos sintomáticos no protocolo. O ponto 26VB/daimai é sintomático no tratamento de leucorreia/corrimento vaginal.

A leucorreia é um sintoma do meridiano maravilhoso daimai o que explica o uso do ponto 26VB/daimai que tem o mesmo nome do meridiano e dos pontos de abertura do Daimai, 41VB/zulinqi, e do ponto de abertura, 5TA/waiguan, do seu meridiano maravilhoso acoplado, yang wei mai.

O leitor pode reparar que estas regras são semelhantes à fundação de uma casa. São elas que permitem estruturar o protocolo de acupunctura. Reconhecendo estas regras é possível fazer o percurso inverso. Comecemos a olhar para o protocolo:

O caminho inverso: 4VC, 26VB, 5TA, 41VB

4VC/GUANYUAN, 26VB/DAIMAI, 5TA/WAIGUAN E 41VB/ZULINQI

Olhando para este protocolo nota-se que:

1 – existem 2 pontos locais no baixo ventre

2 – 1 deles é sintomático para leucorreia e os outros são pontos relacionados com o meridiano maravilhoso DaiMai

3 – um dos sintomas que denuncia patologia do Daimai é a leucorreia

4 – 41VB/zulinqi e 5TA/waiguan podem ser usados para tratar padrões de estagnação de qi ou padrões de humidade-calor

5 – a leucorreia não tem variações na sua apresentação semiológica que englobe a estagnação de qi (leucorreia espessa ou fina, amarela, branca ou esverdeada, fina ou pegajosa, com cheiro ou sem cheiro, etc…) mas pode ser descrita por outros padrões como (vazio de yang, humidade-calor, etc…)

6 – 5TA/waiguan elimina calor e 41VB/zulinqi elimina humidade. Ambos regulam o dai mai

7 – a ausência de pontos para tratar padrões de vazio (vazio de qi, yang, yin, etc…) fortalece a hipótese de ser humidade-calor ou estagnação de qi com maior probabilidade para humidade-calor

8 – O ponto 4VC/guanyuan tonifica o Qi, mas o ponto também se compreende como ponto local, ou seja pode ser usado para tratar problemas locais independentemente do padrão clínico

9 – a presença de pontos locais e sintomáticos para tratar a queixa principal e pontos para tratar o padrão clínico indica que foram usados os seguintes princípios terapêuticos:

A) tratar a manifestação e a causa e

B) eliminar humidade-calor

10 – a focalização do protocolo no meridiano daimai e nos pontos locais indica que os sintomas do paciente são muito localizados e o protocolo dedicado principalmente à leucorreia: leucorreia espessa, pegajosa e amarela com cheiro fétido.

Ganglin Yin vs Jeremy Ross: exemplos para nerds

Vamos continuar a usar exemplos. Neste caso vamos usar um exemplo mais complexo. Caso o leitor deseje pode passar este capítulo à frente.

Vamos comparar 2 protocolos e a partir deles vamos encontrar os sintomas dos pacientes. Os protocolos a serem analisados são:

1 – 26VB-28E-5F-30B-32B-3VC-9BP[i] da autoria de Ganglin Yin e Zhenghua Liu

2 – 26VB-41VB-5TA-3VC-6VC-6BP[ii] da autoria de Jeremy Ross.

Se olhar para o segundo protocolo, feito por Jeremy Ross, pode notar que é muito semelhante ao protocolo do primeiro exemplo.

Com o tempo os acupuntores acabam por desenvolver mais afinidade para determinados pontos de acupuntura.

Curiosidades à parte podemos agora começar a analisar os protocolos usando as regras definidas pela teoria da combinação de pontos.

Em primeiro lugar, ao analisar os protocolos devemos procurar pontos locais, distais e sintomáticos.

Isto vai permitir-nos diferenciar a queixa do paciente. Encontrar os pontos de acupuntura locais é relativamente fácil. São os pontos que só tratam problemas locais e na maioria das vezes encontram-se no tronco ou na cabeça (os pontos das extremidades tanto podem tratar problemas nas extremidades como no tronco ou na cabeça).

No quadro abaixo apresento resumidamente a localização dos pontos dos 2 protocolos.

