scimed joão julio cerqueira

Vera Novais: 4 argumentos por encomenda

“Do not demonize journalists: they have the same mega misconceptions as everyone else.

Our press may be free, and professional, and thruth seeking, but independent is not the same as representative: even if every report is itself completely true, we can still get a misleading picture through the sum of true stories reporters choose to tell. The media is not and cannot be neutral, and we shouldn´t expect it to be”

Factfulness, pág. 365

Recentemente a jornalista Vera Novais escreveu no Observador um artigo crítico sobre as TNC.

Esse artigo focava-se em várias terapêuticas e as próximas linhas serão uma resposta a parte desse artigo.

Digo parte porque me irei ocupar das 3 terapêuticas das quais sou mais próximo: a acupuntura, fitoterapia e osteopatia.

Tenho formação em Medicina Chinesa e Osteopatia. Pratico acupuntura todos os dias e obviamente o meu artigo estará vocacionado para apresentar de forma enviesada a minha opinião.

Ele pretende mostrar exemplos que a jornalista Vera Novais decidiu não contar e estudos que ela decidiu não apresentar.

A lógica não será fugir aos exemplos que a apresentou mas sim contextualizá-los na realidade clínica que vivo todos os dias e nos estudos científicos existentes.

O objetivo não será esconder os problemas que existem mas mostrar que também existem soluções e será mais útil puxar por essas soluções do que recriminar e discriminar injustamente um grupo de pessoas com categorizações demasiado simplistas.

Pretendo mostrar que a área das TNC apresenta um complexo tecido social com um vasto conjunto de valores e crenças que não se reproduz no artigo da jornalista.

O artigo vai estar recheado de referências a vários estudos científicos.

Poderia ter colocado muitos mais mas creio serem suficientes para apresentar o meu ponto de vista, sendo que na bibliografia podem consultar esses estudos científicos.

osteopatia osteopata tratamento osteopático

Jornalista por encomenda

A jornalista Vera Novais resumiu o seu artigo com os típicos slogans de propaganda médica e daí eu achar que o seu artigo é jornalismo por encomenda. Ela escreveu:

“Ervas e homeopatia não curam o cancro. No mínimo, não fazem nada. No limite, agravam tanto o problema que o tornam impossível de resolver. Tudo o que mostra ser eficaz é integrado na medicina.” (1)

Juntar “ervas” que tem princípios ativos conhecidos e eficácia clínica comprovada (24) na mesma linha que homeopatia que não tem nada disto é simples desonestidade.

Afirmar que no mínimo não fazem nada é ignorante pois está bem comprovada cientificamente a eficácia de muitas “ervas” (24) no tratamento de sintomas assim como muitos dos seus mecanismos celulares (26) (27), sendo que uma delas, a artemisia, é falada no artigo.

Afirmar que no limite agravam o problema é uma afirmação altamente enviesada e dificilmente sustentada em factos científicos.

É o velho mito social médico “não fazem nada… quanto muito agravam” (em oposição a “tratam tudo e não tem perigos”), mas mitos e propaganda combate-se com estudos e não com mitos opostos.

Dificilmente a homeopatia vai agravar o cancro (é água lembram-se?!) e as “ervas” precisam de cuidados extra mas também tem um potencial benéfico gigante.

Neste momento existe muita investigação pré-clinica de ponta em fitoterápicos com propriedades radioprotetoras, radiorecuperadoras e radiosensibilizadoras (28) (29).

A última afirmação é simplesmente sociológica e está dependente da forma como a jornalista vê o mundo, mas isso depende de como a sociedade evolui e do que queremos.

Na minha versão a acupuntura é para ser feita por acupuntores que não precisam ser médicos! A fitoterapia é para ser prescrita por fitoterapeutas que não precisam ser médicos.

Em suma podemos ter uma série de profissionais de saúde com autonomia e bons níveis de formação científica sem serem médicos e é para aí que a sociedade está a evoluir!

Sensacionalismo

O sensacionalismo vende mas também nos tira credibilidade.

Os títulos de artigos tem de ser explosivos para serem lidos e os exemplos usado tem de ser extremos para cativar o leitor às linhas seguintes.