Protocolos completos 26VB-28E-5F-30B-32B-3VC-9BP 26VB-41VB-5TA-3VC-6VC-6BP
Pontos no baixo abdómen 26VB-28E-3VC 26VB-3VC-6VC
Pontos no médio abdómen ou tórax Não tem Não tem
Pontos costas – dorsal Não tem Não tem
Pontos costas – lombar e sagrado 30B-32B Não tem
Pontos nos membros inferiores 5F-9BP 6BP-41VB
Pontos nos membros superiores Não tem

5TA

Olhando para a tabela podemos concluir que:

1 – o primeiro protocolo tem 5 pontos na parte inferior do tronco e 2 pontos nos membros inferiores o que indica que a queixa principal se encontra na parte inferior do tronco (conhecida como Aquecedor Inferior)

2 – o segundo protocolo apresenta 3 pontos no tronco inferior, 2 pontos nos membros inferiores e 1 ponto nos membros superiores indicando que a queixa se encontra localizada no Aquecedor Inferior

3 – de notar que quando a queixa se encontra no Aquecedor Superior é muito comum o uso de pontos distais de acupuntura dos membros superiores enquanto que se a queixa se encontrar no Aquecedor Inferior a maioria dos pontos de acupuntura distais usados serão do membro inferior.

A análise dos pontos sintomáticos revela a existência de um quadro complicado de sintomas.

Vejamos o quadro abaixo onde se encontra uma análise dos pontos sintomáticos mais relevantes.

Pela análise, é fácil assumir que existem sintomas relacionados com o corrimento vaginal/leucorreia e com o sistema urinário. Estes são os sintomas que facilmente sobressaem da análise do protocolo.

Sabendo distinguir os principais sintomas do protocolo ficamos em condição de estudar o padrão clínico e assim ficar a conhecer ainda mais outros sintomas ou características particulares de determinados sintomas.

Protocolos completos 26VB-28E-5F-30B-32B-3VC-9BP 26VB-41VB-5TA-3VC-6VC-6BP
26VB/Daimai Ponto importante no tratamento de patologias de leucorreia e outros como dor local.
3VC Ponto Mu da frente da Bexiga. Muito usado no tratamento de problemas urinários. Este ponto coloca um problema já mencionado que tem a ver com a dispersão de informação. Com este ponto pode-se afirmar que o paciente apresenta possíveis sintomas urinários como frequência urinária, urgência a urinar, dor a urinar (disúria), etc… mas não se pode dar certeza de qual será.
5F/Ligou Indica a existência de problemas a nível dos genitais externos ou próximos como determinados problemas urinários, leucorreia, dor, etc… Não apresenta o ponto 5F/ligou
32B Ponto importante no tratamento de problemas relacionados com o sistema urinário, menstrual e sexual Não tem este ponto

Para facilitar irei construir outra tabela onde se poderão distinguir os pontos que tratam somente sintomas, dos pontos para o padrão clínico ou pontos que tratam ambos.

Para se compreender esta tabela é preciso entrar com outro campo do estudo da acupunctura conhecido como Classificação de Pontos.

Se o leitor não tiver conhecimentos de acupuntura terá de acreditar em mim quando afirmo que estes pontos são usados para tratar este tipo de padrões clínicos.

Caso não deseje acreditar em mim pode sempre consultar as obras mencionadas na Bibliografia.

TABELA – análise dos pontos indicados para a queixa principal, para o padrão clinico e os principais pontos sintomáticos.

Protocolo completo 26VB-28E-5F-30B-32B-3VC-9BP 26VB-41VB-5TA-3VC-6VC-6BP
Pontos para sintomas

3VC – sintomas urinários e dor local26VB – leucorreia, dor

5F – genitais externos, leucorreia

Idem, idemIdem, idem

Não tem

Pontos para o padrão clinico 28E-9BP – tratar humidade

41VB-6VC-6BP – elimina humidade5TA – elimina calor

41VB-5TA – regularizam daimai

Pontos sintomáticos com acção em padrões clinicos 5F – elimina Humidade-Calor

Não tem. Esta opinião pode ser discutível face à presença do 6VC/qihai

Por esta altura presumo que os princípios terapêuticos sejam mais que evidentes pelo que irei passar directamente para os sintomas.

Sabendo que o padrão é humidade-calor podemos inferior a existência de outros sintomas que não seriam sentidos tão intensamente pelo paciente como os sintomas iniciais.

Para facilitar vamos dividir esses 2 tipos de sintomas num novo quadro.

Sintomas possíveis a partir dos pontos de acupunctura sintomáticos Sintomas possíveis com base no padrão clínico tal previsto na análise do protocolo de acupuntura
Corrimento vaginal/leucorreia Corrimento vaginal amarelo, espesso, pegajoso e com cheiro mais intenso
Sintomas urinários como dor a urinar, frequência urinária, urgência urinária, etc… Análise da dor em baixo. Todos os outros sintomas não possuem características próprias que os diferenciem como acontece com a dor ou a leucorreia, por exemplo
Dor local Dor com sensação de peso, dor com sensação de calor, agrava com palpação, melhora com repouso e aplicações locais de frio
  Ainda é possível: existência de sintomas gerais como febre, sonolência, obstipação, edema, alterações menstruais, etc…

Agora que, usando a combinação e a classificação de pontos, chegámos aos sintomas do paciente podemos ler o que dizem as soluções deste problema.

Que tipo de sintoma ou doença terão os diferentes autores tentado tratar com estes protocolos?

Bem como o leitor já notou, os protocolos, apesar de muito diferentes tem exactamente a mesma finalidade.

Tanto Ganglin Yin e Zhenghua Liu, do primeiro protocolo, como Jeremy Ross autor do segundo protocolo pretendiam tratar inflamação pélvica por Humidade-Calor.

E quais são os sintomas característicos da inflamação pélvica?

De acordo com o site ABC da saúde[i] esta patologia é caracterizada por “Corrimento vaginal (leucorreia) usualmente com coloração, odor e consistência alterada… dor abdominal baixa…[ii]” Os autores do site ainda referem que podem ocorrer “febre, calafrios, dor durante a relação sexual ou sangramento menstrual irregular[iii]

Também podemos procurar informação na wikipédia[iv] e ver quais os sintomas referidos. Na wikipédia é referido

“Mais comum em mulheres jovem, que mantêm constantes relações sexuais, são a ardência ao urinar ou disúria acompanhada de febre baixa e o aparecimento de corrimento que varia do amarelo ao purulento que sai da vagina, com odor característico e forte. Uma complicação perigosa é consequência de disseminação para o trato genital superior, com dores abdominais e até sangramento,[v]

Obviamente que podem existir algumas variações na apresentação de sintomas de paciente para paciente. Daí a necessidade de se personalizarem os protocolos de acupuntura. Mas uma coisa é inegável.

Se o protocolo de acupuntura for bem construído é perfeitamente possível saber quais os princípios terapêuticos que o originaram e os sintomas que tornaram necessários esses princípios terapêuticos.

Mas ainda falta um pequeno passe de mágica para se compreender algo relativamente a estes protocolos. Vamos revê-los mais uma vez.

1 – 26VB-28E-5F-30B-32B-3VC-9BP  da autoria de Ganglin Yin e Zhenghua Liu

2 – 26VB-41VB-5TA-3VC-6VC-6BP da autoria de Jeremy Ross

Estes protocolos apresentam um número diferente de pontos e nos seus pontos só 2 são idênticos (26VB e 3VC).

Todos os outros pontos são diferentes. à primeira vista seriam 2 protocolos para problemas totalmente diferentes.

Nesta altura o leitor já sabe que estes protocolos tratam exactamente a mesma coisa: inflamação pélvica por humidade-calor.

Mas há ainda outro aspecto importante a observar nestes protocolos. Ambos estão construídos exactamente da mesma forma.

As diferenças entre eles são practicamente ilusórias. Mas para isso precisamos observá-los unicamente sob o prisma da combinação de pontos.

Mais uma vez vou criar um quadro que vai facilitar este processo ao leitor.

Protocolos de acupuntura 26VB-28E-5F-30B-32B-3VC-9BP 26VB-41VB-5TA-3VC-6VC-6BP
Pontos locais 26VB, 28E, 30B, 32B, 3VC 26VB, 3VC, 6VC
Pontos distais 5F, 9BP 41VB, 6BP,5TA
Pontos sintomáticos 26VB, 3VC, 32B, 5F 26VB, 3VC (também se poderiam incluir os pontos 6BP e 5TA mas não serão incluídos)
Pontos de acordo com o mesmo meridiano 30B-32B 26VB-41VB3VC-6VC
Pontos de meridianos acoplados 28E-9BP26VB-5F Não tem
Pontos do mesmo par de meridianos Não tem 41VB/26VB-5TA

Quando se analisa um protocolo não se pode olhar somente para os pontos. Estes têm de ter uma lógica.

Quando leio um protocolo eu não penso nos pontos em si mas sim no modelo em que foram construídos: pontos locais, distais e sintomáticos; pontos de acordo com o mesmo meridiano, pontos de acordo com meridianos acoplados, pontos de acordo com o mesmo par de meridianos, etc…

Qual a relevância destes aspectos para a nossa análise de protocolos de acupuntura?