Infelizmente o jornalismo está abandonado a esta tirania do sensacionalismo.

A jornalista preferiu escolher histórias extremas e títulos e subtítulos explosivos, porque é isso que vende, é isso que dinamiza a caixa de diálogos do site do jornal, é isso que ajuda a viralizar o artigo nas redes sociais.

Em última instância é isso que lhe paga o ordenado!

Mas muitos outros títulos seriam possíveis:

1 – “paciente recorre a acupuntor com dor no braço e é encaminhada para as urgência do hospital por suspeita de doença cardíaca”;

2 – “acupuntor aconselha paciente a vacinar os filhos”;

3 – “osteopata aconselha doente a ser acompanhada pelo seu médico de família”;

4 – “paciente com disfunção erétil recorre a um acupuntor que o reencaminha para urologia”;

5 – “paciente tem melanoma diagnosticado mais cedo por chamada de atenção de acupuntor”;

and so on… eu podia estar aqui a escrever slogans o dia todo.

Infelizmente estes slogans, apesar de todos verdadeiros e retirados da minha prática clínica, não vendem.

Muitos colegas com quem trabalho poderiam fazer a mesma coisa mas os seus slogans também não iam vender.

Ninguêm quer ouvir dizer que muitos osteopatas não usam técnicas manipulativas ou que a Osteopatia não se resume a técnicas manipulativas. O que queremos é ouvir dizer que um osteopata andou a partir ossos aos doentes.

Não interessa se o acontecimento é raro, não interessa que não tenha sido feito por um osteopata formado em Oxford mas por um endireita da Cova da Moura. Interessa que venda artigos, que provoque cliques no site.

Mas com o sensacionalismo vem a falta de autoridade, vem a descredibilização científica.

Entre as perfurações cardíacas da acupuntura, as fraturas do osteopata, a toxicidade e as interações farmacocinéticas da fitoterapia fica difícil compreender como os doentes saem vivos do nosso consultório.

ciência ódio ao ocidente vera novais

Desonestidade autoritária

Em determinada parte do artigo depois de usar 2 exemplos extremos de má prática, a autora, recorre a um artigo mal feito mas sustentado na autoridade da instituição que o financiou (Universidade de Yale).

Linhas à frente volta a falar do artigo fazendo um resumo do mesmo sem nunca ter encontrado os erros evidentes que o descredibilizam.

A jornalista Vera Novais cometeu os mesmos erros que o Scimed ou o Jornalista Luis Ribeiro na revista Visão. Resumindo alguns pontos importantes(2), (3):

1 – o estudo de Yale coloca 2 questões completamente diferentes sem usar as métricas corretas para os avaliar.

2 – mistura todo o tipo de terapias e crenças (orações, acupuntura, probióticos) impossibilitando qualquer análise correta dos mesmos, conclusões objetivas ou transposição dos dados para a realidade nacional.

3 – os dados foram mal trabalhados e obtidos através de enviesamentos. Basta pensar um pouco: a oração foi usada como terapia complementar.

Num país em que mais de 50% das pessoas afirmam rezar todos os dias, um país rico com os níveis de religiosidade de um país pobre foi possível reunir uma amostra de mais de 1 milhão de pacientes com cancro em que menos de 0,01% recorriam a orações.

Fico estupefacto ao ver críticos destas áreas ridicularizarem terapeutas TNC porque não sabem ler estudos ou interpretar dados e depois deixam passar erros de amador quando as conclusões do estudo lhes interessam.

Em resumo, a Vera Novais pegou num artigo mal feito, compilou uma série de histórias negativas para justificar a conclusão do seu artigo.

Mas será que estes dados se coadunam com a realidade clínica do dia a dia destes terapeutas?

Com a segurança das suas terapêuticas tal como estudadas em inúmeros estudos científicos?

Um estudo baseado em dados clínicos numa clinica de acupuntura

Para mostrar a diferença entre aquilo que é a prática clinica e o que é apresentado nestes artigos decidi fazer um estudo com dados da minha clinica.