Bem ao longo destes artigos fiz algumas afirmações que, na altura poderão ter passado despercebidas ou causado alguma perplexidade ao leitor, como por exemplo “problemas do aquecedor inferior tratam-se com pontos locais e do membro inferior e problemas do aquecedor superior tratam-se com pontos locais e dos membros superiores.”

Estes princípios da combinação de pontos são usados de forma a garantir que o protocolo é o mais eficaz possível. Resumidamente:

1 – seleccionam-se pontos locais porque são os mais importantes no tratamento da maioria dos sintomas. É muito comum ver protocolos onde os pontos locais são em número idêntico ou superior aos distais.

2 – seleccionam-se pontos distais que são bons para tratar determinados sintomas.

3 – usam-se pontos de acordo com o mesmo meridiano uma vez que os pontos foram introduzidos nesse meridiano por tratarem os mesmo problemas.

Os meridianos são formas de classificar pontos de acupuntura que tem indicações clínicas semelhantes (por isso existem sintomas associados aos meridianos).

Os sintomas dos meridianos do membro superior estão relacionados com órgãos do aquecedor superior.

Daí ser comum os sintomas do aquecedor superior serem tratados principalmente com pontos do membro superior quando comparados com os pontos do membro inferior.

4 – O mesmo processo de classificar pontos dentro de um mesmo meridiano levou a métodos de classificação mais complexos que continuavam a visar a o aumento da eficácia clínica dos protocolos.

Partindo da observação os chineses notaram que existiam imensas similitudes entre os sintomas de diferentes meridianos.

Daí se compreenda que a combinação de meridianos acoplados ou do mesmo par de meridianos seja também importante.

No fundo são outras formas de classificar pontos de acupunctura com indicações clínicas semelhantes.

Os protocolos mencionados, apesar de diferentes à primeira vista são quase idênticos na realidade uma vez que estão construídos exactamente nos mesmos princípios.

É isso que os torna correctos. É isso que os torna compreensíveis. É isso que permite compreender a informação neles contida e fazer a direcção contrária: partir do protocolo de acupuntura e conhecer os princípios terapêuticos que lhe deu lógica e os sintomas que originaram os princípios terapêuticos. Isto é acupuntura tradicional chinesa.

Van Ghi e Miriam Lee: os anti-sistemas não tradicionais

Os terapeutas ocidentais adoram criar heróis anti-sistema. Da mesma forma que gostam da acupuntura porque vem nela uma abordagem anti-sistema também preferem desprezar as teorias consideradas mainstream da acupuntura chinesa.

E no Ocidente não faltam gurus e grandes especialistas que os terapeutas adoramos seguir. 2 deles são o Van Chi na Europa e a Miriam Lee nos EUA.

Ambos usam abordagens diferentes.

A Miriam Lee supostamente desenvolveu um protocolo baseado unicamente em 5 pontos que basicamente corresponde a uma estratégia de neuromodulação periférica simples mas nenhum terapeuta alguma vez parece ter percebido isso.

Na Europa, os acupuntores ficavam conquistados com os protocolos gigantes da escola Van Ghi.

Numa das suas formações foi aconselhado os seguinte protocolo com 25 pontos:

24VG, 20VG, 17VC, 14VC, 12VC, 6VC, 4VC, 36E, 6BP, 9BP, 3R, 5F, 4BP, 34VB, 3F, 5TA, 6MC, 7P, 7C, 4IG, 13B, 15B, 18B, 20B, 23B.

Existem pequenas alterações que se podem fazer neste mega protocolo. Pontos como 16VG, 20VB, 8E, 14VG, 2F, 37E, 40B, 10BP, 17B, 40E, 32B, etc… podem ser incluídos e trocados por outros. Ou já agora porque não somente adicioná-los?

Quase de certeza o protocolo vai ter algum sucesso na maioria das queixas dos pacientes. Tem pontos para quase tudo.

Não se percebe qual o sintoma, ou sintomas, mais relevante para o paciente nem se compreende qual ou quais os padrões clínicos que se pretendem tratar. É a versão de antibiótico largo espectro da acupunctura tradicional chinesa.

Aquilo que deveria ser reconhecido imediatamente como um auto-atestado de incompetência foi considerado como um modelo “game-changer” capaz de obter os melhores resultados clínicos.

Miriam Lee tornou-se uma referência nos EUA e o Van Ghi abriu escolas de pensamento por toda a Europa. Os acidentais adoram sistemas de pontos não tradicionais e fora da esfera académica.

O ensino da acupuntura: objetividade clinica e subjetividade cultural

A acupuntura tradicional chinesa consiste num conjunto de observações clinicas analisadas a uma dada luz cultural.

Muito do que se aprende tem a ver com o contexto cultural da acupuntura e não especificamente com a sua utilidade mais clinica.

E se fosse possível despir a acupuntura de uma boa parte desse contexto cultural?

Onde se poderia fazer a fronteira?

Seria exequível de todo?

Este artigo poderá ser uma blasfémia para muitos acupuntores ocidentais. Ele parte de algumas observações e levanta questões que se pretendem provocadoras.

São as melhores e são aquelas que nos obrigam a olhar mais honestamente para os problemas e dúvidas que se colocam ao longo da nossa carreira e aprendizagem.

No ensino da acupuntura existem 3 áreas de extrema importância:

topografia dos vasos longitudinais: ensina a encontrar os pontos de acupuntura ao longo do corpo. Para isso recorre a um sistema de medidas (cun) e a marcos anatómicos.

– técnicas de manipulação: técnicas de inserção e manipulação das agulhas e a sua aplicabilidade nos diferentes casos clínicos.

– acupuntura clinica: ensina o raciocínio subjacente à formulação de um protocolo e à compreensão do mesmo.

Como referido, estas 3 áreas do saber são consideradas muito importantes.

No fundo elas chamam a atenção para os 3 grandes pilares da acupuntura: LOCALIZAÇÃO, MANIPULAÇÃO, RACIOCINIO.

Qualquer forma de acupuntura existente, desde a mais tradicional à famosa punção seca atual ou eletrólise percutânea (É ACUPUNTURA, DEIXEM-SE DE COISAS!) parte destes 3 princípios.

Neste artigo vamos analisar estes 3 princípios à luz da acupuntura tradicional chinesa. E vamos questionar os 3. Comecemos pela topografia dos vasos.

A topografia dos vasos longitudinais é necessária?

Os pontos encontram-se atendendo a marcos anatómicos e sistema cun. O sistema de cun é um sistema quase exato que tem a grande vantagem de ser adaptável a cada um de nós. É universal sem ser estático.

No entanto funciona por números inteiros. Curioso como os pontos acabam todos  (ou quase) por distar uns dos outros por números inteiros, não é?

Será que o pobre já se apercebeu que a esmola é grande demais?

A questão de saber se a topografia dos vasos é necessária, nos nossos dias, prende-se com a necessidade de saber se ela é realmente essencial para obter sucesso clinico. E se sim se toda ela é igualmente válida.

Analisando a história da acupuntura notam-se dois factos importantes: tanto o sistema de cun como a localização dos pontos são convenções sociais.

Ou seja, a nossa prática clinica está dependente de convenções sociais. Será a convenção social algo válido quando falamos de clinica?

Vamos usar alguns exemplos clínicos relevantes para as questões levantadas.

Nervo mediano vs mestre do coração

O vaso do mestre do coração encontra-se, no antebraço, entre os tendões dos músculos flexor radial do carpo e longo palmar. Corresponde ao percurso do nervo mediano.

Há uns anos lembro-me de ter lido um estudo onde se referia que estimular pontos de acupuntura específico era a mesma coisa que estimular outras zonas, não correspondentes a pontos, mas em cima do nervo (em linguagem de MTC, ao longo do vaso!).

Outro estudo recente em ratos mostrou que a estimulação do nervo mediano melhorava a vascularização cardíaca.

Ambos os estudos estão de acordo com a MTC de forma geral. Problemas cardíacos são uma das várias indicações clinicas daquele vaso e existem escolas de pensamento em medicina chinesa que defendem que o ponto de acupuntura não é importante mas tão somente estimular ao longo do vaso.

Existem escolas de pensamento que defendem que o mais importante é palpar ao longo do vaso e punturar pontos que se encontrem em maior deficiência ou plenitude.

Mas caso isto seja assim, então a localização especifica de pontos como o 7MC, 6MC, 5MC ou 4MC torna-se irrelevante.

Em alguns casos torna-se igualmente irrelevante falar de vasos uma vez que falamos abertamente do nervo mediano.

É muito mais prático ensinar a estimular um dado nervo ao longo do seu percurso do que ensinar todo um sistema cun e uma série de pontos diferentes ao longo do percurso de um vaso.

Poderíamos prescindir de boa parte da topografia dos vasos e pontos?

Noutras formas de pensar a acupuntura, provavelmente o sistema de cun torna-se completamente irrelevante.

Tensão muscular e impedância elétrica

Por exemplo, quando pensamos na punção de um músculo tenso é mais importante a seleção das regiões mais tensas e sensíveis do que seguir a descrição tradicional de um dado ponto de acupuntura.