O estudo é uma recolha, com as primeiras letras do alfabeto, de 237 pacientes (não há tempo nem dinheiro para estudos mais completos) que recorreram ao meu gabinete (e sim tem alguns enviesamentos e nenhum deles vai colocar em causa as conclusões em baixo).

Destes 237 pacientes: 233 (98,3%) não apresentarm nenhum historial oncológico. Só 4 pacientes (1.69%) apresentaram um historial oncológico.

Um destes pacientes (25%) foi à clinica para tratar um efeito secundário de lesão de um nervo decorrente de cirurgia (caso a autora decida escrever mais um artigo alarmante pode usar este dado isolado. E se usar a estatística isolada de 25% vai fazer sucesso).

Em nenhum caso se colocou a hipótese do paciente não fazer quimio ou radioterapia (0% para quem não percebe nada de estatística).

Destes 237 pacientes: 204 (86,1%) tinham sido acompanhados por um ou mais médicos antes de recorrerem ao nosso gabinete.

Só 9 (3,79%) é que não tinham sido visto por médicos de certeza absoluta.

24 pacientes (10,1%) não tive certezas se tinham sido vistos por médicos ou não.

Inegavelmente os pacientes que não foram vistos por médicos tinham várias características identificativas:

1 – pacientes novos,

2 – queixas de curta duração com sintomas de intensidade média a leve,

3 – turistas ou portugueses de passagem que pretendem um alívio momentâneo até chegar a casa.

Quase 50% dos casos referia-se a episódios esporádicos de stress ou ansiedade desencadeado por algum tipo de problema familiar ou profissional.

Qual a probabilidade de um paciente (turista ou não) novo com queixas leves por trauma ter na realidade um tumor incurável que só vai ser diagnosticado tarde demais porque fez 1 ou 2 sessões de acupuntura?

A Vera Novais pegou em histórias assustadoras para poder vender um artigo quando essas histórias estão completamente desfasadas daquilo que é a realidade clínica.

Pacientes mais idosos, com doenças e sintomas crónicos já todos foram observados por médicos.

Na maioria das vezes que existem atrasos no diagnóstico não tem a ver com a irresponsabilidade dos terapeutas mas sim com a desvalorização de queixas crónicas do paciente por parte do médico.

Estes problemas são outliers, não estão sequer perto de média e não representam aquilo que é o trabalho diário de muitos terapeutas.

Sem dúvida que são problemas marginais sem relevância estatística.

medicamentos vera novais

Queixas na ACSS

Se este problema fosse mainstream seria mais visível mas mesmo nas queixas existentes na ACSS, de acordo com os dados do artigo, são quase nulas.

Não pretendo desvalorizar o sofrimento humano representado nessas histórias mas as histórias não podem ser contadas descontextualizadas dos dados.

Em 15 anos de prática clínica nunca (NUNCA) um paciente me perguntou se deveria fazer quimioterapia ou não.

Em 15 anos de prática clinica nunca (NUNCA) consegui mudar as crenças dos meus pacientes que não estivessem ligadas a hábitos de vida (alimentação e exercício).

Das poucas vezes que doentes queriam que eu tivesse as mesmas crenças que eles (astrologias, energias, etc…) preferiram mudar de terapeuta a tratar-se comigo, das poucas vezes que afirmaram não vacinar os filhos nenhum mudou de ideias quando aconselhei o contrário.

Um terapeuta não muda o sistema de crenças do paciente sem mais nem menos.

Injustiça social e falta de coerência

A autora não só é injusta como apresenta uma falta de coerência grande no que concerne aos exemplos usados para atacar as TNC.

Além de usar dados em que se contradiz (ervas não fazem nada mas afinal já fazem alguma coisa) usa exemplos sem nexo como foi o caso do Tallon ou da exposição radioativa.

O caso Tallon

O uso do exemplo do Tallon foi infeliz porque o Tallon é médico e prescreve medicamentos.

Assim sendo se existiu algum problema tem a ver com má prática médica e nunca com estas áreas (o que é que a Ordem dos Médicos fez a este respeito?).

Apesar de ler muitas críticas às práticas das TNC nunca leio relativamente às práticas da medicina ocidental, especialmente com a venda de tratamentos milagrosos para perda de peso.