Na maior parte das vezes é isto que se faz quanto se trata dor. Recorre-se aos pontos ashi!

Alguns pontos parecem apresentar alterações de impedância elétrica e localizam-se em zonas de junções neuro-musculares.

Pode-se argumentar que a localização desses pontos é relevante.

Mas usar aparelhos para analisar a impedância elétrica inutiliza saber-se a localização dos pontos (que é sempre uma aproximação) e conhecendo as regiões de junções neuromusculares torna desnecessária a aprendizagem demorada e complexa da topografia dos vasos.

Muitas pessoas podem achar errado falar abertamente do fim do sistema de vasos longitudinais.

Mas ninguém pode negar que existem factos incompreensíveis nos dias de hoje.

Pontos extra, no percurso de vasos, que não são pontos regulares

Por exemplo, os pontos extra são pontos de acupuntura idênticos aos pontos regulares com exceção que não pertencem a um sistema de vasos longitudinais.

O ponto extra Yintang, localizado entre as sobrancelhas acima do nariz, encontra-se no percurso do vaso do vaso governador.

Outro ponto extra, Dannagxue, encontra-se na face externa da perna 1 a 2 cun abaixo do ponto 34VB.

Este ponto localiza-se no percurso do vaso da vesícula biliar.

Qual a razão que leva a que o ponto Yintang não possa ser considerado como ponto do vaso governador?

A razão reside na crença dos chineses de microcosmos-macrocosmos. O corpo é um reflexo do macrocosmos.

Ao todo existem 364 pontos de acupuntura regulares porque existem 364 dias ao longo do ano.

Nos dias de hoje terá lógica manter este sistema com base neste argumento?

Porque não incluir logo os pontos extra em sistemas de vasos?

Ou porque não acabar com o sistema de vasos e associar os pontos pelas suas áreas de influência?

Técnicas de manipulação da agulha: arte clinica ou placebo elaborado?

Uma das características do efeito placebo tem a ver com drama. Por exemplo, injeção de produtos salinos sem principio ativo é mais eficaz que o uso de comprimidos inertes.

Quanto mais dramática a intervenção, mais eficaz será. Todas as medicinas, que surgiram ao longo da nossa história, devem ter usado esta característica do efeito placebo para potencializar os seus benefícios clínicos.

Desde os xamãs sul americanos, nos exorcismos potenciados pelo consumo de folha de coca, à mais elaborada teoria da MTC e nos métodos de cultivo da vida, onde as cores (cujo efeito placebo está dependente do seu significado cultural) são usadas no vestuário como tratamento.

Surge uma questão:

Poderão muitas das manipulações observadas nas técnicas de puntura nada mais do que um drama elaborado?

Um efeito placebo nunca percebido como tal pelos chineses ao longo da sua história?

Vale a pena incluir isso no ensino da acupuntura?

De uma forma geral existem considerações muito importantes nas técnicas de manipulação de agulhas.

Os ângulos de inserção, a profundidade, por exemplo, são fatores a ter em linha de conta caso se deseje fazer acupuntura com segurança.

Em muitos casos definir uma puntura mais profunda ou mais superficial pode ser essencial para se obter os melhores efeitos clínicos.

Na medicina chinesa existe uma técnica de estimulação de agulha chamada bicada de pássaro. É a mesma técnica usada por fisioterapeutas no tratamento dos pontos gatilho com acupuntura (SIM, ESTÃO A FAZER ACUPUNTURA!).

No entanto quando se aborda com mais profundidade algumas técnicas de manipulação de agulha na medicina tradicional chinesa notam-se imensas variações e especificações. Algumas, na minha opinião caem no ridículo.

Por exemplo existe uma técnica de puntura que diz se existir um padrão de plenitude coça-se a agulha numa direção e se o paciente sofrer de um padrão de deficiência coça-se a agulha noutra direção. Simplesmente não consigo levar a sério muitas destas técnicas.

Quando estive na China, e em conversas com outros colegas, notei que muitos usavam técnicas opostas para obter o mesmo efeito. Mas a maioria nunca colocou em causa a própria técnica.

Noutro exemplo mais flagrante temos as “disputas” entre acupuntura chinesa e acupuntura japonesa com técnicas de estimulação muito diferentes.

A questão que pretendo levantar é a seguinte:

Será que vale mesmo a pena perder tempo a ensinar a maioria destas técnicas quando na realidade existe um desfasamento entre teoria e prática enorme, existe disputa entre diferentes formas de acupuntura e entre os próprios profissionais assim como um desprezo pelas mesmas por parte de muitos acupuntores?

Poderão muitas destas técnicas não ser mais do que uma parte integrante do drama no qual assenta parte do efeito placebo que a acupuntura demonstra?

Pensar os protocolos, pensar nos protocolos

A acupuntura clinica tem a ver com a forma como se selecionam os pontos. Na acupuntura tradicional chinesa é usada a combinação de pontos e a classificação de pontos.

Se o leitor pensar numa pauta de música a classificação de pontos serão as notas e a combinação de pontos o pentagrama.

Sem a combinação de pontos deixa de ser possível perceber o protocolo de acupuntura.

No fundo é um conjunto de diretivas que nos permitem selecionar os pontos que interessam no vasto mundo da topografia de pontos.

Mas até a acupuntura clinica está pejada de manipulações culturais.

Manipulações que em determinada altura da história poderão ter sido importantes para os chineses mas que no mundo atual podem (e devem) ser postos em causa.

Para ser mais fácil compreender o ponto de vista que desejo partilhar vou recorrer a alguns exemplos associando a função de pontos sintomáticos com a sua localização.

4C, 5C, 6C, 7C

No vaso do coração temos 4 pontos muito próximos uns dos outros. Os pontos 4C, 5C, 6C e 7C ficam todos ao nível, ou muito próximos da cabeça do cúbito (osso interno do antebraço. A sua cabeça fica próxima do punho).

Quando observamos a classificação de pontos notamos que todos estes pontos são classificados de diferentes maneiras.

E apesar de terem as mesmas indicações clinicas encontra-se sempre associado a cada ponto um sintoma principal.

O ponto 5C é ponto de conexão e trata afasia, o ponto 6C é ponto de emergência e muito usado no tratamento de suores noturnos, o 7C é ponto fonte (yuan) e trata sintomas cardíacos.

Todos estes sintomas referidos são sintomas da patologia dos vasos. Ou seja: o 5C, 6C, 7C podem tratar afasia, sintomas cardíacos e suores noturnos (entre outros).

No entanto temos de nos interrogar se vale a pena realmente gastar imenso tempo a estudar estas particularidades quando na prática clinica elas podem ser dispensáveis.

Podem ser dispensáveis pelo facto que chamando atenção às patologias dos vasos longitudinais não precisamos de estudar pontos em separado, ou particularidades de acupuntura que podem ser aprendidas mais facilmente associando regiões do corpo ao tratamento de determinados sintomas.

Neste caso o exemplo seria: tratamento de sintomas cardíacos (palpitações, dor cardíaca, opressão torácica) e sintomas mentais (agitação mental, insónia, depressão) pode ser feito através da estimulação do nervo cubital sendo mais fácil estimular este nervo no terço inferior do antebraço.

Em duas linhas prescindi de horas de estudo em topografia dos vasos e acupuntura clinica.

28E, 29E, 30E

Outro exemplo parecido com o do vaso do coração diz respeito aos pontos 28E, 29E e 30E. Estes pontos encontram-se no baixo abdómen.

O exemplo difere do vaso do coração porque estes pontos não se encontram em nenhum nervo.

No entanto eles encontram-se próximos e pontos com grande proximidade tem indicações clinicas comuns (que surpresa!).

Nestes pontos existem algumas particularidades interessantes.

Eles foram usados para indicar padrões e indicações clinicas distintas e isso ficou marcado no seu nome.

O ponto 28E traduzido significa “passagem das águas”, o ponto 29E chama-se GuiLai que significa “volta para casa” ou “deve voltar” e o ponto 30E, Qichong que pode significar “cruzamento de dois caminhos”.

O nome do ponto 28E indica que ele é usado no tratamento de padrões de humidade no aquecedor inferior. Diagnóstico como humidade-calor na Bexiga ou humidade-frio no aquecedor inferior podem ser tratados com este ponto.

O nome do ponto 29E indica que ele é usado essencialmente para tratar amenorreia e o nome do ponto 30E indica que é um ponto de interseção (cruzamento de dois vasos distintos, sendo neste caso o vaso do estômago e o chong mai).

Foquemo-nos no 28E e 29E. Estes pontos distam 1 cun, um do outro (pense na largura do seu polegar… aproximadamente!).

Será que existe assim tanta diferença entre eles para um ser usado para padrões de humidade e outro para amenorreia?

Como pontos locais eles podem tratar problemas locais onde se incluem sintomas uterinos, urinários ou intestinais.

E isto é independente do tipo de padrões clínicos que se associem a essas queixas.