A jornalista Vera Novais decidiu ser diferentes e acabou a culpar a fitoterapia… e os curandeiros!

As radiografias e os quiropratas

O perigo do excesso de exposição radioativa dos pacientes que recorrem a quiropatas é outro exemplo.

Isto é um problema real que afeta a quiropraxia nos EUA onde os terapeutas compram sistemas de radiografia e depois querem rentabilizá-las.

Quantos terapeutas em Portugal é que tem sistemas de radiografia nos seus consultórios?

O único problema em Portugal com excesso de radiação tem a ver com a prescrição que os médicos fazem de exames de imagiologia médica (Radiografias, cintigrafias, etc…) quando por vezes não são necessários.

A fitoterapia

Tentar vender a fitoterapia como perigo público nº1 sem nunca referir soluções que existem atualmente ou sem nunca apresentar o ponto de vista de muitos terapeutas que prescrevem a fitoterapia é outro erro e uma clamorosa injustiça social para o trabalho de muito terapeutas (24).

Certamente que existem perigos relativamente ao uso de fitoterápicos.

Por exemplo, muitos fitoterápicos que são comprados na net não tem bons controlos de qualidade (20).

Mas isso resolve-se prescrevendo fitoterápicos com selos de qualidade da CEE ou de empresas que sejam fiscalizadas pela FDA, exigem-se medidas públicas que favoreçam a segurança desses fitoterápicos, (21) etc…

Sem dúvida que existem perigos de interações farmacocinéticas e farmacodinâmicas com medicamentos.

Mas para isso evitamos prescrever se o paciente estiver muito medicado ou começamos a prescrever doses pré-terapêuticas e aumentamos a dosagem analisando a ocorrência provável de efeitos secundários.

Independentemente do número de medicamentos pode prescrever-se fitoterapia só na presença de alguns medicamentos e não de outros (23).

Ou seja existem formas de controlar os aspectos mais perigosos da prescrição e que infelizmente a autora não se deu ao trabalho de investigar.

Certamente existem pacientes que escondem dos médicos que tomam fitoterapia e por isso eu aconselho sempre os pacientes a dizerem aos médicos os tratamentos que fazem comigo.

Mas isto não é um problema somente das TNC sendo que está relacionado com a dificuldade que os pacientes sentem em falar com o médico. É desonesto procurar um único bode expiatório.

enfermagem na acupuntura integrar e complementar

Falta de objetividade: contextualizar histórias com dados concretos

De acordo com o artigo do Observador existe uma meta-análise publicada pela Cochrane que afirma que a acupuntura não é eficaz. E o Bastonário da Ordem dos Médicos afirmou que nos últimos estudos, esta técnica, já não demonstrou a evidência anterior.

Os últimos estudos?… porque a única meta-análise encontrada pela jornalista era de 2005 (4). O que dizem as meta-análises atuais sobre a eficácia da acupuntura?

Meta-análises atuais de acupuntura

Nesta meta-análise de 2015 mostrou-se que a acupuntura combinada com medicação era muito mais eficaz no tratamento da depressão do que medicação isoladamente (5).

Outra meta-análise de 2014 mostrou que a acupuntura no tratamento de osteoartrite estava associada a grande diminuição da intensidade de dor, melhorias na qualidade de vida e mobilidade (6).

Noutra meta-análise de 2016 comprovou-se que a acupuntura era útil na controlo de dor pós-operatória (7), Ainda outra meta-análise de 2017 mostrou que os efeitos analgésicos da acupuntura se mantêm no longo prazo (9).

Outra meta-análise de 2018 comprovou que a acupuntura tem efeitos de longo prazo relevantes no tratamento da dor crónica (10).

No tratamento da enxaqueca, meta-análises mais recentes são muito favoráveis à acupuntura (31).

Uma meta-análise de 2017 mostrou que a acupuntura era útil no alívio de dor em pacientes oncológicos enquanto outra não encontrou benefícios (8) e outra meta-análise de 2016 mostrou que a acupuntura conseguiu diminuir a dor, cansaço e melhorar a qualidade de vida em pacientes oncológicos terminais (11) indicando que a acupuntura deveria ser usada como complemento aos tratamentos médicos convencionais.