Historicamente compreende-se que os chineses precisassem de pôr ordem à casa tornando o sistema médico compreensível, teoricamente exigente e aplicável na prática obedecendo sempre aos seus preceitos culturais. Mas será que hoje em dia tem lógica continuarmos presos a esta forma de pensar?

13VB, 15VB

Um dos pontos que costumava usar no tratamento da insónia era o 13VB. Este ponto encontra-se na cabeça e é muito usado no tratamento de sintomas mentais.

Em determinada altura, por engano, troquei o 13VB pelo 15VB que fica próximo mas nunca, ou quase nunca, é usado.

Andei durante algum tempo com o 15VB até numa aula ter dado pelo meu erro. Eu dei pelo erro numa aula em que abordava a topografia dos meridianos.

Nunca dei pelo erro na clinica onde os resultados foram sempre idênticos (e muito bons pela minha experiência!). Na minha experiência usar o 13VB ou o 15VB é a mesma coisa.

Estes pontos de acupuntura estão muito próximos e pontos anatomicamente próximos tem indicações clinicas semelhantes.

Para quê então estudar topografia e acupuntura quando posso focar-me na área e não em imensos pontos específicos?

No crâneo as regiões frontal até à sua fronteira com o parietal e ao longo de toda a linha média sagital são boas para tratar sintomas como insónia, irritabilidade, depressão, etc… (estou a focar-me somente em problemas mentais, mas estes pontos também podem tratar dor de cabeça frontal).

Estou a simplificar demais se calhar mas mais uma vez reduzi muitas horas de estudo a 3 linhas.

Fazendo todas as alterações mencionadas ao longo do artigo ficaríamos com um sistema muito mais simples de ensinar e aprender.

Mas também ficaríamos com um sistema completamente irreconhecível da medicina tradicional chinesa.

2010 a 2020: o mundo continua a girar

Estes artigos foram publicados inicialmente entre 2008 e 2012. Estas analogias e reflexões sobre o ensino foram publicadas e, muito superficialmente discutidas.

Os acupuntores aceitam que possam existir estas analogias e reflexões mas nunca pretendem levá-las a sério.

Nenhum escola de medicina chinesa alguma vez decidiu rever seriamente o seu currículo escolar de forma a levar em linha de conta estas questões.

No entanto, estas questões são a base que diferencia a acupuntura tradicional da acupuntura contemporânea.

Para outros profissionais de saúde, elas são óbvias. O uso da agulha de acupuntura não implica o uso de um modelo de pensamento cultural definido na Ásia. 

Especialmente quando se podem desenvolver modelos objetivos, científicos e clinicamente mais relevantes baseados em anatomia e fisiologia humana.

Assim chegamos ao mundo pós 2020 onde os acupuntores adoram modas de sistemas de pontos não tradicionais como Van Ghi, Miriam Lee ou o Mestre Tung e outros profissionais de saúde (médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, podologistas, osteopatas) fazem punção seca ou acupuntura elétrica.

NOTAS FINAIS


[i] http://mtcforum.net/comunidade-de-mtc/escola-superior-de-medicina-tradicional-chinesa-lisboa/msg3476/#new

[ii] http://mtcforum.net/comunidade-de-mtc/escola-superior-de-medicina-tradicional-chinesa-lisboa/msg3476/#new


[i] http://mtcforum.net/comunidade-de-mtc/escola-superior-de-medicina-tradicional-chinesa-lisboa/msg3476/#new


[i] ROSS; Jeremy; Acupuncture Point Combinations, The Key to Clinical Success, pág. 113.


[i]Yin Ganglin; LIU Zhenghua; Advanced Modern Chinese Acupuncture Therapy, pág. 455.

[ii] ROSS Jeremy; Acupuncture Point Combinations The Key to Clinical Success, pág. 116.


[i] http://www.abcdasaude.com.br/artigo.php?156

[ii] http://www.abcdasaude.com.br/artigo.php?156

[iii] http://www.abcdasaude.com.br/artigo.php?156

[iv] http://pt.wikipedia.org/wiki/Doen%C3%A7a_inflamat%C3%B3ria_p%C3%A9lvica

[v] http://pt.wikipedia.org/wiki/Doen%C3%A7a_inflamat%C3%B3ria_p%C3%A9lvica


[i] http://acupuntura.blogas-pt.com/eficacia-versus-beleza-parte-2/

[ii] http://mtcforum.net/comunidade-de-mtc/escola-superior-de-medicina-tradicional-chinesa-lisboa/msg3476/#new

 

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