Mesmo que não concordemos com todos os estudos, qualquer análise minimamente cuidada das meta-análises existentes dificilmente iria tirar conclusões negativas relativamente à eficácia da acupuntura.

Uma análise do apoio cada vez maior que a acupuntura recebe de várias organizações governamentais e não governamentais, médicas e não médicas e os estudos em que se sustentam dificilmente iria acabar com conclusões negativas para a acupuntura. (12)

Infelizmente esta investigação não foi feita… em vez disso a autora preferiu fazer uma entrevista ao Bastonários da OM que é um leigo com claros interesses sectários e ideológicos.

Ultimately, it is not journalist´s role, and it is not the goal of activists or politicians, to present the world as it really is. They will always have to compete to engage our attention with exciting stories and dramatic narratives. They will always focus on the unusual rather than the common…

Factfulness, pág. 579

A conveniência da Cochrane

A autora preferiu focar-se num único estudo de 2005 da Cochcrane.

Esta instituição é conhecida por ter estudos de melhor qualidade que outras instituições.

A jornalista Vera Novais esqueceu-se de referir que existem uma série de outras meta-análises de qualidade.

Em 2011, por exemplo, uma meta-análsie de meta-análises da Cochrane com assinatura de um dos maiores céticos que existe (Edzard Ernst) conclui que:

“All of these reviews were of high quality. Their results suggest that acupuncture is effective for some but not all types of pain.”(30)

Em resumo:

Existem estudos altamente favoráveis à acupuntura como existem meta-análises que são mais recentes e positivas.

Podemos discutir acerca da qualidade de estudos e, sem dúvida que existem problemas, mas fica bem documentado que face à quantidade de estudos disponíveis ou a Vera Novais não se deu ao trabalho de fazer uma boa investigação para o artigo ou decidiu omitir propositadamente uma série de factos e estudos que colocariam em causa toda a linha editorial do seu artigo.

terapeutas tratamentos de acupuntura

Os riscos das TNC

Os perigos da Acupuntura: hemorragias, convulsões, pneumotórax e o fim do mundo

Ao apresentar a acupuntura, Vera Novais focou-se numa série de efeitos secundários associados a esta terapia.

Hemorragias, convulsões, perfuração cardíaca, pneumotorax, transmissão de doenças infecciosas… e tudo a negrito…

E com tantos estudos científicos sobre os perigos da acupuntura a autora preferiu não usar nenhum.

Existem perigos associados à acupuntura mas são extremamente raros e na maioria das vezes não são perigosos.

A melhor forma de os diminuir é melhorar a qualidade técnica do ensino dos acupuntores e não denegri-los publicamente. (16), (19)

Em vez disso a Vera Novais refugiou-se na única histórica negativa que encontrou e nunca mencionou o que dizem os estudos cientificos sobre a segurança da acupuntura!

O NIHCS afirmou que “uma das vantagens da acupuntura é que a incidência de efeitos adversos é substancialmente mais baixa que muitas drogas e outros procedimentos aceites para as mesmas condições”(13)

Um estudo de 2017 sobre a segurança da acupuntura em pacientes a tomar anti-coagulantes conclui-o que é segura e a % de incidências muito baixa. (14)

Outro estudo de 2014 conclui-o a mesma coisa (15) e outro estudo de 2001 com mais de 30000 consultas não encontrou um único efeitos secundário grave. (17)

No mesmo ano outro estudo diferente conclui-o que a acupuntura era segura quando feita por profissionais com boas formações técnicas e científicas (18).

A autora apresentou um caso de lesão do nervo periférico, mas num estudo com mais de 220 mil pacientes só foi relatado um caso desses (que durou alguns meses) o que o torna um evento extremamente raro (0,00045%).

No estudo de caso que fiz com dados da minha clinica em 237 pacientes surgiu um caso desses… provocado por um médico acupuntor que depois reencaminhou o paciente para tratamento comigo.

Ao longo de 15 anos lembro-me de 2 ou 3 pacientes que referiram sintomas de irritação do nervo que foram tratados rápida e eficazmente.

O que a Vera Novais não escreveu é que estes sintomas são facilmente percebidos e tratados na sua maioria das vezes e são eventos extremamente raros.

Sem dúvida que vendem jornais, ganham likes no facebook mas não correspondem à realidade clinica do dia a dia.

Atraso no diagnóstico

Como vimos no estudo de caso com dados da minha prática clínica a vasta maioria dos pacientes que recorrem a este tipo de serviços já está bem diagnosticada.

A pequena % de pacientes que não tinham diagnóstico médico prévio são novos e tem queixas de curta duração com sintomas leves a moderados ou então são pacientes que estão de passagem e precisam de um “remendo” rápido até chegarem a casa.

Pacientes com sintomas muito intensos e agudos vão para as urgências (como será óbvio para qualquer pessoa!) e pacientes com sintomas crónicos já foram vistos por médicos.

Ou seja a probabilidade de se atrasar um diagnóstico que seja salvador de vidas é incrivelmente baixo.

Não pretendo desvalorizar o sofrimento humano associado a estes riscos mas é nosso dever informar corretamente os leitores acerca do real potencial perigo destas situações.

O artigo da Vera Novais é baseado em testemunhos escolhidos a dedo para poder sustentar as suas crenças e não um artigo sério e objetivo sobre os reais perigos das TNC.

Os pacientes típicos da acupuntura tem características facilmente reconhecíveis:

1 – queixas crónicas limitativas,

2 – já tem diagnóstico médico feito,

3 – idade mais avançada,

4 – maioritariamente queixas álgicas e sem sucesso na medicina convencional.

A clara maioria dos pacientes recorre aos nossos serviços porque os tratamentos convencionais não funcionaram sendo que a probabilidade de não terem diagnóstico feito é muito pequena.

Rejeição dos tratamentos para a doença

Este risco é sustentado no artigo da Universidade de Yale que já comentámos e que apresenta vários problemas.

Um desses problemas é que em nenhum momento existe uma comprovação de fenómeno de causalidade a indicar que são os terapeutas TNC a convencer os pacientes a não fazerem tratamentos convencionais.

Mais uma vez a questão importante a fazer é:

São os terapeutas que convencem os pacientes a não fazer tratamentos convencionais ou os pacientes já tem um sistema de crenças montado que define a sua escolha?

Provavelmente a diferença entre os Sr. José e o Sr. João com que a jornalista Vera Novais começou o artigo é que um acreditava no médico e outro acreditava em bruxas!

Portanto devemos tentar focar-nos na causa dessas crenças e não só em arranjar um bode expiatório. Pode dar mais consolo mas dificilmente vai resolver o problema.

Morte

Existem casos de morte relatados devido a complicações da fitoterapia, acupuntura ou osteopatia mas são extremamente raros e, estão algumas vezes mais dependentes do paciente que do próprio terapeuta.

Muitos problemas com fitoterapia advêm de hábitos pessoais com tomas excessivas de determinado suplemento (o chá verde em fisioculturistas por exemplo). Outras vezes o terapeuta tem claramente culpa.

Estes eventos, além de extremamente raros, podem tornar-se ainda mais raros melhorando a formação técnica e científica destes profissionais.

Por exemplo a regulamentação em Portugal veio exigir uma série de ações em termos de segurança com consequências práticas:

1 – diminuir a probabilidade já baixa de infeções;

2 – gamas de fitoterapia com selo de qualidade da CEE;

3 – cada vez mais profissionais consciencializados sobre a existência de interações farmacocinéticas, etc…

tratamento manual de osteopatia

Conclusão

Existem perigos associados a estas práticas e devem ser endereçados (22).

Os doentes e os diferentes profissionais de saúde devem estar conscientes da presença destes riscos e manter uma comunicação aberta de forma a conseguir prevenir e detetar rapidamente estes riscos.

Mas estes riscos são mínimos. Tem certamente um sofrimento humano grande associado mas quando contextualizados são fenómenos raros.

A Vera Novais escolheu a dedo casos isolados sobre os riscos destas práticas e prescindiu de estudos científicos que contextualizariam esses casos.

Com isso deu uma imagem negativa e irreal dos verdadeiros perigos associados a estas técnicas.

Quando conveniente fez um cherry picking de estudos e esqueceu todo um vasto conjunto de estudos que seriam facilmente encontrados com um mínimo de investigação.

Estudos esses que obrigariam a uma revisão do artigo e das conclusões do mesmo.

Sem dúvida que existem terapeutas que são contra as vacinas e contra a quimioterapia e alguns podem aconselhar os pacientes a não fazer esses tratamentos.

Sem dúvida que já tive discussões com acupuntores australianos que admitiam aconselhar os seus pacientes a não vacinarem os filhos.

Mas a maioria dos pacientes que aceita isso não é porque o terapeuta lhe fez a cabeça mas sim porque já tem um conjunto de crenças que o leva a escolher esse tipo de terapeutas.

Ao mesmo tempo que existem terapeutas contra tratamentos convencionais muitos outros são a favor.

Na realidade, existe um número elevado de profissionais de saúde (médicos, fisioterapeutas, enfermeiros, técnicos, podologistas, etc…) que estudam acupuntura, osteopatia e fitoterapia, e não são contra os tratamentos convencionais.

Os farmacêuticos e alguns médicos tem amplos conhecimentos de fitoterapia enquanto uma grande percentagem de fisioterapeutas também são osteopatas.

Existe uma tapeçaria social de crenças e valores no seio das TNC que é sobresimplificada no artigo da Vera Novais e que não faz justiça social a muitos terapeutas, que não valoriza os seus valores humanos e profissionais, que desprespeita o seu estudo e conhecimento científico.

Essas pessoas também merecem ver o seu trabalho projetado e não merecem estar a ser catalogadas de forma tirânica e simplista a um conjunto de práticas com as quais não se identificam.

The necessary instinct to generalize… can also distort our worldview. It can make us mistakenly group together things, or people, or countries that are actually very different</p

Factfulness, pág. 253

Referências Bibliográficas

(1) https://observador.pt/especiais/ervas-agulhas-e-comprimidos-de-acucar-quando-as-alternativas-lhe-arranjam-um-problema-maior/

(2) https://clinicadeacupuntura.pt/luis-ribeiro-analfabetismo-superficialidade-jornalistica/

(3) https://acupunturaemlisboa.pt/pulga-do-scimed/

(4) https://www.cochrane.org/CD001351/BACK_acupuncture-and-dry-needling-for-low-back-pain

(5) https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S016503271500052X

(6) https://bmccomplementalternmed.biomedcentral.com/articles/10.1186/1472-6882-14-312

(7) http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0150367

(8) https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/ecc.12457

(9) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5393924/

(10) https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1526590017307800

(11) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4782866/

(12) https://clinicadeacupuntura.pt/acupuntura-e-placebo-fraude/

(13) JINDAL, Vanita. et all. Safety and Efficacy of Acupuncture in Children A review of the Evidence. J pediatri hamtol oncol. 2008. 30(6): 431-442.

(14) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4315381/

(15) https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1876382014000626

(16) https://www.nature.com/articles/s41598-017-03272-0

(17) https://www.bmj.com/content/323/7311/486.short

(18) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1121068/

(19) https://www.bmj.com/content/314/7091/1362.full

(20) http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0100-879X2000000200004&script=sci_arttext

(21) https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0045653503004715

(22) https://nunolemos.com.pt/falhas-das-tnc/

(23) https://nunolemos.com.pt/prescrever-fitoterapia-num-paciente-medicado/

(24) https://nunolemos.com.pt/prescricao-fitoterapia/

(25) https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fphar.2013.00177/full

(26) http://www.jcimjournal.com/articles/publishArticles/pdf/S2095-4964(15)60171-6.pdf

(27) http://journals.plos.org/plosntds/article?id=10.1371/journal.pntd.0002674

(28) http://www.cancerjournal.net/article.asp?issn=0973-1482;year=2010;volume=6;issue=3;spage=255;epage=262;aulast=Baliga

(29) https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/ptr.1605

(30) https://link.springer.com/article/10.1007/s11655-011-0665-7

(31) http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1516-31802015000600540&script=sci_arttext

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